“O Preço”, de Arthur Miller – Nuno César Lomba

O Preço @ Teatro Aberto

É irónico mas é verdade. Em iminência de fechar as portas, o Teatro Aberto estreia a peça de Arthur Miller.

É na sala Azul do Teatro Aberto, que o texto “O Preço” de Arthur Miller é agora tornado vivo por João Lourenço, encenador e Diretor responsável pela Direção Artística e pela Programação do Teatro Aberto, e pelos atores António Fonseca, João Perry, Marco Delgado e São José Correia.

Corre o ano de 1968, em Nova Iorque. Um prédio vai ser demolido. Um apartamento torna-se a testemunha do reencontro de dois irmãos que não se vêem há dezasseis anos.

A venda das mobílias antigas do pai falecido daqueles irmãos, são o pretexto para uma revisita ao passado, a recordações dolorosas, apagadas e quem sabe distorcidas, por cada um deles. Como Arthur nos conta numa entrevista dada em 1970 a Ronald Haymann “é impossível individualizar as pessoas sem termos em conta o seu passado (…). O passado, quando se olha para ele com coragem, pode-nos libertar assim como prender em repetições da sua ilusão.

Esta é uma peça intemporal, que quer queiramos quer não, encaixa que nem uma luva à situação socioeconómica que estamos a (sobre)viver. Tudo tem um preço: todas as escolhas têm uma consequência, viver agarrado ao passado tem um preço, libertar-se dele tem outro.

João Lourenço confessou que na sua perspetiva, “O Preço” é a peça do Miller que mais se aproxima do Ibsen, um autor de quem gosta muito. Isto aconteceu por causas das figuras que aparecem e pela grande ligação ao passado.

Com o passar do tempo nós vamos fazendo um passado que não é bem aquele que nós vivemos. Quando falamos do passado acabamos por transformá-lo. Mais positivo ou mais negativo.” João Lourenço

A ideia de fazer esta peça surgiu há cerca de ano e meio e o enredo de “O Preço” passa-se todo à volta do crash da bolsa de Wall Street em 1929. João Lourenço nunca pensou que esta peça se tornasse tão actual, e que as suas temáticas estivessem tão presentes na vida de hoje em dia como estão. Esta foi uma grande surpresa.

João Lourenço partilha que há uma ironia amarga nesta escolha da programação do Teatro Aberto. “Eu concebi este cenário com o Casimiro, como sendo uma estrada de memórias que nós temos. No cenário desta peça estão presentes elementos de quase todas as nossas peças. Não sei se isto é um mau indício, mas foi projetando essas memórias e conseguindo que esses móveis que tiveram vida, renascessem com esta gente. Mas não sei se há algum preço que vamos pagar por isso, porque não sei se esta não será a nossa última peça.” João Lourenço

Como Salomão diz no decorrer desta peça, “a única coisa que se pode dizer acerca da sorte, é que ela muda. Muda sempre.”

Esperemos que a sorte do Teatro Aberto mude, e nos traga muitos mais anos de bom teatro, de histórias concretizadas em cima do palco que nos fazem viajar por dentro de nós mesmos. Afinal, estes irmãos, Vítor e Walter são representações da humanidade, que está mesmo à mão de semear, dentro de nós.

Venha daí descobrir qual o preço desta história de família.

 

Horário: quarta a sábado às 21:30, domingo às 16:00
Morada: Praça de Espanha 1050-107 Lisboa

 

Fotografia de Nuno César Lomba



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