FUMO

O festival abençoado

A edição deste ano do FUMO não teve um começo fácil. Para além da concorrência desleal com o europeu de futebol, que tem decorrido nos mesmos dias, a chuva que se fez sentir no dia 20 de Junho, primeiro dia de festival, levou ao cancelamento da projecção ao ar livre do filme ‘Um sítio onde pousar a cabeça’ de Ricardo Espírito Santo. Mas se se costuma dizer que ‘casamento molhado é casamento abençoado’ o mesmo se pode dizer do FUMO. Com as sessões praticamente cheias, o balanço que se faz ao fim da primeira semana de festival é bastante positivo. A maratona cultural continua amanhã, dia 27 de Junho, e termina dia 30 com o esperado concerto de Mão Morta

Apesar dos pequenos contratempos, o festival deu início com a projecção ao ar livre do filme “R.Stevie Moore – tape to disc” de Nuno Monteiro, no pátio da Casa Bocage. O espaço, antiga casa do poeta da cidade transformada em museu, serviu assim para dar o arranque ao FUMO. Apesar da pouca afluência de público nesse dia, e da não comparência do realizador como estava previsto, não podemos deixar de sublinhar o interesse do filme. Um conjunto de peças áudio e vídeo, entre actuações ao vivo e entrevistas, reunidas num único filme por Nuno Monteiro, que é bem capaz de ser o fã número um de R.Stevie Moore. Nascido em Nashville, filho de pai músico, R.Stevie Moore começou por gravar as suas músicas num gravador de cassetes em meados dos anos 70. Como se estivesse a gravar um programa de rádio, Moore conseguiu reunir um espólio extenso da sua música completamente desconhecida de quase todos, mas ainda assim com uma legião de fãs dedicados. Mas o que torna esta personagem tão curiosa, e interessante ao mesmo tempo, é o sentido de humor e uma certa ingenuidade com que R.Stevie Moore cria as suas músicas. Tudo para ele pode ser transformado numa canção e isso é bem retratado. “Música tão má que se torna boa”, como foi referido no próprio filme.

No palco com Mazgani e companhia

Mas os momentos mais aguardados do festival ainda estavam para vir. Na segunda noite do FUMO, o Auditório Municipal Charlot encheu-se para ver “Uma Estrada para Mazgani” e assistir à actuação ao vivo do músico. O documentário, realizado por Rui Pedro Tendinha, abriu a sessão para uma sala repleta de fãs e amigos de Sharyar Mazgani. A viagem começa numa carrinha que vai passando por Barcelona, para depois continuar por Paris, Amesterdão, Madrid, e ir por aí fora. Um olhar sobre o dia-a-dia do músico na estrada, a composição das canções e a importância do público quando se está longe da terra natal. Sempre com a música de Mazgani a servir de banda sonora, o filme mostra a rotina do artista, os concertos, mas também a relação entre ele, os músicos que o acompanham e o manager Nuno Leitão.

Com o final do filme, e depois de um curto intervalo, eis que entra o homem, Sharyar Mazgani, acompanhado pelo guitarrista Sérgio Mendes. Os dois filhos da terra sobem ao palco, sentam-se, afagam as guitarras no colo e preparam-se para um concerto intimista. Sem o trabalho de casa feito e a espreitar para uma cábula, Mazgani aproveita esse momento para quebrar o gelo com o público e pôr em prática o seu sentido de humor. Depois de um momento de descontracção, Mazgani dá início ao concerto com «Song of Distance», passando depois aos temas novos como «Distant Gardens» e «Common Ground» do álbum a ser lançado no próximo Outono. Percorrendo depois os temas mais antigos e oscilando entre melodias mais introspectivas e sons mais enérgicos, foi notável a sobreposição da voz de Mazgani nalguns temas, exemplo da maturidade que o músico tem vindo a conquistar ao longo do seu percurso. Mas o que marcou o concerto foi mesmo a forma como a cidade recebeu Mazgani e a entrega do músico à plateia desde o início até ao final do concerto. Durante toda a actuação, Mazgani dirigiu-se directamente aos amigos e fãs que assistiam ao espectáculo, fazendo piadas e a puxar por um público muito sossegado e até tímido no início. Música à parte, ainda houve tempo para discutir sobre política e futebol – já que a Grécia acabava de ser derrotada pela Alemanha – sempre com o sentido de humor aguçado de Mazgani que ia assim conquistando a plateia. Depois de um encore arrancado a aplausos, Mazgani e Sérgio Mendes tocam «Lost Words», «Mercy» e «Broken Tree» e prometem não sair mais de cima do palco. “Ainda vamos tocar mais uma!”, dirige-se Mazgani à plateia, sem saber muito bem onde se estava a meter. “O que é querem ouvir?” perguntava Mazgani aos fãs, ao que um deles respondeu com graça: “Toca aquela!”, e foi a risota total. Por fim, pediram mais uma canção nova e é aí que surge «Blow Wind» a fechar.

Corpos estranhos que se entranham

Uma noite de calor trouxe a Setúbal os Osso Vaidoso. O concerto estava marcado para acontecer no Museu do Trabalho Michele Giacometti e era à sua porta que já se juntavam algumas pessoas à espera para ver a dupla portuguesa. Já lá dentro, era possível ver todo o espaço lá de cima antes de descer para a plateia e os Osso Vaidoso tocavam já os primeiros temas de “Animal”, o primeiro EP da dupla. Num estilo muito arty, ao jeito de Andy Warhol e da Factory que apadrinhou nomes como Velvet Underground, e com uma forte componente teatral, Ana Deus, vestida de preto dos pés à cabeça, vai desenhando com a voz as paisagens musicais com intensidade nas palavras. Aliás, a dupla chegou mesmo a interpretar «Venus in Furs» dos Velvet Underground, mas cantada em português. Na guitarra, Alexandre Soares marca o ritmo. Em pé ou por vezes sentado, lá está ele no seu modo discreto e atento. Mas é sobretudo no texto e na palavra que o grupo assume a sua personalidade estética. Não é por acaso que os Osso Vaidoso partem de textos de Regina Guimarães, Eugénia de Melo e Castro, Alberto Pimenta e Valter Hugo Mãe para construírem as suas interpretações musicais. Se acrescentam alguma coisa ao panorama musical português? Há quem diga que não e que ache mesmo que Osso Vaidoso é um projecto forçado cujo único objectivo é ganhar algumas coroas para alimentar os vícios e os devaneios das estrelas rock

Curiosamente, grande parte do público estava ali, não para ver, os Osso Vaidoso, mas sim os Um Corpo Estranho que actuariam a seguir. A banda, filha da terra, parece ter já conquistado um grupo forte de admiradores e seguidores, o que é de louvar, se tivermos em conta o panorama cultural da cidade e como as pessoas valorizam os seus artistas, nem sempre da melhor forma. Os Um Corpo Estranho entram em cena e começam a apresentar o EP de estreia. As canções, sempre cantadas em português, exploram as sonoridades folk com um toque de blues. A actuação do tema «Auto-coação» puxou pelo público, já que é um dos temas mais conhecidos do EP, assim como «Amor em Contramão» e «No fim está tudo bem», este último, aliás, um dos momentos mais bonitos do concerto. Para além da apresentação do EP, a banda ainda teve tempo para uma cover de «Vem (além de toda a solidão)» dos Madredeus. Senhores de um som bem construído, com a utilização de instrumentos tradicionais portugueses com forte presença da percussão, mas também com recurso a outros como o contrabaixo, os Um Corpo Estranho deram um bom espectáculo, com apenas um senão: a péssima acústica da sala. Mas isso é sempre um risco quando se opta por espaços não convencionais e um sintoma da falta de bons espaços para tocar em Setúbal.

Música do espaço

Para terminar a primeira semana de FUMO, era a vez da música experimental marcar presença, desta vez com o trabalho pouco ortodoxo de Vítor Joaquim, também ele nascido em Setúbal. O sonoplasta viria acompanhado de uma dupla espanhola para a captação de imagens e do baterista Ricardo Martins que ajudou a marcar o ritmo. Com uma plateia quase despida, mas com alguns fãs da cena experimental a assistir, Vítor Joaquim e os seus convidados sobem ao palco para apresentar o mais recente projecto, “Geography”. Um projecto sobre a importância da geografia e do espaço nas vidas das pessoas e que parte da captação de imagens a partir dos sons em tempo real. Mas estas não são sonoridades que agradem a qualquer pessoa, embora possam marcar a diferença e apresentem uma proposta musical diferente. Uma experiência sensorial e uma viagem em torno do som enquanto elemento natural, presente em todas as coisas à nossa volta. Aqui não há melodias bonitas, mas sim sons que percorrem um espaço e chegam ao espectador. Não deixa no entanto de ser um trabalho complexo e bem construído este de Vítor Joaquim e seus convidados. Na tela do Cinema Charlot, algumas imagens passam à medida que o som se vai construindo. Formas geométricas, linhas e pontos, que funcionam como o corpo destes sons que fazem lembrar uma explosão no espaço. No centro, a bateria de Ricardo Martins a marcar compasso, e Vítor Joaquim por detrás de um computador, quase invisível. Se no espaço não se ouvisse apenas o silêncio, com certeza que se ouviria este “Geography” de Vítor Joaquim.

Fotografia por Nuno Pires. Galeria fotográfica de “Estrada para Mazgani” aqui; Osso Vaidoso aqui; Um Corpo Estranho aqui.



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