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O que esperar do senhor Samuel Beckett?

A nova produção do Espaço das Aguncheiras estreou no Teatro Mirita Casimiro, depois esteve em Sesimbra tendo já prevista, para o Verão, uma apresentação num espectáculo ao ar livre já no Espaço das Aguncheiras. A RDB foi ver e conversou com São José Lapa e Alberto Lopes, que dirigiram a criação do espectáculo.

Depois da aventura de “O sossego k ali havia assemelhava-se ao da eternidade”, com nove peças de Jaime Salazar Sampaio (que foi ele também tradutor de Samuel Beckett), dramaturgo cujo trabalho é muitas vezes associado ao teatro do absurdo (como, entre outros, Prista Monteiro, Jaime Rocha e Luís Mourão), o Espaço das Aguncheiras atirou-se ao desafio de unir cinco pequenas peças – os chamados dramatículos – de Samuel Beckett.

Escritas com um intervalo de 18 anos, a primeira é “Palavras e Música” (1962), depois “Vai Vem” (1965) e “Passos” (1976),  e as duas últimas, ambas de 1980, são “Ohio Improviso” e “Cadeira de Baloiço”. No texto de apresentação do espectáculo chamam-lhe “turbilhão por camadas”. Estes textos, escolhidos por Alberto Lopes e São José Lapa – que, conjuntamente com Valerie Braddell, os traduziram-   são representados  pelas actrizes São José Lapa, Valerie Braddel e Inês Lapa Lopes.

A morte em cinco pequenos contos teatrais

O espectáculo organizado por São José Lapa, a mentora do projecto do Espaço das Aguncheiras ( sobre o qual falaremos no mês de Março) e Alberto Lopes, começa por “A Cadeira de Baloiço” (Rockaby), peça escrita em 1980 – e que, com “Vai Vem”, fez parte de um espectáculo, “Todos os que Falam”, apresentado em 2010 no TNSJ do Porto – e enquadra-se no minimalismo tão habitual em Beckett. Uma única actriz sentada numa cadeira que baloiça, enquanto se ouvem as palavras de um intenso poema sobre a morte, sobre a aceitação da morte.  O movimento repetitivo da cadeira vai, em certo sentido, ligar-se com o movimento do andar de May em “Passos” (Footfalls), que tem por base uma conversa entre uma filha -uma mulher de meia idade – que caminha, caminha, fechada nos seus próprios passos,  e uma mãe, de noventa anos. O texto de Beckett propõe que a mãe não esteja em cena mas aqui a encenação incluiu-a (embora usando uma convenção, a da leitura de uma carta, que de alguma forma dilui a interacção). Há ainda “Palavras e Música” (Words and Music), uma peça de teatro radiofónico, que permite a Alberto Lopes explorar a articulação multimédia que é também uma marca do seu trabalho criativo e “Ohio Improviso” (Ohio Impromptu), texto poético interpretado em português (São José Lapa) e em inglês (Valerie Braddell). Por fim “Vai Vem”, onde três mulheres se cruzam a falar umas com as outras e umas das outras e traz uma nota de humor para o final desta incursão do Espaço das Aguncheiras no universo de Samuel Becket.

O espaço é minimalista, marcado por pequenos elementos cénicos, e revela desde o início os vários locais de representação de cada uma das pequenas peças. A estrutura dramatúrgica do espectáculo faz com que o tempo passe a correr e de repente já estamos no quadro final.

Um teatro emocionalmente convulsivo

A conversa com Alberto Lopes e São José Lapa é muito viva. Eles conhecem-se desde miúdos, têm uma vivência teatral imensa que até já passou pela experiência da descentralização, em Viseu e onde é perceptível uma admiração recíproca. São José Lapa chama a atenção para o seu trabalho enquanto dramaturgo, Alberto Lopes refere que uma das coisas que o faz gostar de trabalhar com ela é que ninguém defende tão apaixonadamente um espectáculo, um trabalho.

Em relação a Becket  São José fala com entusiasmo, defende a força, a vitalidade do teatro de Samuel Becket. Cita Harold Pinter, diz que Becket é o escritor mais corajoso e implacável que anda aí, insurge-se contra a tentativa de asseptizar o Beckett (em relação a “Vai Vem”), recusa também uma visão museológica deste dramaturgo. Alberto Lopes é mais contemporizador, diz que também quer ver Beckett à Beckett ao que São José Lapa responde logo, “-Então vai ao museu!”, lembrando que também Becket propunha alterações de apresentação para apresentação. Há uma dimensão do teatro de Becket a que Alberto Lopes é particularmente sensível:

“Os textos de Becket são emocionalmente convulsivos. Não se consegue escrever aquilo sem uma maestria sobre a vida, sobre as emoções, sobre a natureza humana. O que é importante é como Beckett transforma coisas comezinhas em universalidades, existenciais.”

São José Lapa interrompe para falar do enraizamento de Becket com a vida. Fala do trabalho de Becket com Joyce, a sua ligação à Resistência. Alberto Lopes reforça este aspecto:

“Para mim este aspecto é mais poderoso do que a sua ligação ao teatro do absurdo, que é uma daquelas coisas que é datada. O teatro do absurdo é uma coisa que uma pessoa em 1950 diz de um teatro que corta radicalmente com a experiência teatral anterior, nomeadamente a convenção do teatro psicológico com todas as derivações em torno de Stanislavski. Para mim Becket é totalmente diferente, ele é um poeta. Ele procedeu a uma absoluta estetização do verbo. Tal como o Pessoa. “

À ESPERA DO SENHOR SAMUEL BECKET

Apresentação: Teatro Mirita Casimiro, de 29 de Dezembro a 8 de Janeiro;  Cine-Teatro João Mota, de 21 a 22 de Fevereiro.

Encenação| São José Lapa e Alberto Lopes. Imagem| Inês Lapa Lopes. Styling| São José Lapa e Ana Maria Lucas. Produção| Espaço das Aguncheiras. Sonoplastia| Alberto Lopes. Luz|Alexandre Coelho. Assistente de produção|João Paiva. Assistente de encenação| Rui Pedro Cardoso. Actrizes|São José Lapa, Valerie Braddell, Inês Lapa Lopes.



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