“O Relatório de Brodie” | Jorge Luis Borges

“O Relatório de Brodie” | Jorge Luis Borges

Quando as palavras ganham o dom da multiplicação e da significação

Em “Comboio-Fantasma para o Oriente”, ao traçar o perfil de Orhan Pamuk, Paul Theroux embate em Jorge Luis Borges, descrevendo de forma certeira a prosa deste escritor – talvez a expressão “inventor de mundos” lhe assente melhor – argentino: «…uma interioridade, um dom para a magia na sua prosa, uma erudição ampla e até hermética conjugada com um sentido de comédia. Muitas vezes troçava de si mesmo, fingindo zombar da sua própria escrita, observando sem sinceridade que os seus contos eram curtos.»

Após a edição de “O Aleph”, lançado há poucos meses, a mestria de Borges em tecer contos como quem borda um lenço de namorados sem falhar uma casa é agora revelada em “O Relatório de Brodie” (Quetzal, 2013).

No prólogo, Borges diz ter tomado como ponto de partida uma série de contos breves de Kipling, escritos em 1885, muito tempo antes da sua escrita se tornar labiríntica e angustiada: «Pensei algumas vezes que aquilo que tinha sido pensado e executado por um rapaz genial poderia ser imitado, sem imodéstia, por um homem nas fronteiras da velhice e que conhece o seu ofício. O fruto dessa reflexão é este volume, que os meus leitores vão julgar.»

O julgamento, esse, será sempre a favor de Borges, esteja ele sentado no banco da defesa ou da acusação. “O Relatório de Brodie” oferece onze contos que se lêem como pequenos romances, como se em Borges as palavras ganhassem o dom da multiplicação e, também, da significação.

Há um duelo delicado entre duas pintoras – “O Duelo” -, histórias de traições – “O Indigno” -, uma mulher de permeio entre dois irmãos – “A Intrusa” – e um relatório sobre os yahoos, ou homens-macaco – “O Relatório de Brodie” -, com um tal poder de sedução que nos sentimos como serpentes guiadas pelo som da flauta de um encantador de répteis rastejantes.

Se quiserem experimentar, em doses pequenas, o poder de distracção e a profunda comoção de “As Mil e Uma Noites”, “O Relatório de Brodie” é o livro indicado. Tal como o serão todos os livros de contos do mestre Jorge Luis Borges.



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