O Puto – Autópsia dos ventos da liberdade

O Puto – Autópsia dos ventos da liberdade

Afiar facas com sangue

Portugal não só tem falta de iconografia na sua história, como tem uma lacuna ainda maior de lendas por descobrir. Se descontarmos o 25 de Abril, desde o regicídio que o nosso pais não produz um herói digno desse nome, quanto mais um anti-herói como Manuel Gastar, mais conhecido por Comandante Paulo.

Este Comandante contra-revolucionário, como um Che Guevara do outro lado do espelho, ficaria imortalizado como “O Puto” por aos 17 anos ter aparecido à porta da tropa para ser comando. E não só era contra a revolução dos cravos como também assumia com todas as letras “o ódio ao comunismo”.

Se isto não for o suficiente para cativar os leitores, então que tal o seu papel no levantamento dos colonos brancos de 1975 em Moçambique que resultou na capturada pela FRELIMO.? Captura essa que posteriormente resultaria não só numa estadia num campo de reeducação, como também na proeza de escapar de lá.

Aliás, tal como Che, que passou por várias frentes na América do Sul, também o Comandante Paulo esteve presente em diversos conflitos de países Africanos, sendo inclusivamente ferido por três vezes em Angola. Sem ficar a dever nada a qualquer protagonista de acção dos anos 80, o Puto teve de ir à Suíça remover estilhaços do corpo, envolvendo-se depois numa série de atentados para todos os gostos e feitios, desde acções contra a embaixada de Cuba ou a torre do radar do aeroporto da Portela até roubo de armas e o lançamento de uma granada contra o cortejo da campanha presidencial de Ramalho Eanes. No meio de tudo, ainda teve tempo para fundar o poético-reaccionário Comando Operacional de Defesa da Civilização Ocidental.

Eventualmente, o Paulo acabaria por ser apanhado e condenado a 38 anos de prisão devido a todas as acções em que esteve envolvido. Mas nem isso seria suficiente para o parar, já que em 78 acabaria por fugir da prisão de Alcoentre com mais de uma centena de presos, no que viria a ser conhecido como “A Grande Evasão”. Como a luta fervia no seu sangue, eventualmente integra o Batalhão Búfalo na África do Sul, e actualmente com mais de 60 anos o seu paradeiro é desconhecido.

“O Puto – Autópsia dos ventos da liberdade” do jornalista Ricardo de Saavedra consiste na entrevista ao “Comandante Paulo” gravada em 1979, respeitante sobretudo ao período pós-Abril de 74. Embora antendo-se fiel ao texto original do entrevistado, o livro lê-se essencialmente como se fosse ficção de época, com bastantes termos típicos da geração PREC presentes.

Além da riqueza dos pormenores derivados do relato na primeira pessoa, “O Puto” inclui ainda fotografias e o mapa do plano de fuga da prisão de Alcoentre, proporcionando assim uma experiência mais rica de leitura. Para que, como queria o Puto, o amanhã não estrangule o futuro.



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