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O Homem Elefante @ TNDMII

“A história verídica de John Merrick, sem esperança nem consolo”

“É entrar e ver”. A frase convida o espectador a reflectir sobre um tema controverso: a diferença e a forma como a sociedade gere os sentimentos em torno de realidades menos convencionais. “É uma peça sobre a alienação e a solidão”, que coloca frente a frente o conceito de normalidade e monstro à medida que percebemos a frieza e crueldade das pessoas ditas normais sobre o ser sensível e inteligente enclausurado num corpo deformado.

John Merrick, jovem inglês, viveu entre 1862 e 1890, mas devido a uma terrível deformação na cara e no corpo causada por um defeito congénito ficou imortalizado como “o homem elefante”. Recebeu o auxílio do médico Sir Frederick Treves, cujos manuscritos tornaram a sua história conhecida através do livro “The Elephant Man and Other Reminiscenses”.

A peça de teatro escrita por Bernard Pomerance, um dos maiores sucessos da Broadway nos anos 80, serviu de inspiração para esta adaptação que marca a estreia do autor americano em Portugal. O projecto viu finalmente a luz do dia pela mão da actriz e encenadora, Sandra Faleiro que há quase 20 anos foi desafiada por Mário Viegas para interpretar este espectáculo. David Lynch também foi seduzido por esta história de vida dramática, mas real e realizou o filme em 1980.

Num palco praticamente desprovido de cenário onde apenas os adereços entram e saem de cena para assinalar a mudança de espaço, é a alternação de actores e a movimentação rápida que fazem dos poucos adereços, que transforma o espaço no ambiente cénico adequado. Uma cortina de freak show transforma-se numa cortina de hospital, uma caixa transforma-se numa porta ou num navio, e um palco cheio de referências vai ficando vazio à medida que a acção decorre.

“O homem elefante” apresenta-se sem máscaras. A deformação que o caracteriza não é visível e a função de imaginar a deformidade é deixada nas mãos de cada espectador. O público apreende a profundidade da sua diferença através do confronto com as reacções das restantes personagens. Sensível, gosta de ler e às vezes diz que a sua “cabeça é assim tão grande porque está cheia de sonhos”.

Inicialmente era mantido e explorado por um empresário sem princípios que o expunha num circo de aberrações onde era tratado como um “cão”, até que o médico Sir Frederick Treves o acolheu para observação num hospital londrino.

É nesta sociedade vitoriana de Londres, aparentemente normal, que John Merrick vai ser recebido como uma aberração de estimação. Volta a ser uma atracção, colocado novamente numa espécie de montra de exposição desta vez para a alta sociedade, que lhe ensina a dizer palavras como, se faz favor e obrigado. Molda-se para ser “igual aos outros”. Para ser aceite.

A frase “nascemos originais e morremos cópias” repetida durante a peça, faz pensar sobre a importância de conceitos como, singularidade, normalidade, o estatuto do “monstro” na sociedade e qual o papel que cada indivíduo desempenha no consentimento das perversidades do quotidiano.

Os actores – António Fonseca, António Mortágua, Carina Reis, Manuel Coelho, Ricardo Neves-Neves e Rita Lello – interpretam diferentes papéis ao longo da acção. Apenas Renato Borges, “o homem elefante”, mantém o mesmo papel ao longo do espectáculo.

“O Homem Elefante”, estará em cena na sala estúdio do Teatro Nacional Dona Maria II até 31 de Outubro.



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