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“O Quinto Evangelho” de Ian Caldwell

A abençoada arte de fazer um (grande) thriller

Nas derradeiras páginas deste livro, o autor, decide, e muito bem, fazer os devidos agradecimentos a quem o ajudou a transformar uma ideia cuja génese nos remete para uma década antes no romance que hoje aqui dedicamos atenção.

Entre sacerdotes, canonistas, professores ao precioso Google e arquivos do New York Times, muitos foram os contributos decisivos para que “O Quinto Evangelho” (Editorial Presença, 2016) fosse o sucesso que hoje se constata, tendo como principais condimentos consideráveis doses de mistério, política e um interessante balanço entre dogmas e ceticismos da fé.

A trama inicia quando Ugo Nogara, curador responsável de uma exposição de arte nos museus do Vaticano, descobre aquilo que se assemelha com um misterioso “quinto evangelho” que reforça a autenticidade do Sudário de Turim.

Quando Nogara é encontrado morto em Castel Gandolfo, entra em ação a polícia papal mas as suas buscas e investigação revelam-se infrutíferas e o crime fica por resolver. Indignado com a situação e decido a encontrar o(s) culpado(s), o padre ortodoxo grego Alex Andreou, grande amigo de Ugo, decide enveredar por uma busca por conta própria.

As maiores suspeitas caem na pessoa do padre Simon, irmão católico de Alex e colega de Nogara nos trabalhos do museu. Mas Alex está convencido que algo de muito sinistro se esconde por trás do trágico assassinato, que remete para um acontecimento que teve lugar no século XI e que colocou frente a frente ideais ortodoxos gregos e católicos romanos. Mas que acontecimento será esse que terá levado à morte de Nogara?

É isso que Alex, que assume o papel de narrador e protagonista de “O Quinto Evangelho”, nos vai mostrar ao longo de quase 500 páginas e que terá como um dos grandes fios condutores as diferenças religiosas entre o catolicismo romano e o ortodoxo grego, uma luta de memórias que vai trazer também a palco o pai de Alex e Simon, também ele um sacerdote cujo grande o sonho de vida era aproximar as duas referidas visões religiosas e que teve no Santo Sudário uma das maiores questões fraturantes que tem impedido a pretendida união.

À medida que avançamos na narrativa, o mistério adensa-se e o thriller cresce, revela-se mais cerebral e a ação presente assume-se natural e, de certa forma, um elo agregador do todo criado por Ian Caldwell. O assassinato está sempre presente e o contingente de personagens envoltas de mundos sombrios é constante, principalmente no caso de quem usa batina, mas, acima de tudo, é a intriga política que mais faz crescer o suspense global.

O livro oferece também muitos, e interessantes, debates teológicos, em particular aqueles fundados nos evangelhos do Novo Testamento (com alusões a Mateus, Marcos, Lucas e João) e da intrínseca, e suposta, inconsistência destes.

Cadwell tenta condensar esses quatro “episódios” num único documento escrito por alguém que viveu décadas depois da morte de Jesus, sob a forma do referido “quinto evangelho”. Essa sugestão trespassa para Alex que desconfia que o evangelho de João é diferente dos três restantes, nomeadamente em termos históricos e teológicos. E essa é a principal mensagem, sob a forma de revelação, que o “quinto evangelho” traz à tona, algo que poderá ser a ferramenta que falta para a concretização do sonho de pai de Alex e Simon, assim como um importante passo para provar a autenticidade do Sudário de Turim.

Igualmente interessante é a própria história pessoal de Alex, incluindo a dissolução do seu casamento (a sua esposa desapareceu logo após o nascimento de seu filho) e luta para manter a sua identidade grega, enquanto prossegue uma carreira na Igreja Católica Romana.

Pai de Pedro, um menino de cinco anos, Alex revela-se um personagem riquíssimo, extravasando o papel de investigador, sendo um excelente pai, irmão e amigo, e a sua voz é um dos ingredientes decisivos para a complexidade e estrutura do livro.

Em termos globais, é impossível não sentir o fantasma de Dan Brown mas, à semelhança, por exemplo, das obras construídas por José Rodrigues dos Santos, a investigação subjacente à narrativa surge como uma mais-valia à globalidade de um livro que tem a sapiência de fugir à tendência mainstream de colocar a ação como fator decisivo, tornando-se assim mais literário.

Acima de tudo, “O Quinto Evangelho” é um desafio que requer muita concentração, que devora e se deixa devorar, e tem no seu âmago uma estória muito bem estruturada e alicerçada num personagem de excelência que merece, a breve trecho, sequelas.



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