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O Regresso de Natasha

Uma alucinação ou um mundo à parte?

Num país das maravilhas ou dentro dum ovo
há uma sociedade de quatro pessoas,
aquelas e mais nenhuma.

Não sabem se se conhecem,
mas percebem-se como conhecidos
e às vezes são uma família.

Um é G., o outro é L.,
uma é velha, a outra é.
O outro é de quem o apanhar
se houvesse, mas não há.

Cada um
herói da sua própria certeza,
confessa sonhos de riqueza
a um relógio derretido em cima da mesa.

E quando passa de táxi um monstro escondido,
vai tu
não vou
não vai
ela vai
vai-vai,
tenho medo e peço um desejo.

E assim vamos correndo,
num sopro,
até ao inevitável regresso de Natasha.

Confusos? Nem por isso? A RDB foi ao espectáculo de Comédia do Absurdo e mesmo assim quis perceber (melhor). A actriz, professora, cantora, animadora, dançarina, comediante, (entre outras), Rita Cruz dá-nos uma visão desta “loucura”.

Como surge o espectáculo?

O espectáculo surge quando o Ricardo Neves-Neves, o encenador do espectáculo, propôs-me, à Ana Lázaro e ao Vítor Oliveira, que fazemos parte da Companhia de Teatro do Eléctrico (faz agora dois anos), representarmos um texto seu. Nós lemo-lo e ficamos a pensar como iríamos fazê-lo, porque é um texto do Absurdo, sem dramaturgia. Isto não quer dizer que não existam personagens, mas é um processo muito mais difícil. Tem de se encontrar a dramaturgia na não-dramaturgia.

Como se faz o processo criativo de uma personagem do Absurdo?

Foi complicado chegar à personagem. Até que depois fui percebendo a sua linguagem, que não se fica só pela palavra como deixa, mas também pelo seu movimento, como parte de uma partitura, uma música.

E como é trabalhar essa “música” em “orquestra”?

O encenador, que aliás escreveu a peça com 19 anos, tinha o espectáculo muito certo na cabeça dele. Nós, enquanto grupo, temos uma linguagem e um universo muito particular. Já nos conhecemos há algum tempo como colegas da Escola Superior de Teatro e Cinema, então conseguimos fundir energias. Mas foi muito complicado.

Durante quanto tempo?

Ensaiámos cerca de dois meses para fazermos uma amostra desta peça numa participação na 1ª edição do Festival Curtas 2008, dos Primeiros Sintomas, pouco depois de termos fundado o Teatro do Eléctrico. Quando foi a reposição pensámos que seria mais fácil mas revelou-se muito exaustivo. É um trabalho de pormenor muito preciso, uma composição que não podemos falhar uma “nota musical”, pois se falharmos, a “orquestra” irá funcionar de uma maneira diferente.

Quais foram as técnicas utilizadas para chegar a essa “composição”?

Utilizámos um pouco a ideia de Banda Desenhada. Como se cada um fosse um “cartoon”, que quando entra em cena e fala tem um balão. Cada reacção ao “balão” do outro é quase estática, de espera para o outro. Depois, passa-se tudo num só momento: quando se fala e se tem a posse desse “balão”, a nível de tom, de movimento… nada é naturalista. É por vezes até um bocadinho surreal. Temos que sair um bocado do universo realista e pormo-nos fora.

Há uma personagem que se distingue na forma como se insere nesse “universo fechado” das restantes personagens: começa por ser o que tem mais certezas e acaba ser o que coloca mais questões. Como vês esta relação?

As outras três personagens que estão fechadas nesse universo têm as suas regras próprias. Então essa personagem não percebe porque está entre pessoas que não têm um discurso coerente, são de outro universo. Mas chega a uma altura em que ele é contagiado por essa loucura e duvida de si mesmo. Tinha de haver esse contra-ponto para se perceber as ligações entre as personagens: só assim a loucura poderia ser vivida. Todos nós passamos por vários registos ao mesmo tempo: a Velha, o L, o G e a (meretriz) passam em sintonia, por exemplo, para meretriz-vizinha e depois doente-paciente, tudo coordenadamente. Todos nós somos uma personagem, mas sabemos que temos uma outra dentro de nós. E assim, de um pequeno universo passamos para microcosmos, despoletados por aquela personagem que serve como se fosse o nosso estímulo para as nossas passagens.

Qual a “leitura” que fazes a esse “escamar” das personagens?

Isto é completamente absurdo. A única coisa em comum é a linguagem daquele momento. Todas as personagens têm a sua composição, mas sabemos que naquele momento somos uma outra dentro da personagem. É como nós no dia-a-dia, encarnamos o papel de filha, de namorada, de actriz, etc., só que muito mais marcado neste universo de loucura.

Há muitos elementos “abstractos” a compor a peça. Fala-nos deles.

Alguns desses elementos são uma forma de dar deixas à musicalidade do espectáculo, tal como os nossos próprios movimentos eram compassos. Outros são para compor a loucura do absurdo. Por exemplo: a prostituição da minha personagem é pôr ovos. É passar-se por galinha em vez de vender o corpo. Os ovos são o seu produto.

Por que razão achas que o Teatro do Absurdo não é um género de teatro muito explorado?

Sinceramente, não sei porquê. Nós temos muitas companhias que fazem pontualmente espectáculos. A Comuna, por exemplo, está com uma peça do Ionesco, o pai do Absurdo. Digamos que não há uma companhia especializada, mas nós também não nos queremos identificar como uma companhia só do Teatro do Absurdo. Sentimos que há uma certa empatia com ele e o Surrealismo, e temos feito algumas coisas a partir daí. Mas por agora, foi este caso, este espectáculo.

Qual é o impacto que querem causar no vosso público?

Este espectáculo não é daqueles que queiram passar uma mensagem social. A mensagem é simplesmente apreciar e divertir com os momentos de comédia. É um espectáculo de atenção, concentração e quase como um espectáculo de música: é o apreciar e o jogar com a nossa representação de uma catadupa de emoções, de uma maneira muito frenética. Se calhar dá um impulso para o público no final tentar descobrir as ligações que nele existem. Aqui, a escrita é tão veloz, acutilante, rítmica, que foi criada uma nova linguagem de comédia – sem ser tendenciosa. Não sabemos definir matematicamente o que é que é, porque estamos a experimentar. Mas temos a certeza daquilo que fazemos e fazemos com uma grande seriedade. Isto é uma loucura tão grande, que é muito difícil pensar em dissecá-la. Só mesmo apreciá-la. Não podemos ser muito analíticos mas acho que se percebe ao ver o quão difícil é explicar.

Quem é a “Natasha” e o que representa o “seu regresso”?

Isso é daquelas perguntas que já fizemos ao encenador e nem ele próprio sabe. Será o regresso da velha? De uma entidade? Ou simplesmente de uma loucura? É notório que o espectáculo é cíclico, que vai acontecer tudo outra vez. Poderá ser o regresso dos acontecimentos ou poderá ser mesmo o período do espectáculo. O espectáculo, a loucura, poderá intitular-se como “uma Natasha”. É muito estranho falar sobre o significado deste espectáculo. Adoramos fazer e é daqueles que guardamos no coração.

Um espectáculo cheio de movimento e humor que nos envolve com o desenrolar da acção surrealista e incongruente. Com um tom sarcástico e algo crítico sobre as relações humanas, “O regresso de Natasha”, apresentou-se como o encontro com as incertezas assumidas acerca do irracional e desconcertante, desfrutadas pelo público.

Fotografia de Pedro Frois Meneses



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