FESTIVAL OLHARES DO MEDITERRÂNEO

O Mediterrâneo e as mulheres

Crónica de Sara David Lopes - co-fundadora e programadora do Festival Olhares do Mediterrâneo - com Inês Ponte.

O Mediterrâneo sempre foi, desde tempos imemoriais, um espaço muito heterogéneo. Aninhado entre continentes, tem sido ao mesmo tempo espaço de aventuras e de conflitos, contradições e cumplicidades. E ultimamente, um palco de horrores.

No Festival Olhares do Mediterrâneo, este mar é uma porta e um porto. Uma porta para o mundo, para a sua enriquecedora diversidade; um porto para a multiplicidade de olhares e vivências que tanto unem como separam os povos das suas margens.

Quisemos trazer ao público português esta diversidade tão pouco mostrada nas salas de cinema, com o intuito manifesto de nos trazermos a Nós e aos Outros à nossa margem “emprestada” do Mediterrâneo, de os e nos conhecermos, de com eles e connosco nos rirmos e emocionarmos, de com eles e connosco aprendermos e nos maravilharmos. Conhecermos em primeira mão como é que os povos deste Mediterrâneo tão diverso se vêem, como se retratam. Um olhar mútuo, de vermos e sermos vistos, de nos podermos rever de alguma maneira.

Na conturbada época em que vivemos, em que a globalização tudo aproxima e as redes sociais e a comunicação social tudo escrutinam, sentimos falta de um olhar que veja, sem preconceito. Um olhar que olhe para Nós e para os Outros com tolerância e compaixão, com curiosidade e admiração.

Artesãs por excelência do tecido social, em qualquer das margens deste mar, as mulheres têm por natureza um papel unificador. No entanto, continuam a não ter uma igualdade de oportunidades. Na impossibilidade de lhes calar o pensamento, são-lhes amiúde negadas formas de os expressar. Essa situação é geograficamente transversal, mas mais declarada aqui ou acolá.

Contudo, aqui, nos nossos Olhares, é delas este espaço, este espaço mediterrânico onde tudo é possível, menos o preconceito. Abraçamos o desafio de trazer ao público esta diversidade do feminino que tanto pode envergar um kaftan, como uma peça de exclusivo design italiano; que tanto toca castanholas como tem as mãos pintadas com henna; que tanto realiza, como protagoniza, monta, escreve, ou produz cinema, no Mediterrâneo. Celebramos este convite para olhar esta diversidade de ser. E que maneira melhor há de nos apaixonarmos pela vida do que procurar conhecer aquilo que nos rodeia e manter este olhar atento e curioso?

Texto de Sara David Lopes com Inês Ponte

 

Sara David Lopes

Nasceu em 1965, em Lisboa. Fala 5 línguas e é tradutora de filmes e séries. É co-fundadora do Festival Olhares do Mediterrâneo – Cinema no feminino.

Inês Ponte

Nasceu em 1979, em Lisboa. É antropóloga visual, investigadora e documentarista. É programadora do Festival Olhares do Mediterrâneo – Cinema no feminino.



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