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O holograma de Tupac Shakur

Reinterpretar o gangster rap na era da sua hegemonia

Recentemente, um holograma concebido por Dr. Dre para o Festival Coachella ensombrou o mundo da Música e, particularmente, o do hip-hop norte-americano. Nele, vemos o lendário rapper Tupac Shakur a actuar, com o ar mais natural do mundo, lado a lado com Snoop Dogg, dueto que ficou célebre com a música «Gangsta Party». O vídeo, que entretanto virou fenómeno viral, tem tanto de perturbador quanto de celebração, ou não fosse Tupac um dos ícones da música norte-americana dos últimos 30 anos e cuja morte (a tiro, em 1996, em circunstâncias nunca realmente explicadas) só ajudou a que acontecesse o que normalmente acontece nestas coisas: a transformação do artista, do homem de carne e osso, no mito – na América, são tantos os que conspiram sobre a eventual sobrevivência de Elvis ou Jim Morrison como de Tupac.

Este ressuscitar fantasmático de uma das personalidades mais controversas do último quartel do séc. XX norte-americano permite-nos, com a devida distanciação, fazer um balanço daquilo que o gangster rap – sub-género do hip-hop, hoje música de massas – significou na sua génese, bem como o papel – singularíssimo – de Tupac na sua afirmação.

Tupac Shakur foi um artista peculiar, fugindo a quaisquer catalogações imediatas. Começa logo nos géneros, já que Tupac não fez apenas gangster rap: “2Pacalypse Now” (1991), a sua estreia, é um álbum fortemente político, altamente preocupado com os problemas sociais e culturais de uma América em que o racismo, já não institucionalizado, continuava a deixar a sua marca. Nos seus tempos de estudante, são conhecidas as suas ligações ao Black Panther Party e ao Partido Comunista Americano, bem como a sua carreira performativa enquanto bailarino e actor. Tupac foi alguém cujo desequilíbrio rimou com contradição, capaz de escrever uma letra feminista como «Keep Ya Head Up» e, logo a seguir, assinar uma coisa como «Wonda Why They Call U Bitch». Depois, e mais importante, Tupac foi daqueles artistas cuja carreira não se distingue da sua vida pessoal. Na verdade, os seus discos mais não são do que o relato diarístico das angústias e obsessões que viveu. O que é absolutamente ímpar no gangster rap de Tupac é que este se assume como uma reflexão existencial, violenta e suicidária, de um homem cuja formação artística e intelectual não foi suficiente para o tirar das ruas e das más companhias (e que o levaram, inclusivamente, à prisão). Pac viveu toda a sua vida no limite (“living in the fast lane”, como se ouve no refrão de «How Do U Want It»), entre a vida e a morte, em virtude da sua proximidade com os bastidores da droga e das guerras dos gangs das ruas de Nova Iorque. É nesta dimensão tétrica que o seu muito próprio gangster rap nos interessa, por constituir uma crónica agudíssima de um homem sempre muito próximo da loucura.

Há um exercício muito simples de fazer para compreender tudo isto: basta ir álbum por álbum e verificar quais as músicas em que Tupac não escreve sobre a morte e o medo de morrer assassinado. São poucas, muito poucas, e, só para citar as mais impressionantes, oiça-se «Only Fear Of Death», «Hail Mary», «If I Die Tonight», «Pain», «Bury Me a G», «Death Around The Corner» ou «Shed So Many Tears». Em todas elas, ouvimos um homem paranóico, empapado em suor, sempre a espreitar por cima do ombro à espera da traição do melhor amigo. «Death Around The Corner» faz a síntese destas ideias: “I guess I seen’ too many murders, the doctors can’t help me / got me stressin’ with my pistol in my sheets, it ain’t healthy / am I paranoid? – Tell me the truth / I’m out the window with my AK, ready to shoot / an out of endo and my mind can’t take the stress, / I’m out of breath / Make me wanna kill my damn self”. Esta reflexão é hiperbolizada por um permanente estado de semi-alucinação, fruto do consumo desmesurado de drogas e álcool (“Smoking too much weed, got me paranoid, stressed”, da mesma música). E foi nesse estado de hiper-consciência, caótico e doentio, que Tupac, enquanto vivo, escreveu grande parte dos seus seis álbuns (os restantes, que já vão em sete, foram editados já depois da sua morte).

Tupac

O receio da morte não é, no entanto, apenas o receio do desaparecimento físico, mas igualmente daquilo que encontramos no grande “depois”. Ao longo de toda a carreira, Tupac foi mantendo um diálogo constante com Deus, pedindo perdão por cada pecado cometido na vida pouco recomendável que levava (que ele próprio sintetizou na fórmula “Thug Life”). Essa dimensão confessional – deísta, no caso – é uma das mais interessantes na sua personalidade, já que certas letras, de tão íntimas, nos fazem sentir estar “a mais” entre confessor e confidente. Como todo o delinquente assaltado por dilemas morais (o Al Pacino introspectivo de “O Padrinho”, o James Gandolfini das consultas psiquiátricas em “Os Sopranos”), Tupac foi um homem que carregou uma pesada cruz a vida fora, buscando a redenção última na compreensão radical de um Deus misericordioso, de que a música «Only God Can Judge Me» é expressão máxima. Essa interpelação é utilizada para justificar os excessos de uma desviância que, em Tupac, como em tantos outros jovens criados em ambientes viciados à partida, acaba por ser uma fuga para a frente, única forma de estar num mundo que não os olha como iguais: “I hope the Lord will forgive me, I was a G / And gettin high was a way of gettin free”. Há, portanto, uma perfeita consciência de viver de uma forma moralmente errada, mas inexorável. O apelo divino é visível, também, em «Hell 4 A Hustler» ou «Black Jesus», espécie de demanda de um novo Salvador entre os bairros degradados de uma Nova Iorque onde os princípios da fé são negados a cada drive by. É com insistência que o rapper se vai interrogando sobre o depois da morte, nomeadamente em «Heaven For A G» (onde o rapper “ensaia” o seu funeral) ou «I Wonder If Heaven Got A Ghetto» (“Here on Earth, tell me what’s a black life worth / a bottle of juice is no excuse, the truth hurts”). Todas estas inquietações desembocarão, naturalmente, na preocupação com um eventual sucessor, expressa na impressionante «Letter 2 My Unborn» – “Will my child get to feel love / or are we all just cursed to be street thugs? ‘Cause bein’ black hurts”.

Há sempre a tentação de, olhando para a sua discografia, falar num período de pacificação, de reencontro consigo mesmo, sobretudo nos álbuns “Better Dayz” (2002) ou “Loyal to the Game” (2004). Nunca o saberemos ao certo, porque esses, como outros, foram editados já depois da sua morte, e, mais a mais, misturam faixas optimistas («My Block», «Ghetto Gospel») com outras mais sombrias.

A ilação essencial a retirar é a de que, numa época como a nossa – em que o gangster rap ocupou todo o espaço mediático, levando, inclusivamente, a que o hip-hop passasse, pura e simplesmente, a confundir-se com ele –, vale a pena ouvir Tupac (e outros – por exemplo, o seu rival, Notorious B.I.G., em «Suicidal Thoughts») para compreendermos como o género teve, no passado, uma forte componente introspectiva, colocando o homem face a face com a imoralidade dos seus actos e a iminência da morte. Na sua radical verdade, no seu testemunho cruel e auto-punitivo, Tupac fez do gangster rap muito mais do que um banal e gratuito arrazoado sobre drogas e mulheres.



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