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“O Enigma do Quarto 622” de Joel Dicker

Uma encenação (quase) perfeita

De um escritor como o suíço Joel Dicker só podemos esperar o melhor. Mas, depois do estrondoso sucesso que foi A Verdade sobre o Caso Harry Quebert, o seu segundo romance e o mais bem-sucedido da sua (ainda curta) carreira, caía sobre o autor aquela pressão positiva de se tentar superar. E, tanto O Livro dos Baltimore ou O Desaparecimento de Stephanie Mailer viriam a confirmar a mestria do romancista helvético, pródigo em criar e explorar atmosferas narrativas que mesclam o suspense de um thriller com um intrincado e bem construído enredo policial.

E eis que chegados a 2020, temos mais uma obra assinada por Dicker. Falamos de O Enigma do Quarto 622 (Alfaguara, 2020), uma intriga que nos leva até à terra natal do autor e que, pela primeira vez, tem Joel Dicker a fazer de si mesmo, na pele de um romancista que tenta ultrapassar a morte do seu editor e um desgosto amoroso, e se vê envolvido na revisitação – que resultará, claro está, num livro – de um misterioso assassinato ocorrido há cerca de 15 anos no Hotel Verbier, no coração dos Alpes suíços, onde se hospedou para procurar um novo rumo para a sua vida.

E a estada que se esperava e ansiava como um período de tranquilidade e introspeção, acaba por se transformar numa investigação que leva Joel Dicker, na companhia da bela e dinâmica Scarlett, hospedada no quarto ao lado do seu, que revela um enigma bem escondido.

No coração da trama está um triângulo amoroso composto por Macaire e Anastasia Ebezner, marido e mulher, e Lev Levovitch, amigo comum, assim como amante de Anastasia, e um dos funcionários de maior prestigio do Banco Ebzener, propriedade da família de Macaire. E é sobre a perspetiva de cada um desses protagonistas que o enredo de O Enigma do Quarto 622 nos chega, misturando momentos presentes com flashbacks que contextualizam e revelam mais sobre cada uma dessas pessoas.

Mas, à semelhança de outros livros de Dicker, também os personagens secundários são determinantes para toda a trama, assumindo-se como peças importantes de um puzzle gigante de perfil cinematográfico, como o autor faz questão de sublinhar a sua obra. Assim, todos os pormenores são importantes, venham eles de um personagem sinistro como o “velho” e intragável Sinior Tarnogol, o desafiante e teatral Sol Levovitch, pai de Lev, o enigmático Wagner, a desesperada e apaixonada Arma, empregada de Macaire e Anastasia, o ambicioso Jean Bénédcti Hansen, membro do banco Ebezner ou Edmond Rose, diretor do Hotel Verbier.

Todos juntos, elevam o mais recente livro de Joek Dicker a um nível onde o mistério, as dúvidas, as traições, o egoísmo, o mundo da alta finança, a ambição desmedida, o desespero, os jogos de poder, a inveja e a inocência se misturam à boleia de uma velocidade vertiginosa que só encontra paralelo na imaginação do autor.

As várias camadas de manipulação, verdades, mentiras e reviravoltas sucedem-se a um ritmo que deixa o leitor ansioso pela próxima grande revelação, a fazer lembrar a genialidade de um filme como O Jogo, de David Fincher, num crescendo de emoção e sentimentos diversos que fazem com que as mais de 600 páginas desde livro se devorem num ápice, levando à conclusão e resolução de um crime e encenação quase perfeitos, repetindo a bem-sucedida fórmula de escrita de Joel Dicker.





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