Camilla Lackberg

“O Domador de Leões” de Camilla Lackberg

Raparigas desaparecidas

Foi em tempos apelidada de “Agatha Christie que vem do frio” e, ao longo dos anos, e dos livros publicados, a sueca Camilla Lackberg tem-se afirmado como um dos nomes mais fortes do universo dos policiais/thrillers nórdicos (e não só) não descurando tal título e responsabilidade.

Longe vão os tempos da (boa) surpresa que foi “A Princesa de Gelo”, obra de estreia da escritora, quando Erica Falk e Patrick Patrik Hedström não passavam de uma dupla unida pelas circunstâncias da investigação da morte de Alex, amiga de Erica, e hoje os romances escritos por Lackberg são uma espécie de muito aguardado tomo com edição no verão.

“O Domador de Leões” (D. Quixote, 2016), nono “episódio” da série e que têm como protagonistas o agora casal Erica/Patrick, não foge à regra e assume-se como um dos mais arrepiantes, negros e trágicos livros da autora nascida na entretanto “célebre” pequena cidade de Fjällbacka, urbe natal de Camilla Lackberg e palco habitual dos seus romances.

O domador de leões - Camilla Lackberg

Tudo começa num gélido janeiro em, claro está, Fjällbacka. Uma adolescente, de vestes rasgadas, sai do coração de um bosque a cambalear e visivelmente maltratada. Apanhado de surpresa, um condutor que circula na entrada circundante não consegue evitar o embate e atropela a jovem.

Quando a polícia local toma conta da ocorrência já se conhecia a identidade da vítima. Tratava-se de Victoria Hallberg, desaparecida há cerca de quatro meses. A última vez que tinha sido vista regressava a casa depois de uma aula de equitação.

Ainda que trágico, o acidente revelou-se como uma espécie de libertação para Victoria pois o estado em que o seu corpo se encontrava indiciava que a adolescente tinha vivido uma experiência macabra que levava a crer que o mal não tem limites. Esta revelação deixa Fjällbacka em choque e a comunidade sente que a triste sina de Victoria não foi um caso isolado.

Enquanto Patrick e restante equipa se ocupam do assustador caso da rapariga desaparecida, Erika investiga o tortuoso passado de uma família ligado ao mundo do circo para escrever mais um livro. Para isso, Erica tem por hábito visitar Laila, uma mulher que foi acusada de matar o marido e que está encerrada num estabelecimento prisional psiquiátrico. Apesar da constante pesquisa e insistência, Erica não consegue arrancar a história de Laila que guarda dentro de si, no sítio mais recôndito e negro da sua alma, o paradeiro dos seus dois filhos.

Com uma dinâmica narrativa que joga em dois planos temporais distintos (o presente e laivos das décadas de 1960, 1970 e 1980 que vão conferindo unidade estrutural a toda a estória), “O Domador de Leões” é, à semelhança de outros livros da autora e série, um veículo em que o leitor é convidado a entrar num enredo de características “familiares” tal é o grau de conhecimento que Camilla Lackberg nos tem passado de personagens como, por exemplo, Annika, irmã de Erica, cuja relação com Dan é neste livro alvo de muita instabilidade, Martin, camarada de Patrick e ainda a tentar ultrapassar a morte da sua mulher Pia, Gosta, polícia veterano que revela um pouco mais da sua personalidade, ou Berti Mellberg, o sui generis chefe de Patrick cuja “chica-espertice” eleva os momentos de humor deste romance.

O enredo, bem intrincado, vai-se revelando contagiante e ainda que sem o ritmo de outros livros de Lackberg, somos, paulatinamente, convidados a mergulhar no mar revolto da vida do inválido e amargo Einar, pai de Jonas, o veterinário local, assim como de Marta, sua esposa e monitora da escola de equitação. Noutro plano estão a já referida Laila e o seu falecido marido Vladek, ex-estrela circense.

Com momentos verdadeiramente claustrofóbicos, onde a maldade é uma fronteira pronta a ser ultrapassada pelo mais insuspeito dos seres, “O Domador de Leões” é um tour de force cujo final de cada capítulo deixa uma pista que logo nas linhas do capítulo seguinte é colocada em causa. Com isso ganha o suspense, a emotividade, a dúvida e o leitor, pois se é fã de policiais não ver querer perder o mais recente livro de Camilla Lackberg.



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