“O Amante Bilingue” | Juan Marsé

“O Amante Bilingue” | Juan Marsé

O essencial carnavalesco não é pôr uma careta, mas sim tirar a máscara

De entre os muitos escritores espanhóis, Juan Marsé é tido como um dos maiores vultos, tendo levado para casa inúmeros prémios, alguns deles pelo conjunto da sua obra. “O Amante Bilingue” (D. Quixote, 2013), o seu último romance originalmente publicado em 2011 – tendo então 78 anos -, é o exemplo de uma escrita brilhante onde, nas mesmas páginas, cabem o humor, o sarcasmo, a tragédia e a melancolia. O livro é um brilhante exercício sobre a questão da identidade e, ao mesmo tempo, uma sátira imensa à bipolaridade social e linguística presentes na Catalunha.

Juan Marés (desde logo um trocadilho com a identidade do escritor) é um homem que assiste em directo à sua traição, chegando a casa para ver o amante da mulher sentado na sua cama a engraxar-lhe os sapatos, enquanto espera que esta saia da casa-de-banho. Quando o faz, nem uma única palavra é trocada, desaparecendo para sempre – ou quase – da vida de Marés.

Marés fica como louco. Filho de uma ex-cantora lírica alcoólica e do mago Fu-Ching pega no seu acordeão e torna-se um tocador de rua, um pedinte que tanto interpreta Pablo Casals – tem mesmo um cartaz promocional em que diz ser seu filho natural – como Edith Piaf. Na rua fazem-lhe companhia Cuxot, um tipo vesgo com boca grande e careca escurecida que desenha retratos a carvão e também Serafín, um corcunda que ganha a vida a vender tabaco e bilhetes de lotaria. Porém, nem mesmo com a presença de tão intensas amizades deixa de pensar no dia em que reconquistará o coração de Morna.

Certo dia, Marés vê-se visitado nos sonhos pelo seu outro eu, que diz ter um plano perfeito para reconquistar a mulher. Em conjunto, decidem que Marés se transformará em Faneca, um amigo de infância que partiu para a Alemna em busca de uma vida melhor para nunca mais ser visto. Porém, «o essencial carnavaleco não é pôr uma careta, mas sim tirar a máscara» (palavras de António Machado citadas no livro), e Marés vê-se cercado por uma secreta nostalgia: a de ser um outro, mestre do engano e do disfarce, tentando alterar as linhas do destino. Um romance tocante e de uma esquizofrenia singular.



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