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O Segredo dos seus Olhos

O passado não larga o presente.

Chega a altura da vida de um homem, normalmente depois da reforma, de uma vida inteira gasta a trabalhar, em que a maior preocupação é a de como preencher os dias. Uns dedicam-se à jardinagem, outros a jogar dominó nas praças da cidade, outros a desconversar sobre futebol no café, ou a dar milho aos pombos, outros há ainda que se devotam à escrita. O resultado são muitas obras inacabadas, por impaciência, por preguiça, por qualquer outra razão.

Benjamin Espósito (um óptimo Ricardo Darín), protagonista de “O Segredo dos seus Olhos”, antigo investigador criminal no Tribunal de Buenos Aires, é um desses reformados que escreve um romance para passar o tempo, para fazer luto ao seu passado, às suas memórias, aos seus fantasmas. O filme, em boa parte um flashback de 25 anos, segue-o nessa viagem, ao momento em que descobre o crime – a violação e assassínio de uma mulher – que o marcará para o resto da vida.

“O Segredo dos seus Olhos” lembra o recente “Não Digas a Ninguém” de Guillaume Canet; a revisitação um crime enterrado pelo passar dos anos, esquecido por quase todos, que ainda assombra a vida do protagonista. Descontado as diferenças, deixa o mesmo travo nostálgico: o que passou tem mais peso, mais importância que o presente ou o futuro. Por outro lado, a minúcia da investigação, o detalhe das relações entre as personagens, o retrato do peso das instituições sobre os homens lembra o subestimado “Zodiac” de David Fincher.

Esta é a quarta longa-metragem de Juan José Campanella, realizador argentino (que adquiriu recentemente a nacionalidade espanhola) com largo currículo na televisão americana (House, 30 Rock). A escola americana faz-se sentir no argumento bem estruturado, na montagem económica, na composição das imagens, elementos que terão ajudado à conquista do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro este ano.  “O Segredo dos seus Olhos” deve também muito à novela policial mais madura, não é um whodunit – cedo se conhece o autor do crime -, tem fôlego de ficção mais considerada. (O filme é baseado num romance, e isso nota-se bastante)

Os primeiros dois terços de “Segredo dos seus Olhos” são muito, muito bons, e se o filme fosse assim até final, poder-se-ia colocá-lo ao lado de “Mother” de Bong Joon-ho como uma das grandes estreias em sala este ano. Infelizmente o último terço arrasta-se tempo de mais, preparando-nos para (denunciando) o inevitável twist final. O facto de se passar no tempo presente da história retira força a este segmento e ao que veio para trás.

O filme conta também uma bonita e subtil história de amor, sem exageros, sem grandes alterações, com cuidado, com paciência, com os olhos da idade madura. O olhar conta muito neste filme, é pelo olhar que se descobrem os sentimentos, do assassino, dos amigos, dos amantes. Essa é uma grandes qualidades do filme, a imagem é mais importante do que as palavras (não tem aqueles diálogos explicadores que muitas vezes sobrecarregam os filmes e a nossa paciência).

No fim de contas, é um bom filme, a ver à confiança, a excelente primeira hora e meia compensa a fraca meia-hora final.



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