O Segundo Álbum

Pressão extra ou motivação maior? O mito e segundos discos decisivos do momento: Loto, The Killers, Scissor Sisters e The Rapture.

A Pressão do Segundo Álbum

Alguns dizem que é uma pressão quase mortal. Outros parecem não ligar muito a isso. Quando o sucesso de um disco de estreia supera quaisquer expectativas, recai normalmente sobre os músicos o chamado síndrome do “difícil segundo álbum”: a pressão pessoal de repetir resultados convincentes em matéria de qualidade musical e a pressão da máquina da indústria, desejosa de novo sucesso comercial e de vendas. A história já nos trouxe alguns desastres ao nível do segundo disco, Stone Roses à cabeça. Em tempos mais recentes vimos The Strokes e The Thrills defraudarem expectativas, por exemplo. Pouco tempo de amadurecimento equivale a pressa em editar novo material, o que pode levar a fracos resultados críticos e comerciais – equação relativamente básica mas nem sempre seguida. Os The Strokes recuperaram, dos Thrills não ouvimos notícias há algum tempo. A ver vamos.

João Vieira, dos X-Wife (que editaram recentemente o segundo “Side Effects”), disse em entrevista recente à Mondo Bizarre não ter sentido uma pressão especial no aproximar do segundo disco: “Não senti essa tão falada pressão. Sentimos, à medida que íamos gravando, que este novo álbum era superior ao primeiro (“Feeding the Machine”)”. Carl Dalemo, dos Razorlight, assumia o mesmo em entrevista passada à RdB. Mas nem todos são assim; que o diga Paul Banks, vocalista dos Interpol, músico que, à medida que ia gravando o segundo “Antics”, sentiu-se diversas vezes “enjoado, ansioso e deprimido”. A pressão de repetir a proeza de uma estreia muito bem sucedida, pois claro. Os Jet assumiram o mesmo por estes dias, antes do lançamento do segundo de originais: “Nunca estivemos nesta situação antes. Toda a gente olha para ti à espera que recries o sucesso e o interesse pela tua banda, enquanto que o primeiro disco é sempre gravado pelo entusiasmo e sem pensar em nada mais que isso”, afirmou o baterista Chris Cester à The Rock Radio, dias antes do lançamento do novo “Shine On”.

Nem todos aguentam a pressão, está visto. Alguns desaparecem para nunca mais voltar, outros entram em asilo criativo ou espiritual e por aí fora. Uma mão cheia deles solidifica, contudo, a ideia de uma carreira a formar-se e uma identidade sonora a cristalizar lentamente.

Por ora, ficam algumas menções a discos decisivos da actualidade, no campo nacional e internacional. Segundos discos, decisivos, pese embora um eventual desaire não deite tudo a perder, como já se viu em exemplos passados.

Alguns “Difíceis Segundos Discos” do Momento:

Loto – “Beat Riot” (Som Livre)
Perderam-se os temas mais imediatos, ganhou-se um disco mais coeso e apuraram-se métodos de trabalho na escrita de canções. Resumidamente, são estas as ideias base que ficam das primeiras escutas ao segundo de originais dos Loto. Sem paragens, como de um só tema se tratasse, “Beat Riot” convoca o mestre Peter Hook e Del Marquis (Scissor Sisters) e vê os Loto assinar um registo que, longe de grandes reviravoltas sonoras, cimenta a posição da banda enquanto escritora de canções. «Cuckoo Plan» é um óptimo single e «New Generation Now!» será, se objecções maiores não se levantarem, o seu sucessor natural. Contudo, no resto do disco (a secção menos orelhuda) fica a dúvida se tamanho cuidado numa maior envolvência musical não terá retirado à banda o apelo imediato que um bom tema pop necessita para subsistir. O tempo e mais audições ditarão o juízo final.

The Killers – “Sam’s Town” (Island/Universal)
«When You Were Young», novo single dos norte-americanos The Killers, serve como porta de entrada para “Sam’s Town”, o novo disco da banda de Brandon Flowers. Quando eles eram jovens, isto é, em “Hot Fuss” (primeiro disco de originais), eram enormes. Em “Sam’s Town”, agigantam-se. E assumem papel central no rock contemporâneo norte-americano.

Brandon Flowers, o vocalista dos The Killers, é um tipo cheio de confiança. Em declarações recentes afirmou, por exemplo, que a novidade “Sam’s Town” é, citando o músico, “intocável” e, ainda, “o melhor disco dos últimos vinte anos”. Certamente não o será, mas tudo aponta 2006 como um ano decisivo para os autores de “Somebody Told Me”. Lá está, o tão complicado e fundamental segundo registo de originais. «Bones», futuro single, parece destinado ao realizador do respectivo teledisco: Tim Burton. Canção enorme, coros e sintetizadores a abrir espaço para o tema mais pop do registo. Nos momentos mais calmos, duas lições de fazer música – «Read My Mind» e «Why Do I Keep Counting?». Há ainda interlúdios a lembrar os Beatles, algum rock mais poderoso que poderia entrar num qualquer filme da saga James Bond e uma capacidade enorme de escrever grandes canções. Há, feitas as contas finais, um dos discos maiores de cariz alternativo de 2006. E, juntamente com TV On The Radio e Sonic Youth, um dos mais recentes tributos à boa escola das guitarras, ainda que aqui complementadas por diversos elementos electrónicos.

Scissor Sisters – “Ta-Dah” (Universal)
Amados por muitos, odiados ainda por maior número, os Scissor Sisters são tudo menos consensuais. Normalmente, ou se gosta muito ou se odeia violentamente. Há dois anos atrás foram a banda que mais discos vendeu no sempre complicado mercado discográfico britânico, daí as enormes expectativas que rodearam o lançamento do novo álbum dos nova-iorquinos.

“Ta-Dah”: eles aí estão e aí está novo apanhado de canções viciantes, dançáveis e empolgantes. Recrutaram o guru Elton John para tocar piano em «I Don’t Feel Like Dancing», o que mostra que, mediante diversas circunstâncias como o talento e a inevitável sorte, por vezes é mesmo possível vir a fazer parelha com os nossos ídolos de infância. «Land Of A Thousand Words» é a «Tiny Dancer» dos tempos modernos; «She’s My Man» e «I Can’t Decide» são dois dos maiores rebuçados assumidamente pop do ano; «Everybody Wants The Same Thing» é, em remate final, o perfeito culminar de mais uma viagem bem sucedida nos cenários de um qualquer cabaret degradado que os Scissor Sisters nos fazem querer acreditar ser o local mais belo e lascivo de todo o sempre. Ao segundo disco, continuam a ser o que sempre foram: apostaram na evolução pela continuidade, dificilmente conquistam novos fãs, certo, mas amadurecem de forma imensamente válida e solidificam a certeza de banda capaz de escrever grandes canções.

The Rapture – “Pieces Of The People We Love” (Vertigo/Universal)
Uma pequena batotice: “Pieces Of The People We Love” não é oficialmente o segundo disco dos Rapture mas, tendo em conta o relativo desconhecimento da discreta estreia, tomemos a novidade da banda como a decisiva prova de fogo depois do sucesso de “Echoes”.

Os The Rapture evoluiram também na continuidade, como os acima mencionados Scissor Sisters. Contudo, sente-se, ao ouvir a novidade “Pieces Of The People We Love”, que algo se perdeu por estes lados. Pouco mudou desde a força musical que foi «House Of Jealous Lovers» e «Sister Saviour»: energia, electrónica, palmas, a voz, guitarras, tudo o mais. Continuam praticantes de boas canções para quatro-cinco intensos minutos de dança. Corpos em movimento, ancas, contacto, harmonia, pista de dança. Cenário perfeito para mais um disco dos The Rapture. Mais um bom disco dos The Rapture, certamente. Um registo, ainda assim, furos abaixo do que se esperava, ainda para mais tendo em conta o longo intervalo entre “Echoes” e a novidade. Há uns anos foram hype de momento, agora procuram solidificar uma carreira. Sem grande aparato, e apesar de alguns momentos menos inspirados, parece que vão mesmo conseguir levar a sua água ao moinho.

Alguns Segundos Discos Muito Aguardados:
Arcade Fire / Clap Your Hands Say Yeah / Annie /Spank Rock/ Editors / The Vicious Five / The Weatherman / The Raconteurs / Serena-Maneesh / Arctic Monkeys / Gomo / Film School / Cansei de Ser Sexy / Gnarls Barkley / Panic! at The Disco / Lily Allen / Sean Lennon / Who Made Who / Cagedbaby / M.I.A. / The Pipettes / If Lucy Fell.



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