Ollgoody’s | “Passeio”

Ollgoody’s | “Passeio”

Pela mão dos Ollgoody’s, novíssimo projecto partilhado por Minus (instrumentais) e Logos (letras), começamos 2014 a passear pelo Porto ao som do hip-hop mais jazzy do momento

É certo que já numerosa gente na música portuguesa cantou, com muita propriedade, a cidade do Porto, bastando para isso pensarmos em nomes (com muitos anos disto) como Rui Veloso ou os GNR. Não se duvida, também, que, no caso específico do hip-hop português, o Porto tenha sido já motivo de versos apaixonados saídos, naturalmente, da caneta de rappers nados e criados na Invicta (a lista é extensa e seria pouco mais que aborrecido discriminá-la: Dealema, Mind da Gap, Deau, Capicua, etc.). Todavia, essas homenagens tiveram sempre como pano de fundo uma ideia de afirmação de identidade e orgulho próprio (num mundo global, a necessidade de afirmação de orgulhos locais é um efeito quase pavloviano), e não tanto uma descrição das suas idiossincrasias (com excepção de alguns casos avulsos, como a esquecida – mas sempre excitante – «Taxi!», de Seada, que entretanto cresceu e, muito ironicamente, passou a chamar-se João Pequeno).

Ollgoody's

O certo é que nunca o hip-hop fez uma aproximação tão focada e apaixonadamente documental (a começar pelas imagens, passando pela pronúncia e a acabar no calão) à cidade do Porto como em “Passeio”, o novíssimo álbum, editado pela portuense Biruta Records – e disponível para audição gratuita -, do projecto Ollgoody’s, dupla constituída por Minus (que despontou em 2012 com essas belíssimas “Distracções”), na produção, e Logos (MC do projecto Raíz Urbana), nas letras. Uma aproximação à cidade, portanto, que Agustina Bessa Luís descreveu como encantatória, caleidoscópio de relações e emoções vertiginosas, sintetizando-a numa célebre frase: “Vivo aqui, mas o Porto não é para mim um lugar; é um sentimento”.

Pois bem, Minus e Logos (sem esquecer os versos Keso) oferecem-nos um passeio pelo Porto (apetece dizer: um passeio de eléctrico, o mesmo que vemos no lindíssimo artwork do álbum) que tem na história de amor entre dois garotos (ou na história de amor entre os músicos e a própria cidade, se quisermos), desde a meninice até à idade adulta, o ternurento pretexto para um retrato de uma cidade e das suas gentes (o Sr. Luís, a Dona Rosete que faz “aquele arroz malandro”, etc.), num percurso que se faz, sobretudo, pela zona antiga da cidade (hoje tão in), com apontamentos históricos de uma nostalgia tremenda – são os “putos que andam à guna nos eléctricos” ou o “mercado do Bolhão onde já ninguém faz compras”, como se ouve em «O Porto É Isto Oblá 2», o primeiro single posto a rodar na net. Se dizemos “retrato” – umas vezes feito por um narrador omnisciente, outras na primeira pessoa («Trouxeste chuço») –, não é por acaso: há uma fortíssima componente visual em “Passeio”, e nem de outra forma poderia ser quando o que se pretendia era captar a psicologia de uma cidade tão visualmente marcante e dotada de uma paisagem singular como é o Porto (é só voltar a ouvir «Porto Sentido», de Rui Veloso, está lá tudo).

É esta carga visual que faz de “Passeio”, mais do que um objecto musical, um testemunho fotográfico, cinematográfico mesmo (já que as imagens se “movem” nas letras de Logos), das ruas pelas quais Zé Maria e Bia, os apaixonados deste álbum apaixonado, passeiam o seu amor, as duas desavenças, as suas expectativas sobre a vida. A travessia amorosa e pessoal de Zé Maria e Bia e das pessoas que, secundariamente, os vão ladeando conhece, ainda, uma dimensão cénica, no sentido em que, a cada faixa (curtas, tão curtas que ficamos com água na boca), as personagens vão entrando e saindo de “palco” à medida que Logos nos vai contando a(s) sua(s) estória(s). Talvez por isso, ou sem dúvida por isso, o álbum esteja organizado em Actos (conferir artwork), como se de uma verdadeira peça de Teatro (juntámos Teatro e Cinema? “Quelle horreur!”, diria Robert Bresson…) se tratasse, e as personagens agrupadas num Elenco, a cada uma delas pertencendo uma voz própria que, volta e meia, se ouve sob a forma de exclamações ou desabafos em off. Apetece mesmo dizer que as personagens, cada uma delas com as suas idiossincrasias, são elas próprias as “peças” do puzzle maior que é “Passeio”, tal e qual, se quisermos, as peças do eléctrico que vemos desmontadas no artwork do álbum. Música, Fotografia, Cinema, Teatro: “Passeio” é, neste sentido, uma obra “total” e muitíssima ambiciosa, pelo modo como cria pontes entre essas diferentes manifestações artísticas.

Ollgoody's

Falávamos na identidade visual do Porto e isso é algo a que se toma o pulso logo na primeira faixa, momento de spoken word de Keso com referências ao Porto ribeirinho dos postais (os saltos dos miúdos na Ribeira com a «Arrábida a meio sol»). É nesta récita musicada e, depois, em «Jogar à sameirinha» (os títulos das faixas são deliciosamente portuenses) que ficamos a conhecer Zé Maria, “puto travesso com um enorme coração” no 6.º ano, que, a braços com o sempre complicado Francês (“Rien, rien, rien de francês”, Keso a brincar a Edith Piaf), se apaixona por uma colega de turma, a Bia. Calcorreando a baixa da cidade até “comer o tacho” na Dona Rosete, a idosa vizinha que toma conta da pequenada quando os pais não o fazem (“Quis a vida que não fosses Mãe / Quis o destino que tivesses filhos”, como melancolicamente se escuta em «Não há pai pra ti»), Zé Maria tem nos “mergulhos no rio à revelia, sob o olhar atento da pequena Bia” e no flirt disfarçado de jogos de caçadinhas a sua maior felicidade, culminada com os jogos da sameira (caricas) na Cordoaria (jardim histórico do Porto que, nos últimos anos, fruto de intervenções urbanísticas bárbaras, deixou de ser um local para namorar, como, em tempos, terá sido para estes dois miúdos…).

E é nesta paixão luminosa, inocente, pela Bia que Zé Maria vai expurgando o pai alcoólico e ausente que surge na terceira faixa («Põe-te fino e lambareiro»), único momento em que Minus se abeira do microfone para rappar (e que bem que o faz!…) sobre a disfuncionalidade de uma família como tantas que por aí (sobre)vivem (perfeito o riff da guitarra eléctrica a combinar com a amargura prestes a explodir do pai). O mesmo pai que “nada muda” com o passar do tempo, como ficaremos a saber em «Vai no Batalha» (piano angustiadíssimo a carregar o ar).

«As tuas repas», que começa com uma melíflua gargalhada que nos traz à memória «Alma Gémea» (álbum “Beats Vol. 1 – Amor”), de Sam the Kid, testemunha o crescimento dos agora adolescentes, que, já namorando, se preparam, com as dúvidas próprias da idade, para a “primeira vez” (não resistimos a citar a «primeira vez» de Virtus, o compagnon de route de Minus). Lindíssima canção em estilo coming of age que, sem se referindo explicitamente ao assunto uma única vez, nos transporta, com carinho mas também humor, para os tempos da iniciação sexual. A inocência da primeira vez dá lugar ao sexo corriqueiro que abre o Acto III, em nova aparição de Keso e em nova dose de sarcasmo e pantominice.

Amiga de infância de Zé e Bia, a Erika que já tínhamos conhecido de passagem em «Vai no Batalha» volta a entrar em palco em «Foguete nas Meias». Hoje uma mulher cuja labuta diurna não chega para alimentar a filha, Erika meteu-se na má vida porque, enfim, até poderia ter sido “Uma estrela de filmes nos Estados Unidos da América, [mas] nunca foi mais longe que a Península Ibérica / Nunca pôde ver mais que a série da TV Brasil, [por isso] percorre São Bento a Contumil”. Com o baixo groovy de Pedro Melo e a repetente Ana Alvarez (é ouvi-la em «Distraído», última faixa do EP de Minus) nos vocals, “À tua beira” marca a passagem de Zé e Bia para a idade adulta na individualidade e enquanto casal – “Juntaremos as cruzetas, baixamos as defesas / Somamos as despesas, podíamos ser pais!”. Lindo, hein?

«Vale dos lençóis» é uma das melhores faixas do álbum, através da qual somos apresentados à recém-nascida filha de Zé e Bia, com Logos a usar e abusar de um wordplay extraordinariamente criativo (como uma lengalenga para adormecer crianças), acompanhado, novamente, pela melodiosa Ana Alvarez. Não menos virtuosa é a canção que encerra com chave de ouro o álbum: «Trouxeste chuço» (para os incautos, chuço significa guarda-chuva) aponta-nos um rumo feliz para o futuro de Zé e Bia, se bem que, como se ouve, “Nem tudo é bom nem mau, nem tudo é mau nem bom” (se nos permitem: “Às vezes um gajo ri, às vezes um gajo chora / Dizem-me isto a toda hora”, como tão acertadamente resume Blasph em «Nuvens Cinzentas»). Novo momento inspiradíssimo de Logos que a um flow inebriante junta uma métrica de filigrana. Veja-se só este trecho: “Sem medo da / eu quero a / partilha da vida sem que te tire a alegria do caminho de caminhares à chuva / só porque a / tua não é só uma e passou a duas”. Ainda haverá tempo para Keso puxar novamente dos galões para retratar, com a mordacidade habitual, a família humilde pós-moderna (com tablets e “taxas de esforço”), mas isso já não muda nada: Zé e Bia estão felizes, e nós também. As histórias de amor ainda existem. A cortina desce sobre o palco.

Naquele que, tudo indica, será o ano do lançamento do segundo volume de instrumentais de Sam the Kid, “Passeio” confirma aquilo que “Distracções” já indiciava: Minus é um dos mais refinados produtores do hip-hop português da actualidade, artesão de luxuosas batidas jazzy (ecoam aqui as MPC de J. Dilla, Pete Rock, Madlib, J-Live, Kev Brown, etc.) ou negras e azedas consoante o ambiente que o tema reclama (e ainda há skits, para os mais beat addicted). Nas mãos de Minus, os samples, escolhidos a dedo, não receiam em entabular um diálogo com os instrumentos (baixos, guitarras), tudo em harmonia com o flow de Logos, que se adapta muito bem à atmosfera de cada faixa e que tem, neste álbum, uma oportunidade para se afirmar como um rapper e letrista a ter em conta no panorama do hip-hop português. Confiem, portanto, no crítico e comecem 2014 da melhor forma possível: a passear.



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