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O nu de Ursula Rucker

Musicbox, 17 de Junho de 2010.

Quando chegámos ao Musicbox já JP Simões estava em cima do palco a recitar poesia. O ambiente é intimista. No palco estão apenas uma cadeira e um livro. E, claro, o ex-Belle Chase Hotel e Quinteto Tati. A determinada altura, Simões revela que a ideia seria “fazer uma coisa mais arrojada, como debitar pensamentos e atirar palavrões durante meia-hora”. Terá sido aconselhado a fazer algo diferente, ou seja, mais “normal”. Leu um texto baseado numa crónica de António Lobo Antunes, satirizou a ausência de “erres” no discurso oral do “Professor Cavaco Silva” e improvisou, muito, no meio das leituras e recitais. Acabou com uma cover de José Mário Branco.

No intervalo das duas actuações há tempo para reparar que o set mantém-se – uma cadeira e uma pequena mesa. Projectado na parede lê-se “Durante os espectáculos é favor manter silêncio e não fumar”. Sim, estamos na segunda edição do Festival do Silêncio, uma das mais arrojadas propostas da agenda de espectáculos dos últimos anos e o cartaz é de luxo.

Ursula Rucker é uma mulher comum. Por isso, não admira vê-la entrar de mala. O aparato é quase nulo e antes de começar o espectáculo apresenta-se: “já cá estive umas sete vezes e vim sempre com instrumentistas. Hoje estou sem banda, sinto-me nua. Preciso de muito amor”. De resposta recebe logo um “I Love You!”. Ao longo da actuação, o público encarregar-se-ia de a fazer sentir em casa.

O espectáculo variou o registo spoken Word com algumas canções mais cantadas – estas últimas significam uma maior aproximação à soul. Ursula falou de sexo, dos signos do zodíaco, de fast-food e do twitter – algo que diz não ter paciência para usar.

Chegados a «Heard of it», melhor momento do espectáculo, ouvimos Rucker reclamar que a “a verdade é vital, deveria ser ser tudo”. É nesta canção que lhe ouvimos o melhor verso recitado no espectáculo: “Heard the truth / Like’s gospel / Like’s god word!”. Logo a seguir surge «Supersisters», canção que costuma fechar os concertos da artista, mas que aqui surge a meio – talvez porque este é um concerto diferente.

Entretanto, a meio do concerto, surgiu um daqueles momentos que fazem história. Rucker chama JP Simões ao palco para ajudá-la a interpretar «She». Simões senta-se, cruz a perna e coloca o cigarro no canto da boca. Foi um momento especial, bonito, memorável. Abraçam-se e JP abandona o palco para não mais voltar.

Já com a actuação a aproximar-se do fim declarou amores (sinceros) a Portugal – numa altura em que são os próprios responsáveis políticos portugueses a amaldiçoar a sua nação, tem que vir alguém de fora para nos fazer crer que há coisas boas neste país à beira-mar plantado.

Entre alguma soul e a capella surgem letras sobre a escravatura, a emancipação da mulher, racismo e revolução. A mensagem tem que passar e, para tal, Ursula usa uma linguagem explicita: “Good enough to fuck / Not good enough to vote”.

O concerto de Ursula Rucker foi especial. Tal como o Festival do Silêncio, a artista norte-americana é um OVNI no mundo cultural. Acabou o concerto sem microfone e com o Musicbox a cantar em coro, totalmente conquistado, a seus pés.

Fotografia por Cátia Barbosa



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