“O Direito à Preguiça” | Paul Lafargue

“O Direito à Preguiça” | Paul Lafargue

Há um fino eco que se faz ouvir

Duas coisas saltam à vista na pequena biografia que acompanha “O Direito à Preguiça” (Teorema, 2011), de Paul Lafargue, sendo que a primeira sensibiliza pela sua natureza Shakesperiana – o autor e sua mulher Laura suicidaram-se juntos – e, a segunda, pela curiosidade que desperta – Laura era filha de Karl Marx.

Pese o tempo de escrita (Lafargue começou a publicar o ensaio no jornal socialista L’ Égalité a partir de 1880), assim como a participação activa do autor na vida política europeia, é fácil deduzir que a preguiça aqui abordada é resposta directa ao flagelo social da classe operária pós-revolução industrial/revolução francesa.

A crítica de Lafargue é muitas vezes inflamada. Além do judeu estereotipado, ganancioso e corrupto, o alvo principal é o burguês capitalista e emancipado da nobreza, dado a práticas hedonistas de excesso («luxo desenfreado, às indigestões recheadas e às orgias sifilíticas») quando não está a vilipendiar o operário das fábricas que possui, explorando-o em mais de 14 horas diárias. O cariz panfletário da prosa parece consolidar a ideia de uma demagogia intolerante na esquerda revolucionária do virar de século.

A preguiça que o autor vê transfigurada negativamente surge, pois, não como uma máxima carpe diem, mas antes como uma recompensa canina ao fim de um dia penoso. A indignação de Lafargue seria hoje semelhante àquela com que muitos se manifestam contra a selvajaria da indústria asiática, com extenso investimento de um ocidente que lava as mãos, qual Pôncio Pilatos. Mas esse fino eco que une as mentalidades não tem margem de manobra para singrar muito além de um fácil «já viste como as coisas nunca mudam».

A luta revolucionária de Lafargue recorre à antítese daquilo que, anos mais tarde (e noutro contexto), Ortega y Gasset apelaria: uma elite governativa esclarecida, inata à condição social do Homem, consciente das necessidades dos talvez não tão esclarecidos. Por sua vez, a fé marxista canaliza as suas forças para o triunfo do proletariado sobre uma minoria endinheirada e, até aqui, nada de novo, a não ser a forma ingénua (sabendo nós o que sabemos hoje) com que Lafargue deposita a sua  esperança na máquina, quase personificada, isto antes do êxtase-progresso dos futuristas italianos.

Talvez o maior perigo com que se depara o leitor de 2013 seja a necessidade instintiva de procurar paralelismos com a actualidade, sem primeiro entender que “O Direito à Preguiça” é crítico da época em que foi escrito e é, em si, vincadamente temporal.



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