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O regresso das bandas que nunca se deviam reunir

Todas aquelas bandas que adorámos na nossa adolescência e pré-idade adulta, se ainda não o fizeram, decidirão regressar mais tarde ou mais cedo, para que quando formos velhos não haja nada que fique por desejar mas muito fique para nos arrependermos. Como aquela reunião de Judas Priest em que Rob Halford mal conseguia ter as costas direitas, ou a outra de Doors em que era de caras que aquela porcaria com Ian Astbury a fazer de Morrison ia dar merda, por mais que se adore Cult e o Ian. Afinal Carlos Paredes tinha razão quando não queria ganhar dinheiro com a música porque iria acabar por comprometê-la. Infelizmente, tal integridade parece cada vez mais ausente do panorama musical e actualmente dar concertos parece-se cada vez mais com trabalhar num call-center. Com a diferença de que, ninguém nos ouve.

Para aqueles de entre nós que sentiram falta do Nu-Metal, podem ficar descansados porque ele está aí de novo com os Papa Roach e os Korn, o que faz todo o sentido, porque quem tem mais razões para se sentir revoltados do que adolescentes brancos da classe média que vivem nos subúrbios? Isto apesar do enforcamento de Chester, membro dos Linkin Park, que parece não ter sido o suficiente para enterrar o género de vez. Felizmente os Limp Bizkit parecem ter algum bom senso e pouparam-nos a ver mais cotas barrigudos de meia idade vestidos como skaters dos anos 90.

Infelizmente, não é só o Nu-Metal que assinala regressos, uns que nunca deveriam ter existido e outros que tiveram uma primeira existência marcante e que agora apenas a mancham. Porque, apesar da internet fornecer de tudo quando queremos, coisas há que se não vimos e ouvimos na altura certa, agora não fazem qualquer sentido. E se calhar, não devíamos ter tudo o que queremos.

Quando se fala em bandas que voltaram nos últimos tempos, o nome que imediatamente vem à cabeça em 2017 são os At The Drive-In, que não se contentaram em conspurcar tudo aquilo que tinham conseguido, mas ainda juntaram o insulto à injúria ao gravar um disco novo, que essencialmente soa a uns Antemasque a tentar soar a ATDI, ou então o inverso. No mesmo registo de vergonha, inserem-se os Refused, que o melhor que fizeram a par de “The Shape Of Punk To Come” foi terminar no momento certo. Mas depois de algumas bandas falhadas dos seus membros – Sparta, INVSN – era aparentemente altura de voltar à formula vencedora, e acrescentar ingredientes desnecessários para a tornar perdedora, ou não parecesse o novo disco de Refused um bando de velhos a pentear os cabelos por cima das orelhas para o lado, a fim de disfarçar a careca. Ainda no universo do punk/hardcore, são às mãos cheias os regressos, desde Battery, até Jawbreaker, Gorilla Biscuits, GBH, Murphys Law, Reagan Youth, Generation X ou mesmo os Cap’n’Jazz. E se nos sentirmos benevolentes o suficiente para incluir Blink 182 e Offspring, também ambos resolveram voltar e fingir que não têm o dobro da idade que tinham.

Já no Heavy-Metal, os Carcass não entusiasmaram mas também não envergonharam com o seu disco de regresso. Apesar de nunca terem acabado oficialmente, os Metallica estão mais do que acabados desde “Black Album”, por isso “Hardwired… To Self Destruct” deixou infelizmente a promessa que contém no título por cumprir, e novamente a banda de Hetfield tenta provar a si mesmos e ao mundo que ainda têm a garra de outros tempos, quando basta ouvir Metallica ao vivo para perceber que são menos perigosos do que as Spice Girls. Também os Anthrax voltaram, ainda que da formação original pouco reste e da relevância de outrora praticamente nada, e como eles também os Testament insistem em permanecer num mundo que não tem lugar nem paciência para eles.

Noutros géneros, o alvo mais fácil são claramente os Pixies, que não só pecam por ter uma segunda vida sem Kim Deal, como teimam em editar discos que estão a mil anos luz dos outtakes da sua primeira vida. Assim também os My Blood Valentine deveriam ter-se mantido no reino do mito ao lado dos Jesus & Mary Chain. No caso dos Slowdive, não só souberam regressar com classe como ainda editar um disco que parece uma progressão natural de todo o seu percurso, o que no grande esquema das coisas é completamente contra-natura.

A lista é infinita e na maioria dos casos, a coisa só resultam mesmo por valor-kitsch, da mesma forma que as calças de cintura subida ou os sapatos de plataforma estão a fazer um regresso. Não é por serem atraentes, interessantes ou mesmo desejáveis mas sim porque o sistema de consumo sabe transformar as vergonhas de antigamente em necessidades actuais, e já agora porque parece que as bandas actuais são ainda menos marcantes do que ver dinossauros de 60 anos a cantar sobre revolta adolescente num mundo pré-internet. Essas bandas que antes pareciam tocar independentemente do dinheiro em causa e muitas vezes sacrificando-o para conseguir concertos, agora parecem regressar precisamente por causa do dinheiro e das duas uma: ou isso prejudica-lhes o foco ou então esforçam-se demasiado para agradar-nos quando o que queríamos era precisamente que alguém se estivesse nas tintas para o que gostamos e fizesse as coisas para o próprio umbigo, ou ao menos para nos irritar e desprezar. Porque o que o mundo precisa é de mais G.G. Allin e Lemmy Kilmister e menos U2 e Foo Fighters.



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