“O Devorador” | Lorenza Ghinelli

“O Devorador” | Lorenza Ghinelli

Se acreditares nele, ele encontra-te

Diz-se que não se deve julgar um livro pela capa mas, no caso da edição portuguesa de “O Devorador”, da italiana Lorenza Ghinelli, a capa serve de sério e certeiro aviso à navegação: o céu ameaçador, um frio que atravessa a roupa, um parque de diversões com ar de abandono, a inquietação e o medo como sentimentos que crescem no interior de cada um, o perigo à espreita.

A história apresenta-nos a um grupo de amigos singulares: Filippo, considerado um deus pelos mais pequenos, que tem a luta como vocação e falta à escola como acto de honra; Francesco, um rapaz firme e que sabe fazer-se compreender; Dario, um miúdo aprisionado entre o dever de agradar e o de cuidar do irmão Pietro, autista, palerma, genial – uma presa fácil.

No dia em que Pietro é atacado de forma sádica refugia-se ainda mais no seu mundo interior, fazendo estranhos desenhos de um velho que em tudo evoca a morte: roupão preto por cima de umas calças e camisa também pretas. Chapéu preto. Ténis brancos. Bengala de madeira escura, com a cabeça de uma ave a servir de punho. É ele o Homem dos Sonhos.

Pouco tempo depois, várias crianças desaparecem em condições macabras, como que sugadas para outra dimensão, apenas restando delas o invólucro representado pelas roupas bem dobradas que ficavam como recordação.

Quando Alice, a psicoterapeuta de Pietro, vê os seus desenhos, acendem-se na sua memória luzes que julgava apagadas mas que, na verdade, apenas estavam à espera que alguém subisse a sua intensidade. Poderá a imaginação criar um monstro real, que se vai alimentando do ódio e do ressentimento, um devorador de almas humanas?

Numa atmosfera que muitas vezes evoca o horror fantástico de Stephen King, Lorenza Ghinelli acrescenta-lhe a tristeza da infância, a maldade precoce, o peso das recordações e o fantasma dos abusos de infância, fazendo deste romance, de certa forma, um retrato da fobia social em tenra idade. «Se acreditares nele, ele encontra-te», espécie de mantra que nos acompanha até ao fim. E vocês, ainda acreditam no bicho papão?



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