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“Do vinho e da vida”

Ir a'O Bando não é ir a uma peça de teatro, é conhecer um conceito. Aliás, é entrar por um conceito adentro

A meio de uma prova de vinhos apagam-se as luzes e começa o espectáculo sem preparação. Há falares estranhos que nos levam até ao palco por entre videiras e grilos. Toda uma aldeia cabe numa estrutura de ferro e ela acorda, respira, começa a criar-se à nossa frente.

Desde logo a estranheza da cenografia, figurinos e maquilhagem dos actores nos remete para uma realidade que ainda não conhecemos, está de acordo com a oralidade, num excelente trabalho de Teresa Lima. É como se estivéssemos a olhar um mundo que tem tudo para ser o nosso, mas que nos é apresentado de forma estranha, disforme, caricatural. Somos nós a olhar à nossa volta mas sem nos prendermos a preconceitos.

Assistimos às desavenças e compadrios no seio de uma pequena aldeia que luta pelo direito ao vinho e à água, pelo direito aos mortos e à vida.

Assistimos à energia da vida que se cria quando cada um depende e se apoia no vizinho, quando a vida se faz pela comunidade e através dela.

Há sempre os de cima e os de baixo e o poder de decisão na aldeia varia conforme essa posição. Curiosamente, essa verticalidade só é quebrada no pequeno momento em que trocam uns com os outros.

Dir-se-ia que o único momento de horizontalidade na organização daquelas vidas apenas existe pela necessidade da verticalidade.

O trabalho dos actores Guilherme Noronha, Horácio Manuel, Raul Atalaia, Sara de Castro e Rita Cruz é absolutamente notável, até no mais pequeno pormenor. Desde a expressão oral e facial, ao modo como compassam o andar, é tudo construído, são pessoas que ali estão; não as reconhecemos, mas temos a certeza de que poderiam existir.

Os momentos de guitarra portuguesa do músico Pedro Moura, acompanhados pela voz de Rita Cruz, são arrebatadores, fazem-nos suspender a respiração pela intensidade, pelo verso, pela métrica. É o fado roubado à sua estética e trazido para dentro do Teatro.

A encenação, de João Brites, é a base desta peça e segue a linha habitual d’O Bando aproveitando material literário, à partida não dramático, confundindo-o com marcas populares na dramaturgia.

Apesar desta peça ter sido apresentada em várias adegas, e agora na quinta onde vive O Bando, o espaço é aproveitado como parte integrante do espectáculo, dá-lhe singularidade, alma. É como se a Purificação existisse de facto ali.

“O Auto da Purificação” nasce de contos de Virgílio Ferreira para o projecto Histórias Decantadas, que são histórias do vinho e da gastronomia de alguns territórios rurais, aqui contadas pel’O Bando.

ONDE E QUANDO?

7, 8, 9, 14, 15 e 16 de Dezembro
Vale dos Barris, Palmela


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