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“O Meu Nome é Lucy Barton” de Elizabeth Strout

Anatomia urbana da solidão

Alguns livros revelam-se absolutamente irresistíveis logo após as primeiras páginas e a sensação de estarmos perante uma estória memorável tem efeito imediato. Essa premissa aplica-se, na perfeição, a “O Meu Nome é Lucy Barton” (Alfaguara, 2016), o mais recente livro de Elizabeth Strout que chegou recentemente às livrarias portuguesas e que tem tudo para ser uma das obras mais marcantes na rentrée.

Através de uma simplicidade narrativa absolutamente desarmante, Stout – autora que já arrecadou o Pulitzer, os prémios Los Angeles Times Art Seidenbaum Award e Chicago Tribune Heartland Prize, tendo sido também finalista do PEN/Faulkner e Orange Prize, em Inglaterra – volta ao universo do conto, no caso versão xl, e apresenta-nos um pouco da vida de Lucy Barton, uma mulher comum mas cujo extraordinário caráter e dúvidas existenciais nos remetem para um dos recantos mais íntimos do ser humano: a (sua) solidão.

Obra breve, “O Meu Nome é Lucy Barton” revela a existência de, claro está, Lucy, uma autora de contos, “agora”, bem-sucedida que na sequência a uma rotineira intervenção ao apêndice se vê na iminência de passar algumas semanas numa cama de um hospital. Como consolo, além de uma janela com vista para o edifício Chrysler e dos sons da cidade que nunca dorme, Lucy recebe a inesperada visita da mãe depois de muitos anos sem se verem, algo que vem atenuar as muitas saudades da família.

E ao longo de cinco noites, mãe e filha têm aquilo que nunca tiveram, tempo e espaço para dedicar à outra. Entre as entradas e saídas do pessoal médico, Lucy e a mãe exorcizam um passado marcado por várias formas de ausência e embrenham-se em mais ou menos longas discussões onde as relações humanas, e alguma coscuvilhice, brotam uma espécie de reconciliação verbal e, de certa forma, emocional.

Fazendo recurso de um intrincado estimulante exercício de memória, Lucy, no papel de narradora, cauteriza alguns dos acontecimentos mais marcantes da sua vida, como o isolamento e o sentimento de pobreza vividos na infância, a ausência de uma estrutura afetiva (e) familiar, a luta para se tornar escritora, o(s) matrimónio(s) e maternidade e, essencialmente, a relação conturbada com os seus pais, algo que desperta sentimentos prosaicos, dolorosos e reveladores de um amor distante.

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Ao longo do livro há também lugar para uma amarga sensação por aquilo que foi uma infância dura em Amgash, Illinois, em que as principais memórias resvalam para a miséria humana onde os abusos, principalmente os emocionais, abriram feridas que nunca se fecham por completo. Esse retorno ao passado é um dos fios condutores de “O Meu Nome é Lucy Barton” e é com o seu progresso, por vezes cronológico, que somos presenteados com episódios avulso de uma vida que teima em não deixar que Lucy consiga, real e incondicionalmente, amar e amar-se, ainda que os sentimentos que nutre pelas filhas seja quase a única esperança para que tal aconteça.

Quase como se de um puzzle emocional se tratasse, Lucy revela, em forma de desabafo e desafiando passado, presente e futuro, por exemplo, como conheceu uma escritora numa loja de roupa, e que mais tarde seria uma das suas musas; a paixão pela comunidade índia e a injustiça e violência que fora alvo; a homossexualidade reprimida do seu irmão; uma inesperada paixão alheia pela figura de Elvis Presley; o quotidiano hospitalar que segrega os portadores de SIDA; os conselhos de uma médica que tem a fórmula para que não se torne parecida com a própria mãe; como é fácil a paixão por quem trata e se interessa por nós; estranhos unidos pela inteligência e perceção da condição humana.

Unem esses relatos uma infinita ternura e gentileza enraizada nas palavras de Lucy (ou Stout) que fazem chegar ao leitor uma tensão emocional que rapidamente contagia a veracidade com que se lê e faz com que um livro com pouco mais de 170 páginas se torne numa verdadeira enciclopédia sobre a vida real.



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