O sonho de uma coisa

Retrospectiva de Pier Paolo Pasolini na Cinemateca.

“Passarinhos e Passarões”. É esta a obra elegida pelos responsáveis pela programação da Cinemateca para o início de uma retrospectiva integral sobre um dos mais prolíferos “artistas” italianos. O arranque faz-se já a 23 de Março pelas 21:30 na Sala Dr. Félix Ribeiro.

O filme data de 1966 e trata-se de um conto filosófico onde Totó, o grande cómico popular napolitano, tem uma das suas maiores criações. Enquanto se deslocam pela estrada fora e através do tempo, com uma incursão aos tempos de S. Francisco de Assis para converter todos os pássaros do mundo ao Cristianismo, Totò e o seu filho (Ninetto Davoli) encontram um corvo falante (e intelectual de esquerda) que os acompanha na digressão e vai comentando as peripécias que se sucedem de uma forma que o torna insuportável, pelo que os nossos heróis serão forçados a tomar uma medida drástica.

Há nesta história um paralelismo entre o tempo em que se passa o filme e o de S. Francisco de Assis. Enquanto que, neste último, cada pássaro convertido é devorado por um falcão, no tempo presente Totó e Davoli têm sobre si a ameaça de serem despejados pelo seu senhorio. Uma comédia deliciosa com um dos maiores cómicos que Itália conheceu até hoje e uma bela desculpa para se ir à Cinemateca.

Pier Paolo Pasolini nasceu a 5 de Março de 1922 em Bolonha, Itália. Apesar das constantes mudanças a que foi obrigado devido à carreira militar do pai, frequentou o liceu e a faculdade na cidade onde nasceu, tendo como mestres Contini e Longhi e como amigos Leonetti e Roversi, até à sua licenciatura, em 1945, sobre a linguagem de Pascoli.

Depois do 8 de Setembro de 1943, refugia-se em Casarsa, na região do Friuli, cidade de origem da mãe para fugir à chamada do exército. Compõe os primeiros poemas em dialecto friulano, que mais tarde seriam publicados juntamente com outros textos friulanos em “La Meglio Gioventù”.

Em 1945 o seu irmão é morto num conflito entre dois grupos de partigiani com ideias políticas diferentes e, dois anos mais tarde, inscreve-se no Partido Comunista Italiano, donde viria a ser expulso ao mesmo tempo que era despedido da escola onde dava aulas por um episódio de homossexualidade que causou um processo por corrupção de menores. Este foi o primeiro de mais de trinta processos que deram a Pasolini a consciência da sua diversidade e marcaram o seu destino de marginalizado e rebelde.

O escândalo obriga-o a deixar Casarsa, em 1949, com a mãe e a mudar-se para a periferia de Roma onde ganhava a vida com explicações e ensino em escolas particulares. O contacto com o mundo do sub-proletariado romano inspira-o a escrever vários poemas mas, acima de tudo, os romances “Vadios” (1955) e “Uma Vida Violenta” (1959) que provocaram grande escândalo, assegurando também o primeiro êxito literário.

Juntamente com os antigos colegas fundou e dirigiu entre 1955 e 1959 a revista “Officina”, que contou com Frotini, Volponi e outros importantes estudiosos e críticos militantes como colaboradores. Começou igualmente a sua actividade no mundo cinematográfico e, a partir de 1961, inicia-se na realização. Mas nem por isso a sua actividade como escritor diminuiu. Para o teatro escreveu seis tragédias, entre 1966 e 1974.

Pasolini morreu no dia 2 de Novembro de 1975 num descampado em Ostia, nos arredores de Roma, em consequência de agressões seguidas de atropelamento. Recentemente foram avançados novos dados sobre o seu assassínio pela imprensa italiana, baseados em depoimentos recentes do homicida, que apontam para a existência de um plano organizado para o matar. Até à data, e segundo a sentença do julgamento, sabia-se apenas que Pasolini foi morto pelo jovem prostituto Giuseppe Pelosi, então com 17 anos, que o agrediu e atropelou após uma discussão originada por uma exigência sexual insatisfeita.

A retrospectiva dos filmes de Pier Paolo Pasolini inicia-se a 23 de Março pelas 21 e 30 na Sala Dr. Félix Ribeiro.



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