Nesbo

“O Polícia” de Jo Nesbo

O lado negro da lua

As ruas de Oslo estão em sobressalto. Há um assassino à solta e tem como alvo polícias, especialmente agentes que estiveram envolvidos em investigações que se tornaram inconclusivas, sem resolução. O modus operandi é sempre o mesmo: o assassino atrai os agentes para o lugar onde o crime aconteceu e mata copiando o crime original.

O caos está lançado e especula-se sobre a possível identidade do(s) assassino(s) e quais serão os seus motivos. Para dificultar a tarefa, o cenário da recriação dos crimes fica intacto, sem qualquer pista.

Enquanto isso, um suspeito e testemunha continua em coma no hospital. Guardado 24 horas por dia, este homem pode colocar em causa Mikael Bellman, recém-chefe da polícia de Oslo e responsável pela Brigada Anticrime, organismo hoje órfão de Harry Hole, seu carismático líder, cujo paradeiro incerto leva a duvidar se sobreviveu aos dramáticos acontecimentos de “O Fantasma”, a anterior aventura do norueguês Jo Nesbo.

É assim que se desenha O Polícia (D. Quixote, 2016), o décimo livro da saga Harry Hole que Nesbo transformou num dos seus tomos mais negros e arrepiantes, com a dúvida a permanecer até às últimas páginas.

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Com um enredo denso, perturbador e macabro, recheado com elevadas doses de corrupção, O Polícia mostra-nos um serial-killer empenhado em fazer justiça pelos próprios meios. Ninguém está a salvo e o perigo esconde-se onde menos se espera. Trazendo a palco a habitual “família” da saga, clã Fauke incluído, Nesbo consegue, com grande distinção, deixar o leitor em suspenso, na dúvida, desconfiado de tudo e todos.

A ideia de retirar Harry Hole de cena (ou pelo menos do primeiro quarto do livro) dá o palco a personagens habituadas a planos mais secundários como Beate Lonn, a brilhante líder forense, ou Stale Aune, o gentil psicólogo que sente saudades da adrenalina provocada pela sua colaboração com Hole, ou ainda Anton Mittet, um humilde agente designado para vigiar o paciente de hospital em coma. Também têm lugar de relevo a estreante Silje Gravsend, polícia estagiária na Politihoyskole e obcecada por Hole, assim como o velho conhecido e imprevisível Truls Berntsen, a braços com a suspensão de funções, ou o sub-humano Valentin.

Além de algumas bem-vindas surpresas, O Polícia traz também confirmações, principalmente de estilo por parte da dinâmica da narrativa de Nesbo, pois é conhecido o “carinho” com que o autor descreve e faz crescer os seus maus da fita, neste livro donos de métodos grotescos, cuja força motriz, por mais estranho que pareça, é o amor.

Ainda assim, toda esta monstruosidade fica um pouco atrás do enredo de “O Boneco de Neve”, um dos mais emblemáticos policiais dos últimos anos.



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