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“O Homem de Giz” de C.J. Tudor

Diz-me o que fizeste há 30 anos

Filme que marcou uma geração (a minha, pois então), Stand By MeConta Comigo, na por vezes errática tradução portuguesa -, dava a conhecer a história de cinco amigos que se envolveram na busca de um adolescente estranhamente desaparecido. A trama fora uma adaptação do romance The Body, do mestre Stephen King, e é esse ambiente que se (re)vive em O Homem de Giz (Editorial Planeta, 2018), a auspiciosa estreia da britânica C.J. Tudor e que se revela um thriller magnético.

O enredo divide-se entre duas linhas temporais distintas, 1986 e o presente, e tem como palco a pequena cidade de Anderbury, nas Midlands Orientais, Inglaterra. É aí que Eddie, Gav “Gordo”, “Metal” Mickey, Hoppo e Nicky, todos com 12 anos, passam as férias de verão à boleia de passeios de bicicleta, descobertas e um secreto jogo em que a comunicação tinha por base homens desenhados a giz, com um código de cores. Mas uma série de peripécias e um macabro assassinato vai abalar, e marcar, as suas vidas.

Tendo como ponto de partida a perspetiva de Eddie, filho de uma médica conhecida por praticar abortos e um pai com o dom da escrita e em luta crescente contra a demência, a narrativa assume um corrupio entre presente e flashbacks que pretende construir o puzzle de uma tenebrosa história.

Eddie, tornou-se professor, desenvolveu uma crescente apetência para a bebida e mantém a amizade com Gav, agora preso a uma cadeira de rodas, e Hoppo. Aos quarenta e alguns anos, ainda mora na antiga casa de seus pais, mas conta com uma jovem e desconcertante inquilina, Chloe, pela qual sente uma inconveniente e secreta atração. A vida não foi muito benevolente para Eddie mas aquilo que mais o atormenta são os recorrentes pesadelos que o assombram deste a adolescência sob a forma da ameaçadora figura do homem de giz. E para piorar o cenário, dá-se mais uma morte que leva o protagonista a sentir que é obrigado a regressar ao passado para descobrir quem matou Elisa Waltzer.

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C. J. Tudor retrata Anderbury como uma cidade com alguns personagens desagradáveis, cheia de mentiras, segredos, rumores, ressentimentos fervorosos, violência e hipocrisia. Entre os acontecimentos paralelos à história principal, sinónimos de um inusitado regresso ao passado, Nicky ficou entregue a uma cadeira de rodas depois de um acidente de viação; a família de Eddie é vitima de uma perseguição por parte da comunidade local; Elisa Waltzer sofre ferimentos horríveis na feira de diversões é e salva pelo heroico Sr. Halloran, professor recém-chegado à cidade e amante de arte, com a ajuda de Eddie. Halloran e Eddie desenvolvem mesmo uma estranha amizade depois do primeiro o salvar numa situação de bullying por parte do gangue de Sean, irmão de Mickey. Mas o presente não é mais pacífico, principalmente para Eddie depois de receber uma proposta de Eddie para, finalmente, conseguirem revelar o passado que tanto os massacrou.

Sob uma atmosfera densa e negra, O Homem de Giz é um thriller rápido, recheado de suspense e escrito de uma forma bastante apelativa que agarra o leitor de forma crescente. Os personagens são revelados de forma eficiente e a narrativa, mesmo “separada” por três décadas, é um consistente jogo emocional entre um grupo de pessoas cuja amizade fora colocada à prova por algo que desconheciam: o medo.
Destaque (óbvio) para a evolução de Eddie enquanto personagem, mas também para a acutilante crítica social que a autora faz a uma comunidade fechada sobre si mesma, ameaçada pelos conflitos éticos, a pobreza e a vontade ameaçadora de preservar os segredos e a reputação a qualquer preço, muito na linha da obra de Stephen King, referência maior que C. J. Tudor não esconde uma imensa admiração. Todos estes ingredientes resultam num livro muito interessante, talvez “muito” colado ao imaginário de King, mas que vai com certeza fazer as delicias de muitos.



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