O Gajo | Entrevista

Na semana em que João Morais, mais conhecido como O Gajo lançou o novo álbum, "Subterrâneos", a Rua de Baixo aproveitou a ocasião para ficar a conhecer melhor o novo trabalho.

Na semana em que João Morais, mais conhecido como O Gajo lançou o novo álbum, “Subterrâneos”, a Rua de Baixo aproveitou a ocasião para ficar a conhecer melhor o novo trabalho.

RDB: 2020 acabou, de uma forma ou de outra, trocando as voltas a muita gente. Subterrâneos” acaba por ser o resultado de um momento ímpar na tua vida?
OG: Sem dúvida. Subterrâneos é filho desta pandemia, sem esta conjuntura não haveria este disco. O objectivo foi tentar rentabilizar o tempo livre que o confinamento gerou e pegar em toda a energia negativa que os receios e as dúvidas criaram, e transformar isso em algo positivo e construtivo.

RDB: Embora no projecto d’”As Quatro Estações do Gajo”, não estejas só, creio que é evidente de que se tratava de algo com um cariz muito pessoal. Em Subterrâneos” decides gravar num formato trio, numa abordagem diferente. Foi algo premeditado? Fala-nos um pouco sobre isso.
OG: Foi totalmente premeditado pois de uma forma geral, tento não gravar o mesmo disco duas vezes e para que isso aconteça, gosto de mudar fórmulas de trabalho.
Se o primeiro disco foi a solo e o segundo contou com convidados pontuais, estava agora na hora de ter uma secção rítmica que abrisse espaço para uma abordagem diferente às melodias e aos balanços. Até aqui era eu que ocupava o espaço todo e agora há mais coisas a acontecer e a Viola pode respirar um pouco mais.

RDB: E como surgem os nomes de Carlos Barretto e de José Salgueiro, no contrabaixo e percussão respectivamente? Estes dois nomes transportam-nos de imediato para paisagens jazzísticas e creio que essa influência é notória nalgumas das composições, permitindo à tua Viola Campaniça percorrer novos e interessantes trilhos.
OG: O Carlos Barretto foi um dos convidados pontuais das “4 estações do Gajo”. Ele é um musico excepcional, muito completo, experiente, criativo, generoso e um enorme ser humano. São tudo características que gostaria de trazer para o meu trabalho e fiquei muito feliz por ele ter aceite o desafio. Relativamente ao José Salgueiro, eu já conhecia o seu trabalho mas foi o Carlos que lhe lançou o desafio. Eles tocam juntos há muito tempo e são uma secção rítmica do mais alto nível.
O facto de trazerem sabores mais jazzísticos para o meu som eram só boas notícias pois são ambientes por onde eu não tinha ainda andado e tudo o que seja novo e desafiante é matéria prima de luxo para o meu trabalho.
Agora, tocar estas músicas nunca soa a repetição pois há sempre um sabor a improviso que antes não existia.

RDB: «Electro Santa» tem um cartão de visita que não deixa ninguém indiferente. O tema começa num registo perto da tradicional guitarra tradicional mas rapidamente evoluiu para um mais palpitante. Conta-nos como é que o texto de de Arthur Rockzane e a história psicadélica da Monja do Caos se combinaram e contribuíram para dar corpo à peça única – e que tão bem abre o álbum – que é «Electro Santa».
OG: As músicas começam por pequenos improvisos que depois de minimamente organizados eu ligo a um texto ou a uma história, ou uma pessoa, etc…
Neste caso, a performance ao vivo que presenciei com leituras de textos do Artur Rockzane, deixou-me essa história atrás da orelha. Adquiri uma antologia deste poeta Beat Portuense e o texto estava presente quando divagava notas pela viola.
Quando em algum momento há uma pulsação que parece alimentar aquela história, eu já não largo a imagem que vou criando da narrativa e sigo por ali. Se quero que a monja dance eu abro o som, se quero que ela pare, eu fecho o som, se ela grita eu ataco as cordas com força se ela chora eu tremo a palheta contra as cordas, é uma construção às vezes mais objectiva outras vezes mais abstracta.
Há sempre coisas que se explicam bem e outras que não têm qualquer explicação, são do foro emocional e esse não se traduz em fórmulas matemáticas.
Eu chamaria a esse momento um “transe” em que me deixo mergulhar, mas mantenho sempre o gravador a funcionar para ouvir mais tarde e perceber a consistência desse momento.
Se passa o teste do dia seguinte, a música é aprovada!

RDB: Que outras histórias influenciaram as composições de Subterrâneos”?
OG: Nesta fase, as leituras tiveram uma grande importância. A passagem do José Anjos e da sua poesia pelas “4 Estações do Gajo” deixaram uma marca grande nessa minha relação com a literatura e hoje é uma ferramenta regular de trabalho.
Temos a “Negra Fúria Ciúme” do Bocage, A “Chuva Oblíqua” do Fernando Pessoa ou a alcunha desordeira de Camões com o “Trinca Fortes”. O tema “Morfeu” é uma homenagem ao Mark Sandman dos Morphine, ou ainda “O Capitão é o Mar” de Jesus Lizano (poeta catalão). Cada tema é abordado de forma individual, mas o disco é pensado como um todo onde gosto de ter momentos mais mexidos e outros mais calmos para gerar um equilíbrio final.

RDB: E como chegas ao título Subterrâneos”? O que significa para ti? A própria capa do disco acaba por estar intimamente ligada com o próprio título, não é?
OG: Subterrâneos” significa esta viagem ao nosso interior a que fomos obrigados com a privação social. Isolados dos outros, revelámos mais o que temos por dentro e muitas vezes essa revelação foi trágica. Se por fora somos o que queremos que os outros vejam e até parecemos bem, por dentro a imagem nem sempre é a mais agradável. A pintura do Mutes representa uma série de figuras disformes que poderiam representar essa imagem interior que muitas vezes tentamos esconder por sabermos que está cheia de imperfeições e deformações.

RDB: A tua relação com a Viola Campaniça começou em 2016, pelo que se pode dizer que é relativamente recente. No entanto já passou por várias fases. Sentes que ainda tens muito para descobrir ou o instrumento para te oferecer?
OG: Depois de 30 anos com as guitarras eléctricas estrangeiras, senti que se esgotavam as ideias ou a motivação para as alimentar. A Viola Campaniça veio fazer-me um “refresh” criativo e para já as ideias surgem em catadupa. O potencial deste instrumento é gigante e a versatilidade não lhe fica atrás. Se sozinha soa bem, também já se portou bem ao lado de uma Cítara Indiana, de uma Kora Guineense, de um trompete, de um piano ou de um Violoncelo. O sabor sempre Português desta Viola e a relação que a minha musica ganhou com o meu País têm sido um factor de grande motivação na exploração deste instrumento. Para já, sinto que estou ainda a iniciar uma caminhada e as possibilidades são quase infinitas.
Tento manter-me activo e criativo na minha forma de olhar o mundo e a Viola será sempre o veículo de expressão desse mecanismo.

RDB: Depois do concerto de apresentação online, a partir do Convento das Flamengas da Real Irmandade Nossa Senhora da Quietação, no dia 15 de Março, quais são os planos para O Gajo?
OG: “Planos” parece ser uma das palavras proibidas neste tempo que correm, mas como gosto de contrariar as contrariedades, tenho para já planos de apresentar este disco ao vivo e com público presencial em Maio deste ano.
Ainda que com as condicionantes que a pandemia exige, é possível trabalhar em espaços controlados e que permitam o distanciamento. Em Maio está programado o Festival “Soam as Guitarras” que acontece em ambiente de auditório e O GAJO deverá actuar em Lisboa, Évora e Setúbal inserido nesse evento. Há ainda marcações para Silves, Funchal, Lagoa, Castelo de Vide, etc… mas tudo dependente da evolução da pandemia. Sejamos pacientes.



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