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O dia pela noite

10 Artistas Plásticos, 10 Intervenções, 10 Meses, 01 Nova década. Lux, 27 de Abril

São 23.30 de uma terça-feira, chega-se ao pé do rio, sente-se a brisa quente das primeiras noites de calor. João Pedro Vale recebe-nos com a sua grande entrada para o mundo cor-de-rosa. Estes são os ingredientes que preparam uma noite que promete ser reveladora.

Tudo isto aconteceu no passado dia 27 de Abril na discoteca Lux Frágil, que em parceria com a Fundação EDP inaugurou O dia pela noite.

Este espaço alberga 10 intervenções de 10 artistas que na última década têm vindo a desenvolver trabalho, em tom de abertura a uma nova década, uma nova Era. O Lux ao longo dos últimos anos habituou-nos à irreverência e à novidade e esta exposição não será excepção.

Rainbow Kiss (de João Pedro Vale) é a primeira obra que nos recebe, logo às portas do Lux. Marcando a entrada e todo o edifício encontramos uma grande parede rosa em modo País de Algodão Doce. Marca exterior da famosa discoteca, esta parede já teve todo o tipo de maquilhagem, desta vez é palco de uma intervenção que nos leva onde ainda não conseguimos saber.

Entrando pelo Lux as obras envolvem-nos criando um percurso aberto onde a bebida e a música criam os seus próprios trilhos. Ao longo do primeiro piso as intervenções de 4 artistas emolduram-nos as conversas e os olhares.

Pedro Gomes aparece-nos logo ainda nas escadas de acesso a este piso com a sua obra s/ título onde nos deparamos com alguém que nada vê, nada fala, nada quer ouvir. Nada melhor para esquecer o lá fora, daqui em diante tudo será uma folha em branco – puro entretenimento.

Procurar as obras, desenhar o percurso faz-nos vaguear por este andar, apreciar o que de melhor o Lux nos dá – espaço. É sobre ele que as intervenções tratam, sobre onde estamos, fazendo-nos reencontrar o espaço tantas vezes visitado. Mafalda Santos faz-nos o trabalho de casa e intervém em cada coluna – 10, cada uma por 1 ano, como se de um mapa desses 10 anos se tratasse.

A sala enche-se, a música torna-se mais dançável. A obra de Rodrigo Oliveira enche este piso. Enquadrando a cabine do DJ e o Bar por baixo, a sua parede em acrílico espelhado faz-nos entender porque aqui estamos todos. We cannot Escape from each other é talvez a obra que visualmente mais cativa e mais ilumina todo este primeiro andar.

Se o Lux tinha já de si um encanto que dificilmente se encontra em outro espaço nocturno lisboeta, as intervenções artísticas trazem-lhe uma intensidade e uma envolvência que nos transporta para uma outra dimensão.

Francisco Queirós compõe o resto do grupo que expõe neste primeiro espaço alimentando as paredes de elementos figurativos.

Ainda antes da visita ao delicioso terraço, uma pequena paragem na casa-de-banho e percebemos que nem aqui foi deixada ao acaso a intervenção e lavamos as mãos ao som da obra de Francisco Vidal. Com a participação de Rita GT ouvimos e vemos no plasma ao lado dos espelhos, Bandeira nacional di Fim, uma desconstrução do já bastante antigo final de emissão da RTP.

Na ida ao terraço não é de todo menor a surpresa para com as obras. Ao sabor do pouco vento que se fazia sentir, a segunda obra de Francisco Vidal, a série de bandeiras intituladas Funky Portuguesas lembram-nos que estamos à beira-rio plantados. Ao fundo, com o Panteão ao longe está Boca de Cena, a mais nova pista de dança / ponto de encontro / palco de amores de uma noite, de Pedro Barateiro.

A descida de volta a outras sonoridades revela-se perfeita ao encontrarmos I was here the whole time, uma inscrição na própria parede do Lux de Alexandre Farto. Um pequeno grande pormenor que nos faz sorrir e olhar uma vez mais em volta para ver se desta vez nada se perde.

Este artista pontuará toda a nossa descida ao piso mais térreo da discoteca redesenhando o skyline de Lisboa pelas paredes das escadas. Utilizando cartazes, Alexandre traz para dentro aquilo que deixámos lá fora, a nossa cidade. A paredes meias com a última obra de Alexandre, um vídeo projectado sob stencil (Glimpse), encontramos uma viagem louca num vídeo de Gabriel Abrantes. Ainda a descida vai a meio e paramos para deixar que a narrativa descontextualizada de Gabriel nos prepare para a entrada no sub-mundo da disco onde o vídeo se enquadra como mais um “filme” tão possível como qualquer outro.

A música torna a mudar, o espaço, as pessoas ganham outra energia e outra atitude. Estamos o local de maior liberdade, de pura sensação. Ao som da nova banda Paus, as luzes ora revelam, oram escondem a obra de Vasco Araújo. A entrada não poderia ser a melhor para o sub-mundo. A intervenção, por todas as paredes da pista do R/C do Lux, faz-nos mergulhar numa obscura WC gigante. As palavras escritas a tinta sensível a luz negra revelam-se e poderíamos perder toda uma noite à procura da frase certa para nós.

A banda Paus não estará lá certamente todas as noites (por pena de quase todos os que ouvíamos atentamente) mas o espaço é de certeza um a explorar.

O Lux sempre foi um espaço, Aquele espaço… as obras só o tornaram ainda mais vivível, apetecível. Cada pequeno pormenor foi o que criou o Lux, esta intervenções vêm homenageá-lo dando mais uma razão para lá irmos. Sem dúvida um espaço / exposição a ir e a repetir.

Fotografia por Luísa Ferreira



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