“O Povo da Eternidade Não Tem Medo” | Shani Boianjiu

“O Povo da Eternidade Não Tem Medo” | Shani Boianjiu

O medo faz o futuro chegar mais depressa

De todas os acontecimentos com os quais nos cruzamos pelo mundo fora há, inevitavelmente, alguns que nos chocam mais do que outros. Alguns que nos surpreendem e endurecem, são até capazes de mudar completamente a nossa visão sobre um assunto. Um deles é a guerra. Não podemos dar-nos ao luxo de dizer que vivemos num mundo de paz, que a guerra e as armas são uma coisa do passado com o qual não temos de nos preocupar. Coisas que pertencem a uma história, cujo lugar é dentro de um livro escolar debitado à pressa nas aulas. Toda a gente minimamente informada sabe que a paz é que é coisa do passado. Se é que alguma vez existiu. A guerra mete medo. A guerra impõe respeito. A guerra dá e tira. Aos homens e às mulheres. Às mulheres, sim. Já estava mais do que na altura de alguma mulher assumir publicamente o seu papel na guerra. A voz da jovem escritora Shani Boianjiu é o melhor e mais real documento da nossa vida posta ao serviço de uma entidade maior. Quase tão grande como deus.

Este povo vem directamente de um país onde o serviço militar obrigatório ultrapassa, em muito o dia passado na companhia de oficiais, conhecendo os seus hábitos para que ao fim do dia nos enviem para casa com uma cédula militar que esperamos nunca usar. Como quem passa um dia aborrecido em casa dos familiares distantes, rezando para que não tenha de lá voltar tão cedo. Porque o ambiente nos intimida. Porque qualquer coisa que tenha a ver com a proximidade de uma guerra arrepia todos os cabelos do corpo.

Que povo é este? Que mulheres são estas? Serão pura e simplesmente Lea, Avishag, Yael e todas as outras mencionadas nestas páginas de uma história pura, dura e tão corajosa? De que é que estas mulheres têm medo? A proximidade da guerra tornou-as menos humanas? Será que, depois de 2 anos, perderam o medo?

O Povo da Eternidade Não Tem Medo” (Alfaguara, 2013) levanta todas estas questões e tantas outras que não estamos prontos para responder. Podemos até sentir-nos próximo(a)s das protagonistas, mas nunca seremos capazes de compreender as sensações destas raparigas. Acabado o ensino obrigatório deixam a sua vida em suspenso para se dedicarem, durante dois anos e em exclusivo, a um serviço militar obrigatório para todas as raparigas. Trocam os rapazes, os perfumes, cabelos arranjados e boas roupas por granadas de mão, boinas duras e de aspecto masculino, armas pesadas e serviço à beira de rebentar de perigo.

Mas a verdade é que, mesmo no fim, o povo – ou as mulheres – continua a ter medo. Elas continuam as mesmas, as suas vidas prosseguem da melhor maneira que conseguem. Umas escolhem a via militar. Outras dedicam-se à casa, à família, ao trabalho numa empresa ou num supermercado. Pretendem sair da pequena aldeia onde foram criadas – e se conheceram – para conhecer outra vida, mais cosmopolita, em Telavive ou Jerusalém. Os seus problemas continuam os mesmos.

Esta história, tanto ou mais do que a história de jovens mulheres que se vêm postas à prova pela guerra eminente e por um mundo dominado pelos homens, é também uma história sobre o tempo. Sobre o que ele cura e o que ele muda. Sobre a sua influência e, acima de tudo, como ele é relativo e subjectivo na pele de quem o sente. Tanto e tão pouco muda em dois anos. Tudo depende de como escolhemos passá-lo.

A guerra torna tudo relativo. As raparigas israelitas quase que podiam ser como todas as outras raparigas do mundo. Tirando que, numa fotografia de grupo apenas com 20 anos, seria mais provável encontrá-las de arma ao ombro do que com saltos altos. O medo torna a experiência inesquecível. O medo torna a experiência real. A vontade de viver fez estas jovens mulheres avançar. Afinal de contas, sem medo.



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