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“O Conde Negro” | Tom Reiss

A Literatura como o lugar verdadeiro da História

Se perguntarem a um amante de literatura clássica quem é o general Alex Dumas, na melhor das hipóteses receberão de volta um “talvez seja avô, pai ou primo do grande Alexandre Dumas”, escritor que, entre outras preciosidades, nos ofereceu romances intemporais como “Os Três Mosqueteiros” ou “O Conde de Monte Cristo”.

Aliás, se quisermos desvendar a fantástica história que se esconde por detrás de Alex Dumas, o melhor mesmo será começar por procurar nas entrelinhas de “O Conde De Monte Cristo”, já que a grande inspiração de Alexandre Dumas terá vindo de Alex Dumas, nada mais nada menos que o seu pai.

Praticamente desconhecido nos dias de hoje, o general Alex Dumas foi um negro das colónias – nasceu na colónia produtora de açúcar com o nome Saint-Domingue – que sobreviveu por pouco à revolução francesa, ascendendo meteoricamente à tarefa de comandar 50000 homens e tornando-se, na elite francesa de então, uma das suas maiores figuras.

Tom Reiss, biógrafo apaixonado e autor do bestseller “The Orientalist”, decidiu contar a história de Alex Dumas, “O Conde Negro” (Texto, 2014), e nem o facto de se ter deparado com a sua fonte primordial morta, ou com o cofre com a documentação sobre Alex Dumas trancado e sem qualquer chave ou combinação para o abrir, foram razões suficientes para o fazer desistir. Resumidamente, digamos que encontrou na Associação dos Três Dumas um aliado de peso, que através de um donativo fez com que Reiss pudesse arrombar o cofre e dispor de duas horas para fotografar e vasculhar em tudo o que pudesse deitar mão antes de a polícia chegar para tomar conta do caso.

Tom Reiss vestiu a pele de detective, abarcando a Revolução Francesa, a Revolução do Haiti e a ascenção de Napoleão, com quem Alex Dumas se incompatibilizou durante a invasão francesa do Egipto. Ao contrário deste, Dumas defendia a luta pela libertação do mundo, e não pelo seu domínio.

Tom Reiss conta-nos, nesta extraordinária biografia, a história de um negro que vingou num mundo de brancos, celebrado como um herói numa época em que a base da riqueza francesa era, precisamente, a escravatura negra das colónias.

Alex Dumas foi trancado sem testemunhas nem julgamento na masmorra de uma fortaleza com o nome de Castelo de If. Porém, ao contrário do romance do filho, não encontrou por lá um benfeitor para o ajudar a fugir ou a encontrar um tesouro escondido, e viu desaparecer o seu lugar devido nos livros de História.

Alexandre Dumas, autor de “O Conde de Monte Cristo” e descendente do Conde Negro, foi um alvo constante de partidas e comentários racistas. Apesar de nunca ter conseguido descobrir toda a verdade acerca do pai – ou restaurar o seu lugar nos manuais de História -, vingou-o criando um mundo de ficção onde nenhum transgressor fica sem castigo, e onde as pessoas boas são protegidas.

Recordar foi sempre o sentimento predominante nos romances de Alexandre Dumas, que apontava o esquecimento como o pecado maior que alguém poderia cometer. Com “O Conde de Monte Cristo” fez com que a vida do seu pai jamais pudesse ser apagada, fazendo da literatura o lugar verdadeiro da história. Agora, graças a Tom Reiss, a história de Alex Dumas é-nos contada de forma empolgante, tal como o terá sido a sua vida. Uma das mais incríveis biografias que poderá ler este ano – e até mesmo nesta vida.



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