“O Quadrado”

“O Quadrado” de Ruben Östlund

Este filme devia ser um “campeão de bilheteira”

Quando falamos de filmes que receberam a Palma de Ouro muitos cinéfilos terão discussões apaixonadas sobre as obras que deveriam ou não ter sido premiadas. Encontramos também filmes que foram agraciados com um Óscar ou um Bafta, sinal de algum consenso na comunidade. Olhando para a lista não encontramos um “campeão de bilheteira”, ou “como se diz em americano” um blockbuster. Reconheço que há filmes, pela sua temática ou estética, não sejam fáceis para o espectador identificar-se e interessar-se, mas há alguns filmes que deviam de ter sido vistos por mais público, nem que seja pela intenção crítica/comentário à sociedade, com a qual todos beneficiamos pela reflexão e discussão que eles proporcionam.

“O Quadrado” foi o filme vencedor do Festival de Cannes de 2017 e devia de ser um blockbuster. Este filme devia de ser visto por tantos espectadores como… por exemplo o “Velocidade Furiosa 8”. Uma boa explicação para esta comparação é que nem todos os dias conduzimos carros a alta velocidade, mas pelo menos uma vez por semana precisamos da ajuda de alguém, nem que seja para pedir emprestado um carregador de telemóvel.

Ruben Östlund assina o argumento e a realização deste filme que gira em torno de uma instalação que tem por conceito a Igualdade e a Fraternidade entre os humanos: um quadrado desenhado num passeio de uma cidade seria um local de segurança, onde quem se coloca no seu centro precisa de ajuda. Além de ser fácil uma pessoa identificar-se com o tema e situações retratadas, este filme levanta uma importante discussão sobre a confiança no nosso semelhante. Seguramente alguma vez pedimos ajuda a um desconhecido, por exemplo, quando o carro avaria ou um pneu fura. Se calhar houve um dia em que alguém pediu-nos ajuda e sentimos desconfiança ou receio. Até no nosso quotidiano, criamos cada vez mais hábitos para termos maior sensação de segurança. Que tipo de sociedade estamos a ajudar a construir? Uma em que as crianças podem brincar na rua com os vizinhos, ou em que uma mensagem só tem a atenção do público se envolver ou gatinhos, ou sofrimento, ou sensacionalismo, ou todas juntas? Para mim Ruben Östlund deixa pistas para ambas opções e depois espera que a reflexão sobre esta obra actue em cada indivíduo, partindo de cada um qual a atitude a tomar.

O sueco Östlund já me tinha impressionado no filme anterior “Força Maior”, de 2014 e agora no “O Quadrado” ele elevou a fasquia. O que mais me entusiasma no trabalho de Östlund é o argumento, a forma como ele questiona a audiência através das reacções das personagens que vivem situações extremas e – muito relevante! – verosímeis. Espero que daqui a mais alguns meses possamos ouvir falar dele na “época dos prémios”, não porque estes façam dele um filme melhor do que já é, mas para que possa interpelar mais pessoas.

 

Ilustração de Joana Fernandes



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