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“O Pavilhão Púrpura” de José Rodrigues dos Santos

O mundo à beira do abismo

O projeto de escrever uma saga, algo inédito no universo literário nacional, revelava-se envolto de contornos ambiciosos logo à partida. Avesso a controvérsias e dificuldades, José Rodrigues dos Santos comprometeu-se com essa tarefa hercúlea e começou a “desenhar” uma trilogia que tem em “O Pavilhão Púrpura” (Gradiva, 2016) o seu segundo e muito aguardado tomo.

Pegando nas (muitas) pontas soltas de “As Flores de Lótus”, Rodrigues dos Santos faz-nos regressar às deambulações de Fukui, Artur, Lian-hua e Nadija, quatro «pessoas ordinárias que se viram em situações extraordinárias e que, pela forma como as souberam superar, se tornaram elas próprias extraordinárias».

Se no primeiro volume da trilogia o leitor era convidado a entrar num filme cujo fio condutor tinha por base o forte pendor revolucionário que se sentia no final do século XIX e inícios dos anos 1900, e que fazia cair alguns regimes e ideais em favor de outros, em “O Pavilhão Púrpura” o epicentro da estória centra-se no «voraz capitalismo» e nas marcas que esta nova visão económica cravou nas democracias, principalmente pelo cataclismo que se revelaria a Grande Quebra de Wall Street, conjunto de acontecimentos que não deixam de encontrar um paralelismo com aquilo que hoje vivemos.

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Rodrigues dos Santos faz-nos entrar na máquina do tempo e revela os vendavais sociais vividos em Portugal, Japão, China e União Soviética. Assim, Artur, agora major, torna-se numa espécie de braço direito de Salazar e vive na primeira pessoa as estratégias que o ambicioso ministro das finanças, cujo rigor orçamental provocou o desespero entre os militares abrindo assim alas para um descontentamento crescente.

Enquanto isso, no Japão, o jovem Fukui vê-se no seio de uma dupla revolução. Se, por um lado, tem o coração divido entre a desafiante, bela e quente Harumi e a doce Ren, por outro centra as suas atenções nas mudanças políticas e culturais dos japoneses que começam a abraçar os ensinamentos chegados do ocidente em detrimento das tradições xintoístas e confucionistas. A terrível depressão vivida na Manchúria e os conflitos com a China estão também na ordem do dia.

Também por terras do Oriente, a pequena Lian-hua consegue escapar às garras de Mao Tse-tung e vai para Peiping, entretanto declarada capital, território que sente a invasão japonesa da Manchúria e torna-se num local perigoso para todos. Pesadelo similar vive Nadija na sua União Soviética, principalmente depois de Estaline ter decidido que a vanguarda do pensamento está intrinsecamente aliada à superioridade do comunismo e das consequentes coletivizações, cujo preço se traduz em fome, miséria e uma servidão sem limites em nome de um “ideal”. Para tornar ainda tudo mais complicado, da Alemanha surgem os primeiros ecos da eugenia e higiene racial, propulsionados por uma política nascida da mente de um certo Adolf Hitler.

Com um começo algo morno, “O Pavilhão Púrpura” segue todos os predicados da escrita de José Rodrigues dos Santos, com a ação a dar lugar a uma maior contextualização inicial. Mais uma vez, nota-se um claro domínio do autor na dialética histórica mas a evolução da narrativa revela um menor investimento emocional nos personagens (talvez com a exceção de Fukui) para se focar nos já habituais diálogos académicos repletos de (supérflua) informação que chega, a espaços, a tornar-se contraproducente face ao dinamismo coletivo do romance. Essa questão é ainda mais relevante quando nos deparamos com a riqueza que o narrador pode oferecer à globalidade da trama, esse sim, um “personagem” emocionalmente bem construído, e frágil, cujo sofrimento apenas é denunciado, mais efusivamente, nas derradeiras páginas deste livro.

É também nos últimos suspiros deste romance que a narrativa se revela mais acutilante, principalmente com a trágica peripécia vivida por Nadija, aguçando a curiosidade face ao culminar da trilogia que nos chegará através de “O Reino do Meio”, a ser editado no próximo ano.



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