Odisseia – Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington e Tiago Guedes

“Odisseia” | Entrevista

A conversa com Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington e Tiago Guedes

Pouco mais de dois meses passaram desde que “Odisseia” foi apresentada ao horário nobre de fim-de-semana da RTP. E desde o primeiro tomo que fez transparecer uma assumida declaração de intenções: desviando-se sem cessar dos moldes televisivos em vigor, a série que se auto-enunciou como um conjunto de treze episódios (estrategicamente “reduzida” a oito) terminou na semana passada. Pelo caminho, o nome não é escolhido ao acaso para explicar o que passou; uma delirante viagem sem precedentes, que se move por caminhos que vão cruzando incontáveis referências e por terrenos sem grande classificação evidente, obrigando a um novo baralhar e dar de cartas do seu meio.

A este propósito, conversámos com os criadores da “Odisseia”: Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington e Tiago Guedes.

Como é que a ideia original evoluiu para a série “Odisseia”?

Gonçalo Waddington: A ideia foi continuar um trabalho que começou quando o Bruno [Nogueira] me convidou para participar no “Último a Sair”. Já tínhamos alguma empatia e surgiu a ideia de fazer um trabalho on the road. O Bruno falou-me da experiência que tinha em autocaravanismo e desenvolvemos tudo a partir daí. Inicialmente era suposto ser uma produção caseira para a internet, mas achámos que merecia outro peso e convidámos o Tiago [Guedes]. O Bruno tinha um “acordo de cavalheiros” com a RTP para propor algum projecto que considerasse merecer ser apresentado no canal e o Tiago tinha acabado de fazer a “Noite Sangrenta” lá. Concluiu-se que este trio tinha potencial para o projecto.

Bruno Nogueira: Nós tínhamos a certeza de que não queríamos uma comédia pura, queríamos um híbrido entre qualquer coisa parecida com drama e qualquer coisa parecida com comédia. Também sabíamos que queríamos pôr os conceitos normais de série e de ficção do avesso e isso acarreta riscos enormes: se for um espalho, é um espalho com personalidade. Mais valia espalharmo-nos ao comprido com identidade própria do que fazer copy-paste.

Como enquadram a série no contexto de serviço público?

Bruno: Eu acho que o serviço público não deve obedecer a audiências, e deve haver espaço para o erro; noutro canal qualquer, se algo não funciona, ao fim de dois dias é cancelado. Depois, este projecto é de autor e não subestima a inteligência do espectador e não o injecta com um conceito definido e um resultado já pronto. Há muitos projectos, sem tirar o respectivo mérito, que oferecem coisas que já sabem que funcionam e jogam pelo seguro e pelo pressuposto de que quem está a ver televisão não quer pensar. Nessa base, optam por um produto reconhecível com nuances que o fazem parecer novidade.

Tiago Guedes: É serviço público também na medida em que aposta em criadores portugueses e arrisca num formato novo.

Ainda paira no ar a dúvida acerca da veracidade da redução de treze para oito episódios. O que se passou?

Tiago: Não, isso é argumento. A ideia original foi sempre isso. Ainda durante a escrita inicial tivemos a noção de que treze episódios seria demasiado. Ao estabelecer a duração de cada episódio (40 minutos) entendemos que oito seria o ideal. Mas a brincadeira do cancelamento sempre esteve lá.

Gonçalo: O cancelamento da série, ainda por cima “em directo”, pareceu-nos uma grande ideia. Mas é importante dizer que não há “fantasmas”: não houve nenhum real cancelamento. Chegaram a duvidar por cantarmos o «Grândola Vila Morena» agora, quando era Verão na altura; que isto acontecia na mesma altura das audiências do Relvas mas estávamos todos de calções. Não há noção de que o som é montado depois.

Bruno: Para mim isto é equivalente a quando me perguntaram como tinha sido levar um pontapé do Marco Borges [em “Último a Sair”]; sentes que, ao explicar, estás a menosprezar a inteligência das pessoas. Ainda agora estivémos a ver o making of do último episódio e aí explica-se tudo porque a última cena é filmada com os directores da RTP.

Relativamente ao papel do actor Nuno Lopes, parece existir um padrão entre o “Último a Sair” e o “Odisseia”, que tem que ver com a personagem enquanto indíviduo que é intruso e vem salvar a situação. Existe alguma lógica de continuidade?

Bruno: Não. Passou-se o mesmo que com o Gonçalo quando o convidei para o “Último a Sair”: convidei-o para participar em mais episódios mas, como não pôde por motivos de agenda, pensou-se numa personagem que fosse ao extremo para justificar a saída. No caso do “Odisseia”, é diferente. Tínhamos pensado o projecto para nós os dois e precisávamos de um elemento que (des)empatasse algumas situações e fizesse com que a história não se focasse só nas duas pessoas que fogem de casa para se encontraram a si próprias. Depois, o Nuno não é propriamente o tipo de actor que se chame para desenrascar. Além de ser um grande actor e amigo, fazia toda a lógica ele entrar.

Gonçalo: Quando existem duas pessoas a decidir um destino, estão apoiadas uma na outra. Se tens três, a história não pode ser contada da mesma maneira. Há uma atitude da personagem do Nuno [Lopes] de querer entrar nesta intimidade que não tem espaço para ele, então passa por uma espécie de pendura. De repente, inventa coisas para poder estar connosco. Pretende participar na amizade, na história “principal”, mas estraga-a e mete-se no meio; mas também, na outra história das filmagens, é um actor muito chato, por exemplo a fazer de gorila.

Tiago: E parte também da brincadeira com a verdade – a partir do momento em que eles [Bruno e Gonçalo] estão a fazer deles próprios, o Nuno faz uma versão exageradíssima do que ele é como pessoa e como encara o trabalho de actor. Além disso, a personagem do Nuno foi uma ideia-base no processo de escrita – a forma como iria entrar e sair.

Fica a sensação de que os actores interpretam uma caricatura de si mesmos: à parte de vocês, também o Nuno Lopes ou a Rita Blanco. Os actores convidados entraram no processo de criar essa caricatura?

Bruno: Com o Nuno houve conversas prévias para saber o que era confortável para ele fazer. A partir daí, desenvolvemos nós a personagem, com ideias dele e acrescentando as nossas. Com a Rita [Blanco], a personagem foi criada de raíz a pensar nela e foi um risco, porque não tínhamos a confirmação de que poderia entrar. Mas foi tudo a pensar nela como a “Rita furação”, imprevisível.

Tiago: Para todos eles, que estão a fazer deles próprios, acho que é um trabalho de enorme coragem porque quem vê tem dificuldade em perceber exactamente onde começar a linha que separa a ficção da realidade – essa brincadeira com a verdade esteve na base de tudo e, nesse processo de desconstrução, foi muito importante partir de pontos de verdade.

Gonçalo: Há vários exemplos bons disso: a série do Louis C.K. [“Louie”], em que ele faz dele próprio, ou a “Life’s too short”, do Ricky Gervais, em que tens aquela cena mítica onde ele e o Stephen Merchant fazem o casting ao Liam Neeson, que quer ser comediante. É assustador, as piadas são assustadoras, e ele está a fazer dele próprio.

Bruno: É preciso também estares muito confortável contigo próprio para fazeres isto, porque estás a expôr uma identidade que é aquilo que as pessoas vão pensar de ti. Para mim e para o Gonçalo é completamente irrelevante – não íamos deixar de o fazer porque as pessoas poderiam pensar que éramos, de facto, assim -, brincamos com isso com facilidade.

Gonçalo: Mas isto não é só “vamos fazer de nós próprios porque é giro e é uma coisa promocional” – no sentido da tua identidade. Isso nunca resultaria porque, quando há corte para a equipa, de repente aqueles gajos ainda são o Bruno, o Gonçalo, o Tiago. Tens as mesmas layers de pessoas, do “quem é quem”.

Em tom de brincadeira, a cena em que o Nuno Lopes beija as nádegas da Joana Duarte é uma compensação pela humilhação que ele passou até lá?

Bruno: (risos) Eu acho que ninguém se humilha mais na série do que nós. E isso era um ponto de partida para as outras pessoas estarem mais à vontade. A partir daí, não há compensações. Quando muito, poderíamos ter-nos compensado a nós próprios. E, para já, o Lopes tinha abertura suficiente para propôr coisas… mas não estou a dizer que foi ele quem propôs isso! (risos)

Gonçalo: Há ainda o momento em que elas [Joana Duarte e Diana Ferreira] nos levam para a festa e estamos naquela “embrulhanço” todo. No fim, o Nuno tem depois aquele discurso magnífico sobre a amizade e elas caem-lhe nos braços. Estava ali a “chuchar no dedo” mas ele é que fica com as duas! Mas sobre elas, foram muito disponíveis. É engraçado, a quantidade de pessoas com quem falámos, desde agências de casting a actrizes e modelos. O pedido foi muito claro: “queremos duas raparigas género FHM”. Quando falámos com as pessoas, o briefing foi igualmente claro: “vão ter de beijar-se uma à outra, a nós os dois e mais pessoas ainda”. Estas duas apareceram à última da hora, já estávamos nós a filmar. A rapariga das sardas veio de casting e depois alguém se lembrou da Joana e ela aceitou e revelou um grande à-vontade, porque pode ser filmada de qualquer lado e fica sempre bem. O realizador achou por bem fazer uns planos muito apertados. (risos)

Tiago: Isso é mentira! Mas o que eu mais gosto dessa cena é a frase do Nuno: “nunca te esqueças de mim”. (risos)

A equipa de escrita tem um papel quase de Deus; mas no episódio 6, com a aparição do António Variações, limita-se a observar os acontecimentos. Na realidade, a história começou mesmo a ganhar pernas e a fugir das vossas mãos?

Gonçalo: Fomos nós que escrevemos, mas a ideia é essa, de que há um super-homem que nos ultrapassa.

Bruno: É uma coisa um pouco esquizofrénica porque, para quem nos está a ver, nós decidimos o rumo da história; ali, acontece o oposto. É como se o próprio Variações tomasse conta da história e aquilo fugisse do nosso controlo e nós estamos enquanto espectadores. É um episódio importante para as duas personagens porque se encontram a si próprias e é como se nós não tivessemos controlo sobre o que o Variações nos estava a dizer.

Tiago: Mas sim, foi mesmo intencional. De tal forma que depois, no sétimo episódio, a série é cancelada.

Gonçalo: E ainda há a parte em que estamos na autocaravana com um guião em branco. O anotador olhou para aquilo e ficou “Então? Não há nada?”

A palavra matrioshka parece servir bem a caracterizar o projecto. Cenas como o almoço entre o Gonçalo e a Carla, que é vista sob várias lentes, reforçam essa ideia das várias camadas. Em que base nasce isto?

Gonçalo: Eu acho que, primeiro, serve a história: daquele casal e da personagem do Gonçalo. Mas também a história “principal” dos três semi-deuses argumentistas que não sabem para onde ir e a história da equipa que está a filmar. É interessante para a história dos três argumentistas perdidos que essa cena aconteça mais ou menos a meio da série e que tu não saibas que caminho dar a uma personagem. Humaniza-te os “deuses”, mas também aquelas duas personagens e os filhos, porque utilizas várias linguagens diferentes, várias plataformas diferentes de humor e drama (mais e menos pesado), dando novas cores ao relacionamento e, sobretudo, aos três criativos e à equipa que sofre com estes gajos que estão completamente perdidos. No fundo é um prenúncio de cancelamento.

Bruno: Ou então há aquilo que acontece muitas vezes e que não vai para o ar, quando não sabemos de facto se uma cena funciona melhor numa versão mais agressiva ou mais calma. Normalmente isso decide-se na escrita, recorrendo às versões “com” e “sem”.

E a autocaravana: de onde surgiu e para onde foi?

Bruno: Isto é estranho, mas houve um casting de autocaravanas. (risos) A produção juntou algumas e a ideia era que fosse muito luxuosa para justificar o estado da personagem do Gonçalo, que enterrou o dinheiro todo para a comprar e poder estar no jardim, ao pé dos filhos. A que escolhemos é uma coisa incrível, é a Rolls Royce das caravanas. Havia dois compromissos: que fosse esteticamente imponente e que tivesse espaço lá dentro para uma equipa. E que fosse bonito de filmar de qualquer ângulo.

Tiago: Depois há o facto de haver alguém que aderiu e nos emprestou a caravana.

Gonçalo: E tinha de ser mesmo especial em termos e imagem para ter personalidade… [Bruno: Ter rodas.] (risos) A caravana acaba por ser uma personagem na história, não só pela brincadeira do nome – “Calipso” -, mas muito pela maneira como é filmada, a forma como nos acolhe e pelas grande presença que tem. Parávamos ao pé de outras autocaravanas e aquilo realmente era como entrar na passadeira vermelha.

Bruno: Foi comprada por uns senhores de 80 anos, do Porto. Compraram-na antes da estreia e estiveram connosco no lançamento da série. Parece que mantiveram o autocolante a dizer “Calipso”. É bonito.

O “Odisseia”, enquanto produto nacional, é exportável? Em que termos?

Tiago: Não sabemos em que termos mas, enquanto qualidade, achamos que é uma coisa nova e costumávamos rotulá-la de OVNI, porque não sabíamos exactamente o que era. Nesse aspecto, achamos que tem potencial.

Bruno: Havia uma definição muito boa que era OTNI: objecto televisivo não identificado.

Tiago: Não sabes quais são as reacções para saber em que moldes se pode exportar. Vai-se tentar: a série vai fazer o circuito de festivais televisivos e, agora com o DVD na mão, fazê-la chegar aos sítios certos e perceber quais são as reacções. Mas acreditamos que sim.

Gonçalo: Quanto mais de autor for, com uma matriz identitária forte de português… Comparando, por exemplo, com o “Tabu”, que é um filme português e acho que é isso que as pessoas querem ver fora: algo com que se identifiquem universalmente, mas com uma ideia integrada muito forte. Eu acho que isto joga no campo formal, é muito inovador e muito engraçado, mas o conteúdo é muito português, de alguma forma, e acho que isso é interessante. Da mesma forma que gosto de ver um filme norte-americano e um filme sobre um gajo na Turquia com problemas amorosos com uma pessoa de outra religião. Ou seja, acho que isto tem tudo para vingar: o invólucro é bom. As pessoas percebem (talvez lendo a sinopse) que certas personagens que aparecem são de alguma forma famosas e utilizam o próprio nome – sente-se, mesmo que não saibas quem elas são.

Tiago: E acho que a linguagem é muito universal; é muito nossa, nesse aspecto, mas acaba por ser entendida por todas as pessoas que gostam deste tipo de ficção. Mesmo quem não conhece vai percebendo as referências, como quando o Tiago Rodrigues (que faz de produtor) conversa com a Rita Blanco e menciona que ela é actriz.

Bruno: “Matriz identitária” é um bom nome para a próxima série.

A série tem uma vertente crítica bastante forte: tiveram muita liberdade criativa e de orçamento

Tiago: A percepção de que tivemos liberdade de orçamento tem passado para a imprensa mas é errada. Tem que ver com o facto de batermos muito na tecla da liberdade e do tempo que tivemos – as pessoas traduzem normalmente o tempo por dinheiro. A verdade é que o dinheiro foi idêntico a todos os investimentos normais que a RTP fará nos seus conteúdos, sem carácter nenhum de excepção – mas passou essa ideia, de facto. De resto é verdade, tivemos uma enorme liberdade criativa e tempo para a escrita. O processo de rodagem foi demente; gravámos oito episódios em seis semanas. Na lógica de Cinema com que concebemos a série, normalmente em seis semanas fazes uma hora e meia e já é curtinho.

Bruno: O tempo de escrita sim, o tempo de produção não. Também com a questão dos oito e treze episódios, podíamos fazer treze com uma qualidade que nunca baixaria o nível mas ia-se perder muito. É um cometa. Uma falha no sistema.

Gonçalo: Com oito episódios, todos eles vivem por si só enquanto grandes episódios. A partir do oitavo teria de acontecer uma mudança qualquer – repensar o conceito ou alguma coisa; para fazer treze, tínhamos tempo de escrita para o fazer (de produção, não), mas com o material que tínhamos teríamos de “encher chouriços”.

Essa liberdade é conduzida para retratar a falta dela

Tiago: No aspecto de retratar a falta de liberdade, sim. E, da mesma forma como eles assumiram o acto de coragem enquanto personagens, a própria RTP assume um papel que requer coragem, ao assumir que cancelaram a série. Mas sim, sempre quisemos falar sobre isso e da forma como certo tipo de conteúdos é tratado. Não vou chamar censura porque não é esse o caso, mas são menosprezados e maltratados.

Gonçalo: Mas há uma ironia em tudo isso, ou seja, a tal questão de que se fala muito: a da metalinguagem. É uma coisa muito antiga, isto é, a própria utilização desse dispositivo é irónica. E a ironia é que em Portugal estamos um bocado a anhar com tudo e a verdade é que acho que era bom falar destes gajos que têm oportunidade de fazer uma grande cena e são piores – dão liberdade a estes gajos e eles acabam por ser cancelados.

Bruno: O gesto de coragem é da RTP, para nós é um gesto de liberdade. Mas eles [a direcção da RTP] é que vão ouvir as críticas – “devia ser mais comercial” ou “ninguém entende isto”. Para nós é um bocadinho irrelevante porque fizemos o que queríamos. Em relação ao dinheiro, acho que se sofre muito de uma coisa em Portugal que é fazer-se pouquinho em projectos por se ter pouco dinheiro, por não termos meios enormes. O que tivemos foi uma coisa que, para nós, é tão importante como o argumento, que é o bom gosto com que se fazem as coisas: como se filma, a direcção de fotografia, a realização, que são coisas passadas para segundo ou terceiro plano muitas vezes em Portugal. Há uma ideia porreira, portanto vamos filmar, não importa se é bonito, desde que o texto seja engraçado. Assim, a equipa do “Odisseia” tinha de ser uma equipa que não tem a ver com preço, mas com as pessoas estarem dispostas.

Tiago: Eu acho que a reunião da equipa foi fundamental para se fazer o que se fez. Acho que a entrega está lá e nós acreditamos que as energias que colocas nos projectos é visível no produto final. Nesse aspecto foi um processo maravilhoso e de uma entrega gigante. Isto para dizer que não houve o dinheiro que parece que houve. E a entrada da equipa técnica: as pessoas foram escolhidas à partida, são mesmo técnicos e já sabiam ao que vinham.

Gonçalo: Muitos desses técnicos têm mais plateau do que nós os três juntos, estão constantemente a trabalhar no plateau. Se calhar já sabem mais de actores do que nós. (risos)

Fotografia e vídeo por Luís Ferreira



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