Fellini

O cinema do Sonho de Fellini 8 ½

E depois do adeus à la dolce vita do neorealismo nasce Fellini oito e meio.

E depois da estrada neorealista e do recém inaugurado trilho do delírio fantástico de La Dolce Vita, Fellini questiona a arte, o cinema e a si próprio enquanto criador e pessoa em Fellini Oito e Meio.

Partindo de uma crise criativa metódica, ou não seja a dúvida criativa apanágio dos grandes criadores, o poeta visual italiano parte para a realização de uma obra sem estrutura romanesca  definida como estávamos habituados a ver, e propõe-se fazer, devido à influência da psicologia de Jung e o seu interesse crescente pelo paranormal, um filme de tema multidimensional onde se cruzam os universos paralelos do passado, presente e futuro.

O oitavo filme e meio do genial realizador que pode ser visto com cópia restaurada em digital no 9º Festival de Cinema Italiano em Lisboa, que decorre até 7 de Abril, é um poema-delírio visual já composto pelos dictames interiores do autor diferente das obras neo-realistas como “La Strada”,  “As Noites de Cabíria” ou “La Dolce Vita”. Abandonando progressivamente os princípios do realismo puro, Fellini embarca no cinema enquanto arte desprovida de qualquer artifício que não seja o da imaginação.

Possuído apenas pela liberdade e pela verdade não do espelho mas da alma, passa a experimentar um tipo de cinema que podia “relatar realidades interiores mais profundas e subtis como Kurosawa ou Buñuel o tinham feito”, como confessa numa entrevista em 1992. No precipício para um voo ao universo da imaginação pura, do delírio e do sonho, depois de 7 filmes e 2 episódios, é um exercício quase paranormal de recordações de infância, mistério, fantástico do cineasta que estende o tapete a uma alucinação em que se joga com a verdade e a mentira.

E Fellini não é um natural mentiroso mas possuidor de uma mentira que estrutura a verdade ou não fosse a arte, como afirma Jean Cocteau, “uma mentira que afirma a sempre a verdade”.

De pesadelo em sonho, e de verosímil lembrança da infância, à alucinação pura ou imaginação, a obra tem tanto de autobiográfico como de efabulação. O tema do filme é o de um realizador que não sabe exactamente que filme quer fazer e não há nada mais clarividente que isso mesmo para quem assiste. De cena em cena, múltiplas personagens vão questionando sobre a próxima obra, desde produtores famintos a actrizes desesperadas e jornalistas impertinentes. Na sequência final do filme que retrata, afinal, o início da realização da esperada obra, surgem todos os intervenientes da produção do filme num cenário meio apocalíptico, meio circense e de tábua rasa, encenação pronta para dar asas à livre imaginação, de hino à vida e ao sonho, e dá-se a libertação do cinema para o puro delírio que irá caracterizar o cinema de Fellini a partir daí, e influenciar a criação de todo um novo cinema e as criações dos realizadores, afirmando o realizador italiano que “nada é mais honesto que o sonho”.



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