“O Homem Sombra” | Dashiell Hammett

“O Homem Sombra” | Dashiell Hammett

Quem matou Julia Wolf?

Juntamente com Raymond Chandler e James M. Cain, Dashiell Hammett completa o trio sagrado da ficção “pulp” nascida do raiar do século XX. As suas novelas de caraterísticas bem intrincadas de tendências noir foram, e ainda o são, alvo de um imenso culto que tem em livros – posteriormente adaptados ao cinema – como “O Falcão de Malta” e este “O Homem Sombra” (Porto Editora, 2014) alguns dos seus mais altos expoentes.

Publicado originalmente em 1934 na revista feminina norte-americana Redbook, “O Homem Sombra” (Porto Editora) é o derradeiro romance escrito pelo autor norte-americano, conhecido por muitos como o fundador da moderna literatura policial. O livro, editado pela Porto Editora, integra um novo projeto que incluirá mais quatro obras do autor, assim como outros dois livros de Raymond Chandler.

Neste livro, Hammett convida-nos a entrar no mundo de Nick Charles, um ex-detective de origem grega conhecido pelas tendências alcoólicas tornado homem de negócios que, na companhia de Nora, se vê envolvido numa misteriosa trama que tem Nova Iorque como palco. O assassinato de Julia Wolf, secretária do excêntrico investigador e cientista Clyde Wynant – e ex-cliente de Nick -, está longe de ser um crime fácil de resolver.

Apesar de Nick querer passar incólume a tal acontecimento, a sua astúcia e sagacidade pelo mundo do crime leva-o, aos poucos, a deixar envolver-se por uma complexa cadeia de acontecimentos. No meio de toda esta confusão todos são suspeitos. Mimi, ex-mulher de Clyde, uma fervorosa mentirosa compulsiva está no topo das suspeitas. Os filhos do ex-casal, Gilbert e Dorothy, vivem vidas de fachada e tendem a ser encarados como meras peças de um puzzle familiar que tem na figura de Jorgensen, atual companheiro de Mimi, uma das suas maiores interrogações.

Os segredos misturam-se com as mentiras e surgem várias teias de deceção e ligações perigosas que acabam por revelar personagens que fingem personalidades e vidas diferentes mas que têm, como grande objetivo, resgatar a fortuna de Wynant. As ligações ao submundo de uma cidade louca com os “malefícios” da Lei Seca e que recorre a recônditos quartos de hotel ou a speakeasies para satisfazer as suas necessidades são o elo aglutinador de “O Homem Sombra”.

As mulheres de Hammet são por norma atraentes, manipuladoras e vingativas, e tanto a mais “discreta” Julia, a carente Dorothy ou a desafiante Mimi estão entre as mais ricas criações do escritor norte-american, tornando ainda mais interessante um livro repleto de diálogos acutilantes e recheados de um fino humor negro, ação e um conjunto de personagens idiossincráticas que mantêm viva esta magnífica estória de detetives da primeira à última página.

Misto de policial negro e comédia de costumes onde o álcool servido pela polícia não é muito apreciado, algumas mulheres são histéricas por convicção e conveniência, um speakeasy é um local certo para o marido esperar que a esposa regressa das compras e um uísque é a verdadeira panaceia para a insónia, “O Homem Sombra” é um maravilhoso exercício de uma escrita simples onde qualquer meio é desculpável para atingir o fim desejado.



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