motelx2010

O Mestre dos Mortos Vivos

George Romero visita-nos no final do mês.

É um festival de cinema de género, ainda por cima um que dificilmente segura um grande número de espectadores: o terror. Felizmente, desde a sua a primeira edição, que o MotelX se tem apresentado como um dos certames mais frescos e entusiasmantes no panorama lisboeta, abrindo a temporada destas festas em Setembro, logo depois do marasmo do Verão. Este ano começa um pouco mais tarde, no final do mês, contrariando a tendência da primeira semana de Setembro das edições anteriores. A razão não poderia ser mais bem-vinda: as tão esperadas obras no São Jorge. Parece que é desta que vamos ser abençoados por ar condicionado, pois um dos terrores daquelas salas passava pelo ar fastio e abafado ao fim de alguns minutos após o início de cada sessão.

Número crescente de público ao longo das edições, como tem sido habitual nos restantes festivais lisboetas, e uma programação cada vez mais entusiasmante, alicerçada em convidados de luxo, aliás, de culto, como o Zé do Caixão, José Mojica Marins, Stuart Gordon ou John Landis. Este ano, maravilha das maravilhas, o convidado de honra é George Romero, essa figura paternal dos filmes de zombies.

São seis as suas sátiras políticas e sociais que usam como metáfora os Living Dead. Ao longo de quarenta e dois anos têm-se dado a conhecer espaçadamente e de modo mais ou menos irregular: “Night Of The Living Dead” (1968), “Dawn Of The Dead” (1978), “Day Of The Dead” (1985), “Land Of The Dead” (2005), “Diary Of The Dead” (2007) e “Survival Of The Dead” (2009). Este último verá o seu estatuto de “inédito em Portugal” extinguir-se durante esta quarta edição do MotelX.

Alguns foram alvos de remakes, o imaginário colectivo atingido pelo surripio criativo, mas dificilmente noutros filmes de zombies se sentirá uma metáfora, uma crítica, tão forte como nos de Romero. O realizador tem adequado tons e temáticas conforme o período em que se vive: “The Night Of Living Dead “era uma crítica à acção norte-americana no Vietname, mas também ao racismo; “Dawn Of The Dead” um duro ataque à sociedade de consumo; a emigração em “Land Of The Dead” e “Diary Of The Dead” um esforço por integrar a web 2.0 e a obsessão global pela gravação de imagem, um delírio pela preservação da memória com zombies como pano de fundo. Os Estados Unidos como centro do mundo; a sua supremacia como reflexo dos tempos modernos; os seus hábitos como um espelho da insatisfação global e pessoal de cada um de nós.

Tem sido certeiro e oportuno na maior parte dos seus filmes. De Dead para Dead, os mortos vivos estão com mais fome, mais viscerais, mais primários: um pouco como nós.

Contudo, nem só de zombies vive a biografia de Romero. Há uma outra filmografia do realizador, que mantém intactos os seus princípios, com outras ameaças, tão ou mais perigosas. “The Crazies” (de 1973, cujo remake estreou entre nós neste ano, produzido por Romero e dirigido por Breck Eisner), “Martin” (1977), “Creepshow” (1982) e “Monkey Shines” (1988) são amostras desse outro lado que o MotelX vai recordar nesta sua edição, evidenciado que a filmografia (modesta para mais de quatro décadas no activo) é mais vasta do que a maioria pensa.

Ilustração de Isabel Salvado



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