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“O Silêncio do Mar” de Yrsa Sigurðardóttir

Perfume (d)a morte

Alguns dos melhores enredos narrativos não precisam de muita complexidade bastando simples linhas de sóbria contextualização. É essa a filosofia que fez nascer “O Silêncio do Mar” (Quetzal, 2016), o mais recente livro da islandesa Yrsa Sigurðardóttir.

Tudo começa, ou termina, quando um iate de luxo de nome “Lady K” embate contra o cais do porto de Reiquiavique. Da tripulação inicialmente composta por sete passageiros, e que partiu de Lisboa decidida a enfrentar o frio mar invernoso a caminho da Islândia, não resta vivalma.

Sem esperança de resolver este mistério, e de encontrar o paradeiro dos que vinham a bordo, os pais de um dos passageiros desaparecidos contratam a advogada Thóra Gudmundsdóttir na esperança de ainda conseguirem acionar o seguro de vida do filho e assim conseguir assegurar o sustento da neta, único membro de uma família de cinco que não embarcou nesta viagem devido à sua tenra idade.

O desespero invadiu o casal idoso e o desconhecimento que o desaparecimento de Aegir, seu filho, assim como da nora e das netas gémeas Arna e Bylgja, provocou uma série de dúvidas sobre o paradeiro dos familiares.    

Estão assim lançados os dados para um dos livros mais negros da rentrée cuja narrativa se divide entre capítulos que narram a própria viagem e o presente, e vai manter o leitor completamente agarrado a um obra construída à base de um misto de medo, mistério e uma interessante leitura do estado da economia vivida na Islândia.

E foi essa instabilidade financeira que fez com que o “Lady K” tenha mudado de donos e Aegir entre em cena depois de um dos membros da tripulação ter partido uma perna não podendo assim assegurar os serviços a bordo. A viagem que deveria ser agradável e uma extensão das férias da família de Aegir – cinco dias a bordo de um iate de luxo é um privilégio de poucos – transforma-se num pesadelo para quem teve por destino fazer este malfadado percurso.

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Gudmundsdóttir utiliza a sua habitual mestria narrativa para transformar a leitura de “O Silêncio do Mar” numa espécie de exercício pendular entre passado e presente com Aegir e Gudmundsdóttir a assumirem o papel de narrador em cada uma dessas dimensões.

Se, por um lado, vamos sabendo mais pormenores sobre a própria viagem, por outro surgem dados nascidos da investigação da advogada que contextualizam o todo. Outro dos trunfos deste livro é a atmosfera arrepiante que brota a cada página e que é muito bem sublinhada pela sinistra tripulação do iate assim como, e principalmente, pela presença das gémeas.

Dizem que o iate está perseguido por uma espécie de maldição desde a sua construção, ainda que alguns recusem tal destino, e o cenário de tragédia à sua volta não deixa ninguém indiferente, assim como o clima claustrofóbico que vai crescendo ao longo dos episódios ocorridos a bordo que jogam na perfeição com a gradual descoberta dos personagens. E nesse particular Aegir ocupa plano de destaque devido a uma personalidade dúbia mergulhada em incerteza, medo, culpa, tristeza e, finalmente, desespero.

A escrita honesta e por vezes visceral de Yrsa Sigurðardóttir torna ainda tudo mais assustador, adensando a gravidade das tempestades vividas em alto mar, os percalços com o equipamento do iate e o isolamento que cresce na alma de todos. Ninguém está a salvo a bordo do “Lady K” e a diferença entre heróis e vilões é cada vez mais ténue a cada capítulo e a morte assume-se como uma esperada certeza, enredo que lembra, assustadoramente, “As Dez Figuras Negras”, um clássico intemporal da mestre dos policiais Agatha Christie, e este é, sem dúvida, o maior elogio que se pode fazer a este livro que vai deixar abismados os fãs de um bom thriller.



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