“O Luto de Elias Gro” de João Tordo

“O Luto de Elias Gro” de João Tordo

Uma ilha é um excesso de terra com nome

Um amor que chega ao fim. A solidão, escura, envolta de um aparente silêncio que ecoa dentro da alma. A fuga desesperada aos sentimentos, o veto ao apelo do coração. O desistir.

Todos já sentimos a perda de alguém querido, de uma paixão, do sentido da vida. A luz desaparece, o chão abre e somos sugados para um lugar distante que desconhecemos até então. Fica a saudade da “normalidade”. É esse vazio que trata “O Luto de Elias Gro” (Companhia das Letras, 2015), o mais recente livro de João Tordo e uma das mais profundas reflexões sobre a tragédia pessoal do homem comum.

No epicentro da narrativa está esse homem. Uma figura sem nome, que na primeira pessoa relata, aos poucos e de forma tímida, um passado recente que o levou até a uma pequena ilha atlântica povoada por personagens atípicos, como pequenas peças ritualizadas de um puzzle que, de uma forma ou de outra, se encaixam na atribulada e atrofiada existência do “eu” que se assume como o núcleo deste livro.

E a todas essas pessoas se associam ideias como a perda, o luto, a tragédia e a solidão. Sem pretender qualquer tipo de redenção, esta gente isolou-se do mundo e pactua com o sofrimento como se outro destino não existisse. Falamos de Elias Gro, um pregador sonhador; Cecilia, filha de Elias, uma menina de onze anos mestre em anatomia e principalmente nos segredos do esqueleto humano; Alma, a bondade em forma de pessoa; Nórbert, um velho louco que habitualmente vagueia pela noite; Bernard, um cego de vistas largas; Erland, um rapaz-metófora do desajustamento clínico e social; A., uma paixão perdida; e um fantasma de um escritor cuja casa foi devorada pelo mar.

Todos eles, sem exceção, giram à volta do farol abandonado, refúgio escolhido pelo narrador ciclista um «homem que transporta o inferno», que assim, no isolamento, tenta derrotar fantasmas que tendem a crescer face aos inesperados caprichos da natureza humana.

A sanidade é uma definição perdida ao longo das páginas deste arrebatador romance que tende a dilacerar os seus convivas. A catarse, fugaz, surge através da ideia de literatura (entre um real Jorge Luis Borges e um onírico e fictício Lars Drosler, escritor dinamarquês que habitava a extinta Casa das Águas, espaço fetichista da ilha), da música, do boxe, do whisky e, principalmente, da personagem de Cecilia, um misto de inocência e agressividade e a luz maior de “O Luto de Elias Gro”, uma reflexão literária densa, cinzenta, sobre pessoas «feitas de porcelana», que «lascam com facilidade».

Depois do anterior e mais agitado “Biografia Involuntária dos Amantes”, João Tordo volta à escrita intimista, que carrega consigo um forte legado emocional que se serve do silêncio e do desespero para trazer à nota aquilo que de melhor se faz no que toca à contemporânea arte de escrever livros em Portugal.

Mais do que sarar feridas, “O Luto de Elias Gro”, é um romance feito de falsas e dolorosas cicatrizes que tendem a abrir sazonalmente e que mostram a fragilidade crua da vivência onde o passado é uma pedra demasiado pesada para se carregar sem deixar um rasto.



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