O Experimentar | “2: Sagrado e Profano”

O Experimentar | “2: Sagrado e Profano”

Entre a devoção religiosa e uma imensa folia

Misturar música de origens tradicionais com uma electrónica feita de sombras e delírio tem a sua dose de risco. Para além de a colagem poder ser feita com água e farinha, há também a probabilidade de tudo soar forçado ou armado de um espírito inventivo de trazer por casa. “2: Sagrado e Profano”, disco que corresponde à segunda aventura no formato longa duração d`O Experimentar, vem mostrar que o risco, muitas vezes, compensa (e de que maneira).

Pedro Lucas, açoriano a residir na Dinamarca, é o mentor de O Experimentar Na M`Incomoda, projecto açoriano que, partindo do cancioneiro tradicional dos Açores – alguns dos temas “2: Sagrado e Profano” bebem da antologia de recolhas feitas por Artur Santos nos anos de 1960, na ilha de São Miguel, e também por José da Lata -, o reinventa à sombra de uma modernidade onde, a celebração religiosa e a grande folia andam sempre de dedos entrelaçados, sem mostrar qualquer sombra de pecado ou embaraço.

Pedro Lucas vive em Copenhaga mas, tal vivência num País bem comportado e arejado do norte da Europa, não o faz perder a ligação às raízes açorianas, sempre com o mar e a cruz no pensamento. No disco participam ainda Carlos Medeiros, Zeca Medeiros e Pedro Gaspar.

Em «Pai Paulinho», depois de um primeiro andamento de balada popular, subimos ao Pico para tomar mescalina com os The Doors; «Braços» começa com um verso que poderia ser uma bonita canção de engate, faz depois pensar nuns Sétima Legião abraçados pelo drum ´n´ bass e, a rematar, arranca para África para celebrar o sol e a boa vida; «Chamarrita» é Tom Waits a beber um Gorreana na manhã seguinte a uma daquelas noites difíceis; «Minha Voz Vou Levantar» é música de exorcismo, cercada por negrume e trevas; em «São José a Caminhar» celebra-se o nascimento de Cristo ainda com o boi – que por acaso se chama Bento – no presépio; «Lira» ganha contornos de história de encantar contada às crianças num filme de Tim Burton; «Tanchão» é uma mezinha tradicional em forma de canção.

Voltemos ao início. Misturar música de origens tradicionais com uma electrónica feita de sombras e delírio tem a sua dose de risco. Em “2: Sagrado e Profano”, o desejo de fusão foi recompensado com um disco que saiu enorme. A uma missa celebrada com o fervor e a devoção dos crentes, seguiu-se uma festa para a qual todos foram convidados, celebrando o mar que nos cerca e nos dá de alimento. Se o experimentar incomoda? Nada mesmo.

Uma edição Ponto Zurca



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