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“O Regresso de um Estranho” de Winston Graham

O ponto de partida para uma saga alucinante

Para Ross Poldark, o regressar a casa significava deixar para trás os tormentos vividos aquando da guerra colonial na América, e voltar para o seu pequeno mundo na Cornualha.

Porém nada o tinha preparado para a crua realidade que o esperava.

O Regresso de um Estranho (ASA, 2018), de Winston Graham, é o início de uma saga familiar emocionante, com personagens fracturados, numa sociedade com diferenças sociais demarcadas, que se vê afectada pelo pós guerra, imersa numa realidade dolorosa e desesperante.

O pequeno escriturário ouvira falar dos Poldark, ouvira falar de Joshua, com quem, segundo se dizia, nos anos cinquenta e sessenta nenhuma mulher bonita, fosse casada ou solteira, estava segura. Este devia ser o filho dele. Um rosto invulgar, com esses malares tão marcados, a boca larga e os dentes fortes, tão grandes e brancos. Os olhos eram verde-azulados, muito claros, sob as pálbebras pesadas que davam a tantos Poldark aquele ar enganadoramente adormecido.

Winston Graham, elaborou uma saga familiar, repleta de personagens imperfeitos, num períodos complicado da História.

São personagens, de diferentes backgrounds, porém todas elas repletas de defeitos. Defeitos, esses, que dão relevo a este, e aos restantes 11 livros desta saga. Este é o ponto principal, o mais importante das suas histórias, dado que o autor não se limita a criar uma imagem idílica, sem imperfeições, muito pelo contrário. As críticas sociais são várias, e podem ser encontradas ao longo de todas as páginas. As hipocrisias da sociedade são, atentamente, denunciadas; as desventuras das classes inferiores, devidamente, retratadas, e as relações interpessoais são do mais realista possível.

Apresenta uma Cornualha que sofre de uma imensa pobreza em oposição aos extremos devaneios da alta sociedade; muitos deles são trabalhadores das minas locais ou pescadores, sofrem de escorbuto e outras condições médicas adversas, devido a uma alimentação irregular, dado que mal têm para alimentar as suas famílias.

O personagem principal, logo ao início retratado pelas suas falhas, bem como pelos seus feitos, retorna após dois anos passados na guerra, para uma realidade, ainda, mais negra do que aquela que havia deixado para trás.

A paz que esperava encontrar, dá lugar a angústia, desespero e revolta. As relações familiares, já de si frágeis, tornam-se insustentáveis e dolorosas. O amor do qual acreditava ser detentor, já não é seu, pois a dama em questão transferiu os seus afectos para o seu primo. A sua casa, em Nampara, está a cair aos pedaços, pelo abandono que sofreu durante todos aqueles anos.

O vento fez as cortinas ondear, e escorreu cera das velas pelos candelabros de prata. (…)Ross desaguou num círculo bastante desprevenido para o receber. Quando a sua figura se recortou na ombreira da porta, os comensais começaram a emitir, um após outro, interjeições de surpresa. Elizabeth, Francis, Verity e o Dr.Choake puseram-se de pé; Charles recostara-se, resmungando, paralisado de choque.

O retorno de Ross vai abalar as estruturas de tudo e de todos. A sua forte personalidade, e atitude, como acérrimo defensor da classe mais baixa, vai enfurecer os mais ricos, e colocá-lo em vários problemas com a justiça.

A sua mera presença irá desencadear uma onda de temores, ciúmes, inveja e incerteza.

A mulher que ama, e com quem esperava passar o resto da sua vida, está noiva do seu primo Francis, o que de si, engloba dois problemas.
Francis, um ser em, basicamente, tudo oposto a Ross, com a sua jovialidade, elegância e descontracção, vê no regresso do primo uma ameaça às suas intenções de desposar Elizabeth Chynoweth.

Elizabeth, era elegante, franzina, e bela. Antes da partida de Ross para a guerra, tinha aceite esperar por ele, sem uma ligação oficialmente formada. Após dois anos de ausência, e crendo Ross morto, aceita as atenções de Francis, e subsequentemente, ser sua esposa. Aliás, aos olhos de todos, e em especial da Sra.Chynoweth, ser a senhora de Trenwith seria muito diferente, e muito melhor, do que ser a senhora de Nampara.
Charles Poldark sente apreço pelo seu sobrinho, mas teme que a sua vinda venha impedir o casamento de Francis, e fará de tudo para afastá-lo novamente. Verity e Agatha, por seu lado, são as únicas Poldark verdadeiramente felizes por revê-lo.

A Wheal Leisure fora explorada no tempo de Joshua para mineração de estanho, mas nunca para cobre. (…) o desejo de reabrir pelo menos uma das explorações localizadas nas suas terras acabara por concentrar-se nesta outra mina, depois de sopesar a hipótese da Wheal Grace. (…) Ross sabia que aquele empreendimento era de tão reduzida dimensão que dificilmente mereceria a atenção de alguma grande firma bancária, mas do que não tinha dúvidas era de que o tinham analisado. George ia ficar irritado…

Outro que não verá com bons olhos, a presença de Ross na região, será George Warleggan.

George Warleggan e o seu tio Cary, são banqueiros, e apesar de ter nascido num meio rico, as origens humildes do seu antepassado atormentam-no, e envergonham-no.

Com uma visão pedante acerca do mundo, e da riqueza de um, crendo que o dinheiro é e consegue tudo, vê em Ross o seu maior rival, dado que este representa tudo o que ele deseja mas não possui, status e o amor de Elizabeth.

Esta rivalidade, que vem desde os tempos de escola, vai dar lugar a um ódio desmesurado por parte de Warleggan, que fará de tudo para arruinar Poldark, a sua família e amigos.

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A camisa que ela envergava estava manchada de lágrimas antigas, e novas também; os calções eram de bombazina castanha; estava descalça e perdera a boina. Tinha a cara arranhada e pálida, e os olhos, de um castanho muito escuro, eram grandes de mais para ela.

Eis que em Truro, após observar uma luta, Poldark nota um rapaz a defender o seu cão da luta em que este estava envolvido.
Após defendê-lo do ataque popular, descobre que o rapaz é na verdade uma jovem rapariga nos seus onze, doze anos.
Pensando em como resgatá-la daquela triste situação, leva-a para sua casa, para ser ajudante de Prudie na cozinha, algo que não cai bem aos caseiros Prudie e Jud, e vai criar repercussões na vida de todos.

Os anos passam, Demelza começa a florescer como mulher, a sua curiosidade e inteligência desenvolvem-se à medida que o tempo passa, e a menina suja e deselegante, que Ross resgatou, torna-se numa mulher atraente, perspicaz, sem papas na língua.

É ela, a companheira de serão de Ross, com quem conversa sobre os seus assuntos, e em quem confia. A simpatia que sente por ela, o misto de doçura e gata selvagem, e em grande parte as coscuvelhices dos outros acerca do seu, presumível, relacionamento, levam-no, pela primeira vez, a olhar para ela com olhos de homem, e não de patrão.

O que ele desconhecia, era que um só momento, iria definir o resto das suas vidas.

Ela já antes se entrosara na sua vida, pensava ele.
O que ele tantas vezes se via a desejar, hoje em dia, era conseguir destrinçar as duas Demelzas que se tinham tornado parte dele. (…) Desejaria poder separar aquelas duas. Pressentia que seria mais feliz se pudesse separá-las completamente. Mas com o passar das semanas o que parecia estar a acontecer era o inverso do que ele desejara. As duas entidades tornavam-se cada vez mais indistintas.
Foi só na primeira semana de agosto que ocorreu a fusão das duas.

Winston Graham, apresenta n’O Regresso de um Estranho, um herói, repleto de falhas, dúvidas, defensor dos injustiçados, com um feitio explosivo que vai colocá-lo, sempre, em apuros. Este livro dá o mote para uma série de 12 livros no total, que vão desenvolver as venturas e desventuras dos Poldark, Warleggan, e Carne, que vai deliciar o leitor, e prendê-lo a uma história apaixonante.

Sinto-me feliz (…) Está a acontecer-me, a acontecer-nos, qualquer coisa que transfigura o nosso pequeno caso amoroso. Mantém essa disposição, agarra-te a ela. Nada de recuos. (…)
E foi assim que ele descobriu que aquilo que quase desprezara não era desprezível, que o que pensara ser a satisfação de um apetite, uma aventura no meio do desânimo, agradável mas vulgar, tinha afinal uma profundidade imprecisa e volúvel que ele não conhecera antes e que ensinou ao seu coração o que era a beleza.



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