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O Camareiro

Ou o homem por trás da cortina.

Estreou no passado dia 10 no Teatro Nacional D. Maria II o espectáculo “O Camarareiro – The Dresser”, uma obra com todo o peso que é aliado ao  seu incontornável autor, Ronald Harwood, trazido a lume por um trabalho de “gente grande”. João Mota, o mestre da casa A Comuna, é tomado no bom casamento que reúne novamente a sua família no seio do D. Maria II, com mais uma encenação sob sua pauta.

O camareiro podia ser apenas aquele que veste, aquele que assiste no camarim, não fosse a experiência de Harwood tão rica que desta obra se extraísse um quanto baste de perfil biográfico, que justapõe a sua própria vivência na Shakespeare Company of Sir Donald Wolfit, na década de 50.

A obra reporta, por isso, à enorme paixão de Harwood pela figura do actor e à vida nos bastidores do teatro. A história gravita entre os dedos do peso pesado Ruy de Carvalho, na pele de Sir Wolfit, um velho corpo de actor que soma o papel de director de uma companhia itinerante – numa Inglaterra em tempo de Segunda Grande Guerra – cuja luta maior é tentar mater a sua própria sanidade e completar a sua 227.ª representação do Rei Lear. E aqui se cruza a história da personagem com a do autor, na medida em que os contornos do camareiro Norman, vestidos pelo actor Virgílio Castelo, são os da sombra que ajuda o actor a vestir-se, a sombra que o acompanha e protege, fazendo com que aquele velho corpo (o do Sir) consiga voltar a palco e representar o seu famoso Rei Lear, mesmo que pela última vez.

O camareiro é o que anda sobre os limites da ficção, o teatro e a vida. Daí talvez se transporte tão bem para o espectro da tradição teatral inglesa, de outros tempos, vivia na figura do actor-empresário, aquele que a custo próprio financiava uma companhia para a pôr em digressão com a fina flor da palavra shakespeariana. O homem, o empresário, o actor. A dedicação, o carrego e o eterno fascínio que Harwood a Ele lhe dedicou. E é nesta viagem aos bastidores da sua vivência que assistimos ao reencontro de uma outra família, uma família de grandes actores – mesmo que parte deles já sejam mais familiares por telenovelas e séries dos 4 canais de antena –, feita de provas mais que dadas. As casa d’A Comuna e do D. Maria II em comunhão num retrato que, fora de época, não deixa de ser transitivo para a pele dos actores e esforçadas companhias de hoje.

Ruy de Carvalho, na sua desarmante simplicidade, agradece os aplausos que o acolhem na casa que já foi sua, até ao ano 2000 – por decisão ministerial que precipitou a sua saída e a de toda a equipa residente. Acompanhado por Virgílio Castelo, Maria Amélia Matta, Paula Mora, José Neves, Maria Ana Filipa, Alexandre Lopes, Carlos Paniágua, Armando Valle-Qaresma, Frédric da Cruz, Marco Paiva, Mia Farr, Rui Neto e Tânia Alvez, estará em cena na Sala Garrett até ao dia 25 de Outubro. Com os nossos olhos e vénias, e as vossas –esperamos – também.



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