“O Colecionador de Mundos” | Ilija Trojanow

“O Colecionador de Mundos” | Ilija Trojanow

O mistério adensa-se

Quando, no final do ano, derem uma vista de olhos pelas listas das melhores edições literárias de 2013, não mostrem admiração por encontrar, provavelmente entre os cinco primeiros, “O Colecionador de Mundos” (Arkheion, 2013), do búlgaro Ilija Trojanow.

O romance é inspirado na vida e obra de Richard Francis Burton (1821-1890) mas, apesar de terem sido incluídas «algumas declarações e explanações» suas – como se pode ler na curtíssima introdução -, a história é, em grande parte, o fruto da imaginação do autor, «uma aproximação pessoal a um mistério que não se pretende desvendar».

Sir Richard Francis Burton foi uma das mais extraordinárias personalidades do século XIX, uma daquelas criaturas que, por artes mágicas, conseguiu viver mais do que uma vida durante a curta existência terrena. Foi Oficial do Exército Britânico, viajante, explorador, tradutor – traduziu para o inglês clássicos como As Mil e Uma Noites ou Kama Sutra -, espião ou mestre do disfarce, entre outras facetas conhecidas e desconhecidas.

Em “O Colecionador de Mundos”, Ilija Trojanow transporta-nos a três dos mundos que marcaram a vida de Burton – a Índia, o Médio Oriente e a África –, oferecendo uma multiplicidade de narradores e personagens que transformam a leitura numa jornada épica a bordo de um tapete voador.

Grande parte da narrativa é-nos contada por Naukaram, o criado de Burton, através de entrevistas ao Lahiya, que tem a missão de lhe escrever uma carta de apresentação profissional. Nessa rememoração do passado vão surgindo personagens incríveis: Kundalini, a concubina de Burton, uma mulher onde «havia mais do que uma segura promessa de prazer»; o General Napier, «um pedante, até mesmo nas metáforas que empregava»; o brâmane Upanitche, professor de Burton, com uma casa com o ar de biblioteca desordenada.

Entre o livro de aventuras e a jornada espiritual, “O Colecionador de Mundos” tem o poder do encantamento e da baralhação. A certa altura, a história torna-se tão fantástica que não interessa mais quem a escreve, como o dizem estas palavras do Lahiya: «O aspeto decisivo era que a obra o ultrapassava, poderosa e estranha, como se não tivesse sido ele a dirigir tudo, e de repente lembrou-se da frase que o arquiteto desconhecido do templo de Kailash, em Ellora, mandara inscrever no edifício, a maior frase jamais legada por um criador: como consegui construir isto?». Ilija Trojanow construiu com este livro o seu templo literário e, mais importante, conseguiu aquilo a que propôs: não desvendar o mistério em redor da figura de Richard Francis Burton, antes adensá-lo. Épico.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This