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“O Novo Dancing Eléctrico” dos Artistas Unidos

Podendo também ser visto como um espectáculo sobre a (in) felicidade, sobre a vida das pessoas que se fecham sobre as suas próprias histórias extraindo delas a alegria possível, esta nova criação dos Artistas Unidos tem o que basta para vir a ser um acontecimento feliz na vida dos espectadores que se deslocam ao Teatro da Politécnica.

Os Artistas Unidos e o teatro de Enda Wlash

Deixem-me começar em primeiro lugar por esta intimidade que os Artistas Unidos estabeleceram com o teatro de Enda Wlash, até porque no território do fast food teatral pode parecer parece coisa discipienda, engolida pela realidade de se noticiar mais um espectáculo em cena. Basta irmos ao site do grupo para virmos de lá impressionados. Desde 2007, altura em que Franzisca Aarflot encenou Disco Piggs,  de Enda Walsh os Artistas Unidos já montaram seis peças deste dramaturgo:  Acamarrados (2008), Penélope e Farsa da Rua W (2012), Misterman (2014) e agora este “O Novo Dancing Eléctrico (para não falarmos do pequeno acto que ele escreveu para o espectáculo “ Conferência de Imprensa e Outras Aldrabices”  apresentado em 2005 no Teatro Nacional D. Maria II). Esta proximidade e cumplicidade dramatúrgica da companhia com Walsh reparte-se por toda a equipa artística: as traduções de Joana Frazão, as cenografias de Rita Lopes Alves, as encenações de Jorge Silva Melo, os desenhos de luz de Pedro Domingos, e o próprio elenco que mantém uma ligação mais permanente ao colectivo, como Pedro Carraca, António Simão, João Meireles e Andreia Bento.

O trabalho de levantamento da obra deste dramaturgo irlandês não se fica pelos espectáculos. Tal como já vem também sido marca e característica da actividade desta companhia, para além da edição das peças, para além dos encontros promovidos com o autor, na Revista dos Artistas Unidos é feito um enquadramento dele e da sua obra. Os próprios dossiers de imprensa bem cuidados, invariavelmente com uma resma de folhas com o texto policopiado da peça, são também um desafio para que esta cumplicidade com o texto, com a obra, com o autor, se prolongue até nós. Não será por acaso também, mas quem sabe, por desejo que sejamos contaminados por esta afectividade, que sobre Enda Walsh escreva assim Jorge Silva Melo:  “Tenho esta certeza: vem da Irlanda, mais uma vez, uma voz única que, porque acredita na paródia, vai derrotar as pedantices de tanto teatro chapa 5 (pós-dramático?) que finge ser de agora. Precipito-me sempre para Enda Walsh, gosto dele e do seu teatro. E gosto daquilo que ele gosta, do trabalho e da invenção.”

Fotografia de Jorge Gonçalves

Fotografia de Jorge Gonçalves

O Novo Dancing Eléctrico

Precipitemo-nos também nós agora para este O Novo Dancing Eléctrico. Comecemos pelo espaço de Rita Lopes Alves. A didascália inicial do texto de Enda Wlash diz:  “ Uma sala de estar / área de cozinha. Numa parede, três conjuntos diferentes de roupas pendurados em cabides separados. Uma camisola de caxemira e uma minissaia com folhos; uma blusa vermelha dos anos 50 e uma saia de pregas azul; um fato de homem, brilhante, de estrela rock. Uma pequena bancada de cozinha, em cima dela um grande bolo de aspecto delicioso.”

A cenografia cumpre rigorosamente o pedido do dramaturgo mas organiza-o valorizando dois elementos cénicos novos: uma janela estreita e comprida e uma porta, ambas desenhando a parte esquerda da cena. Também, os cabides das roupas ficam na zona direita, fora da zona de acção, reforçando mais tarde uma ideia de fora de cena, que acentua o palco que cada uma das personagens irá ter. O mais importante: a janela vai ter uma presença dramatúrgica constante através da forma como ela é trabalhada pela luz, reforçando, através da sua ligação ao exterior, a própria ideia de intimidade daquelas quatro personagens. E também, esse mundo coscuvilheiro que está lá fora. A primeira fala, de Breda, é dita exactamente aí, à janela, na sua relação com o exterior e não é nada complacente com o que está para lá da janela: “ As pessoas são faladoras por natureza. Não se pode negá-lo. Poder, pode, mas isso seria afirmar o que estamos a tentar rebater e que sentido teria tal coisa? Nenhum. Estaríamos só a contribuir para o mar de palavras que já existem na tentativa de dizer que as pessoas não são faladoras.”

Fotografia de Jorge Gonçalves

Fotografia de Jorge Gonçalves

Uma espécie de psicodrama familiar…

E quem são estas personagens? Ouçamos outra vez as indicações austeras de Walsh: “Breda, sessentas, Clara, sessentas, Ada, quarenta anos, Patsy, um peixeiro”. Isabel Munoz Cardoso é Breda, Antónia Terrinha é Clara, Andreia Bento, Ada. Patsy é representado por Pedro Carraca. Três irmãs e um peixeiro numa remota aldeia piscatória. As mais velhas, Breda e Clara, disputam entre si a memória de uma noite no Novo Dancing Eléctrico  em que quase tinham vivido um romance com Roller Royle, uma espécie de Elvis Presley irlandês que provocava um mar de suspiros e desmaios à sua passagem.

Dizer que elas nunca esqueceram essa noite é dizer pouco sobre esta peça. A verdade é que elas fazem mais do que isso: elas passam a vida a recriar a história dessa noite em que foram de bicicleta ao Novo Dancing Eléctrico e perderam as ilusões de amor que tinham com Roller Day. Cada uma, numa encenação orquestrada que a irmã mais nova incentiva ao ponto de lhes ter gravado uma banda sonora para melhor enquadrar este ritual de revisitação das histórias. Com este ritual, tentam também proteger a mais nova, Ada, uma mulher cobiçada pelo peixeiro Patsy.

“Ada Eu ainda sou bebé quando ouço pela primeira vez essa história, Breda. Depois obriguei-te a contá-la milhares de vezes, a repeti-la, como uma criança… apesar de eu não ser uma criança. (Pausa.) Mas magoa na mesma, não é verdade?

Breda Não foi isto que nós te tentámos ensinar? (Ligeira pausa.) Não te sentes mais segura cá dentro do que lá fora?  Ligeira pausa.

Ada Eu não sinto nada.”

Fotografia de Jorge Gonçalves

Fotografia de Jorge Gonçalves

Personagens poéticas e profundamente humanas

E ali estão três irmãs, fechadas numa sala, que se abre ao mundo através de uma janela, de uma porta e de um imaginário de um episódio passado há muitos anos, com um cantor romântico, numa discoteca local. A força desta peça está em primeiro lugar nas personagens. Na sua profunda humanização. Chega a ser comovente a disponibilidade com que as personagens, com ajuda de alguns figurinos, se entregam a isso. É como se fosse um psicodrama familiar em que cada uma das irmãs se dispõe a ser uma espécie de ego auxiliar da outra, permitindo assim que a purga sobre o passado se faça. Há uma felicidade que se solta de poderem estar ali juntas umas com as outras, aconchegadas.

“Todas as minhas peças tendem a ser sobre personagens que estão presas em padrões de comportamento, ou de linguagem, e chega a um momento em que dizem: “Pronto. Não posso continuar a viver assim, preciso de viver de outra maneira. Acabam por detestar esse mundo que criaram, e têm de se livrar dele – enquanto que nós, enquanto público, ficamos a gostar delas e desse ambiente, mas é no momento em que temos de nos despedir. , disse Enda Wlash [1].

E aí há que reconhecer que é um elenco feliz. A Andreia Bento, a Pedro Carraca e a Isabel Munoz Cardoso, que vemos habitualmente em produções do Artistas Unidos, juntou-se Antónia Terrinha, actriz que trabalhou no Teatro O Bando (grupo que durante muitos anos se caracterizou pela singularidade e força das suas personagens, autênticos retratos onde o grotesco, a poesia e o realismo se misturavam). Acabam por constituir-se todas como um contraponto umas das outras, valorizando a relação entre poesia e humanidade na criação das personagens.

E por fim, Enda Walsh

Nascido em Dublin, em 1967, é uma das vozes fortes da dramaturgia irlandesa contemporânea. Escreveu também para rádio e cinema (nomeadamente o argumento de The Hunger de Steve McQueen). Disco Pigs, a primeira peça que os Artistas Unidos montaram, foi amplamente traduzida na Europa e A Farsa da Rua W, obteve sucesso na Escócia, em Londres e Nova Iorque.  A sua relação com Portugal data do seminário de escrita do Traverse Theatre em 2004. Voltou depois para a apresentação de Disco Pigs e nessa altura foi gravada uma conversa entre ele e Jorge Silva Melo. Terminemos com um voo picado sobre um naco dela, aquele em que Enda Wlash fala da forma como escreve:

“Acho que é um estilo muito antigo – e irlandês – de contar histórias, em que as personagens se levantam e pronto, contam uma história. E eu tenho a sorte de vir de uma família grande – enfim, para os padrões irlandeses é pequena, uns seis – mas suficientemente grande para se terem discussões mesmo boas. Eu tenho uma relação muito forte com a minha família, e grande parte dela baseia-se em estarmos para ali sentados na cozinha, a contar as mesmas histórias vezes sem conta. (…/…) Talvez isto pareça ridiculamente romântico e absurdo, mas eu sinto que ainda não saí da cozinha, são duas da manhã, e aqui estou eu a contar outra história.”

 

O NOVO DANCING ELÉCTRICO de Enda Walsh
Tradução Joana Frazão
Com Andreia Bento, Antónia Terrinha, Isabel Muñoz Cardoso e Pedro Carraca
Cenografia e Figurinos Rita Lopes Alves
Luz Pedro Domingos
Assistência de Encenação Andreia Bento e Pedro Carraca
Encenação Jorge Silva Melo
M14

No Teatro da Politécnica de 9 de Novembro a 17 de Dezembro

3ª e 4ª às 19h00 | 5ª e 6ª às 21h00 | Sáb. às 16h00 e às 21h00
Reservas | 961960281 | 213916750 (dias úteis das 10h00 às 18h00)

 

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[1] Eu sou esta história, mais esta, mais esta, Conversa com Enda Walsh e Jorge Silva Melo, realizada em 2007,  integrada no Festival de Literatura Irlandesa “Rising to Meet you”.in Revista Artistas Unidos nº 20

 



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