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Omar S

Lux, 20 Março.

Se por vezes algum preconceito ainda se levanta em relação à audácia e originalidade da música de dança, em algumas ocasiões soterrada sob o peso da comercialização e ânsia pelo lucro matemático 4 por 4 de elementos aleatoriamente pensados, a verdade é que detrás de todo o ruído há quem a pense seriamente, quase como uma ciência.

Omar S chegou a Lisboa rodeado de um aura quase messiânica; retirando aqui qualquer significado religioso ou mesmo político, a verdade é que ainda admiramos aqueles que conseguem impor a sua vontade pela perseverança somada à qualidade. A expectativa criada em seu redor foi potenciada pelas suas palavras em algumas (poucas) entrevistas recentes, onde, áspero e por vezes duro, defende-se de comparações e reafirma a sua índole independente.

Omar S é um cientista do ritmo, doutorado nas repercussões da percussão primitiva e seu impacto no corpo humano. Iniciou o seu set com batidas cruas e ácidas que incentivavam ao movimento. Recorrendo a temas instrumentais durante as primeiras horas, foi possível seguir a sua linha entre a saturação rítmica e períodos propositadamente calmos, mas sempre carregados pelos sub-graves das excelentes condições da discoteca.

Apesar de muitos não se aperceberem que presenciar um DJ set de Omar S não é algo muito comum, foi possível encontrar no meio do público a pontualidade de uma certa inteligenzia (sem conotação presunçosa) de DJs e conhecedores.

E havia razões para isso; é raro encontrar alguém com a postura deste norte-americano; sabe perfeitamente onde quer ir e como lá chegar. Exemplo disso é o mais recente volume da compilação Fabric onde apenas utilizou temas da sua autoria, negando divagações por trabalhos alheios.

Muitos foram os ouvidos e olhos atentos que seguiam a deslocação de Omar de uma ponta à outra da cabine – usando 3 pratos equilibrados com uma grande atenção aos pormenores, corrigindo milimetricamente pequenos atrasos/percalços de certos discos.

Pouco expansivo – contrariando a ideia de DJ entertainer que muitos insistem ser uma mais-valia, mas que não é mais que distracção desnecessária, Omar S percorreu os caminhos sólidos do Techno de Detroit com apontamentos de Jack e Deep House mantendo o set diversificado e interessante.

Foi uma oportunidade única de assistir a uma estreia em Portugal daquelas que valem mesmo o hype ainda que encapotado por uma certa dose de seriedade.



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Existem 2 comentários

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  1. Torpedo

    Ir ao Lux ver Omar S foi bastante nostálgico (+pos / -neg), tenho pena que o Lux já não seja aquele colosso e que exista uma falta imensa daquele público que tinha "uma certa inteligenzia" que sabia o que estava a ver, hoje em dia o público é diferente, menos interessante, menos culto e está ali porque é bem dizer que foi ao Lux.

  2. Mário-João Camolas

    Há muita gente que diz isso, mas o problema é geral.

    Parece ter havido uma notória mudança de comportamentos/interesses – mas há mais informação a circular, discordo que as pessoas estejam menos cultas.

    Talvez exista um pouco menos de paciência para a descoberta veiculada por outros, especialmente na música.

    Todos são DJs, mesmo que virtualmente. Há milhentas aplicações e fontes grátis para explorar então parece existir um reforço do gosto individual e colectivo.

    Por isso, podes ir ao Lux noutra noite, com outro tipo de som e encontras a pista cheia com reacções imediatas e indumentária a rigor…

    O Omar acaba por representar o encanto da ignorância e o desprendimento de expectativas "vai ser a melhor cena de sempre".

    Se calhar é isso que faz falta, algum alheamento e descontracção.


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