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O imenso mundo de Flak

Compositor, produtor, formador e guitarrista, Flak é um dos activos intervenientes da música nacional. Em discurso directo, adianta o que poderemos esperar de um 2010 em cheio.

Personagem de cunho inolvidável, desde há cerca de 30 anos no universo musical alternativo nacional, e não só, Flak é compositor, produtor, formador e guitarrista, dividindo-se, nos últimos anos, por projectos e iniciativas de carácter diverso no meio musical.

O apreço pelo seu trabalho foi o incentivo que impulsionou a tertúlia, informal mas esclarecedora, aceite pelo músico.

Quando acumulamos várias tarefas, ainda que complementares, ao nosso universo profissional, inevitavelmente nos recordarão ou considerar-nos-ão, mais frequentemente, numa dessas realidades. É o que se passa com Flak, que no operar das suas funcionalidades relativamente ao som, produção e composição, se vê, não raras vezes, apresentado como guitarrista.

Não é possível separar, na vida de um músico, as várias facetas da sua realidade. Flak explica: “não é possivel dissociar, porque fazem parte de um todo, do que tem sido a minha vida há mais de trinta anos. O que me interessa mais é a parte criativa, desenvolver ideias, portanto prefiro ser visto como compositor e produtor. Compositor, porque é aquilo que eu mais gosto de fazer e me ocupa a maior parte do tempo, e produtor porque o som e timbres fazem parte integrante da composição, aquilo que para mim identifica a música, mais do que as melodias ou os acordes. A guitarra foi apenas um acidente na minha vida, mas quando se faz uma coisa durante trinta anos, ela fica a fazer parte de nós, torna-se uma extensão do nosso corpo. E acho que é mais por aí, até porque não pratico há muitos anos, acho que a última vez que estudei o instrumento de uma forma organizada foi para ai há uns vinte anos, quando tive umas aulas no Hot-Club, mas desisti rapidamente pois nessa altura já estava muito mais interessado na composição e eram outras aulas que me despertavam a atenção. Nem sequer gosto muito de ensaiar, aprendi a maior parte das músicas de Micro Audio Waves em palco, bem como as do Jorge Palma quando tocava regularmente com ele. É uma questão de adrenalina. Por falar nisso, estamos a combinar fazer uns concertos de Palma’s Gang este ano e lá vêm umas guitarradas… Mas continuando, a coisa mais redutora que me podem fazer é apresentarem-me como guitarrista dos Rádio Macau”.

Para além de Micro Audio Waves, Rádio Macau, Palma´s Gang, a produção de várias projectos nacionais de diferentes índoles (veja-se Bunnyranch, por exemplo) e as aulas dadas na Restart no módulo de produção, Flak apresentou-se, há bem pouco tempo, cantando ao lado da pianista Luísa Gonçalves, entre outros, na sala MusicBox.

No entanto, “não me considero de todo um cantor apesar de nos últimos tempos ter praticado bastante para melhorar as minhas capacidades”, diz. E acrescenta: “acho que consigo interpretar algumas das minhas canções de uma forma que me agrada em termos de expressão, mas sinto que raramente consigo cantar uma canção inteira de uma forma satisfatória. A voz é um instrumento que precisa de uma certa dose de espontaneidade para soar verdadeira e acho que é isso que faz a comunicação. Veja-se o caso da Cláudia, nos MAW, a maior parte do que está registado nos cds são primeiros takes, é a própria criação em primeira mão. Neste momento tenho canções suficientes para um CD em nome próprio, estou só à espera de me sentir seguro das minhas interpretações. Considero que o mais importante é acreditarmos em nós próprios. A partir daí tudo se torna mais fácil. Mas tendo este lado inseguro, também sou muito persistente e quando quero fazer alguma coisa trabalho diariamente para consegui-lo. As dificuldades para mim nunca foram razão para desistir. Por outro lado, canções são uma mistura do que se diz, com a música em si. Acho que um songwriter para ser completo também tem de se aplicar nos textos e eu sempre fui um bocado preguiçoso nesse aspecto. Quanto à actividade como formador, é algo que gosto de fazer porque me obriga num determinado período a organizar as ideias e como sou um bocado caótico faz-me bem ter uma certa disciplina de vez em quando. Mas limito essa actividade no máximo a dois meses por ano, porque mais do que isso começa a interferir nas minhas outras ocupações visto não ser pessoa para fazer várias coisas se forem ao mesmo tempo. Para compor tenho que estar o mais concentrado possível”.

Flak foi, com Rádio Macau, uma das figuras representativas do boom do rock em Portugal e da filosofia de culto que servia de adição ao saudoso Rock Rendez Vous, mas não vive ancorado nessa nostalgia. “Acho que cada coisa tem o seu tempo e não sou nada nostálgico. O que fizemos com Rádio Macau foi produto do ambiente que nos rodeava na altura e fez todo o sentido no seu tempo como agora acontece com os MAW. Para além disso gosto de muita música diferente, gosto de trabalhar com diferentes estilos e sonoridades e integrar as coisas no seu contexto. Quando produzo por exemplo um disco do Jorge Palma sei que estou a trabalhar com material sonoro muito diferente dos MAW e ambos me dão imenso prazer, apesar de estar a lidar com sons e conceitos completamente diferentes. Essa diversidade, a possibilidade de lidar com diversos estilos e materiais sonoros e saltar de uns para os outros é essencial para mim. Acho que a música tem vindo sempre a evoluir e nunca se fez tão boa e diversa música como hoje”, refere.

E os Micro Audio Waves talvez sejam uma das expressões mais ilustrativas do que refere o músico. “Zoetrope”, o espectáculo que uniu os MAW ao coreógrafo Rui Horta foi exemplo de reconhecimento além-fronteiras. Flak conta como foi trabalhar com o Rui Horta, “uma experiência diferente, pois os métodos de trabalho de um coreógrafo são muito diferentes dos de um músico. Os detalhes a que ele dá atenção são coisas que muitas vezes não teriam assim tanta importância para nós, portanto foi óptimo porque é bom estarmos sempre a aprender. Para além disso, tivemos condições de trabalho e de produção únicas para uma banda portuguesa. Poder fazer residências artísticas para trabalhar no projecto, ter uma equipa de criativos de várias áreas a trabalhar em simultâneo, trabalhar o espectáculo em tamanho real – com palco, sistema de som e técnicos – foi realmente uma experiência fantástica”.

Mas as ideias e projectos vão continuar. “Amanhã (1 de Janeiro) vou de férias a Moçambique. Volto dia 16, e  vou terminar a produção do CD de um novo projecto chamado Pinto Ferreira formado a partir dos Guys From The Caravan, dos quais eu produzi o primeiro (e único) álbum, mas agora cantado em português. Formámos para o efeito uma super banda, com o Fred na bateria, o Nuno Espírito Santo no baixo e o Filipe Valentim (dos Rádio Macau) nos teclados. Vão ficar a ensaiar e a gravar estes 15 dias no meu estúdio e quando voltar vamos finalizar o trabalho. A seguir vou ensaiar e completar as gravações da banda sonora que compus para o filme “Lisboa Crónica Anedótica” (de Leitão de Barros) que vou apresentar de novo no Cinema S. Jorge dia 5 de Março. Aproveito para completar a gravação para  edição em CD ou DVD que seria o ideal. Seguidamente começo a trabalhar na produção do próximo do Jorge Palma. Já temos estúdio marcado dia 16 de Março no Porto (visto a banda ser de lá). Entretanto, vou continuar a trabalhar nas minhas canções e espero nessa altura já ter o trabalho finalizado. Algumas das canções já só precisam de interpretações que eu considere satisfatórias. Quero editar o CD ainda durante o próximo ano. Seguidamente vamos começar a trabalhar no próximo MAW; pelo meio ainda tenho dois módulos para dar na Restart. E assim vai ser o meu ano”.

Esperamos que o novo ano seja propício para o promulgar do excelente trabalho que é feito com gente de cá.



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