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Omar S

O neto de Detroit - cidade industrial, berço da Motown e do Techno. Omar S e a sua editora FHEX cumprem a tradição.

Detroit. Para quem gosta de música, o nome desta cidade norte-americana pode evocar várias coisas: a editora Motown (aí sediada), os Stooges e os MC 5 (considerados como umas das grandes influências do movimento Punk) ou George Clinton e o seu P-Funk.

Mas, para quem gosta e acompanha o que se vai passando na música electrónica (sobretudo a de cariz mais dançável), evoca primeiro que tudo a palavra Techno, pois foi em Detroit que este estilo, como hoje o conhecemos, nasceu; E a seguir a denominada “Santa Trindade” de bellevue que lhe deu origem: Juan Atkins (Cybotron, Model 500, etc), Derrick May (Rhythm Is Rhythm) e Kevin Saunderson (Reese, Inner City, etc).

Foram estes três os grandes artífices do Techno que criaram as bases pelas quais o estilo musical hoje se move. Com uma maior facilidade de acesso aos primeiros equipamentos electrónicos e fortemente influenciados pelo que ouviam na rádio pelas mãos do eclético radialista Electrifying Mojo (que passava, entre outras coisas, Funk/Disco nas suas mais diversas facetas; Synth Pop, Punk/Post-Punk/New Wave, Rock mais clássico ou o que futuramente veio a ser chamado como “World Music”), criaram música cuja inspiração, na maioria das vezes, parecia vir do espaço.

Nem de propósito, Derrick May afirmava que o Techno soava como se os Kraftwerk e George Clinton (Funkadelic/Parliament) estivessem presos num elevador e quem conhece a obra desses artistas sabe que a música que faziam na altura (anos 70), soava alienígena para ouvidos comuns. Pode-se dizer que os três de Detroit prolongaram essa tradição, com temas que ainda hoje continuam a soar ao mesmo tempo futuristas e actuais, como «No UFOs» de Model 500, «Strings Of Life» de Rhythm Is Rhythm ou «Big Fun» de Inner City.

Pouco tempo depois, ainda fortemente influenciada tanto pelos programas de rádio de Electrifying Mojo, como pelas produções da “Santa Trindade” e pelos já míticos DJ sets de Derrick May no Music Institute (o equivalente de Detroit do Paradise Garage de NYC ou do Warehouse e do Music Box de Chicago), surge a segunda vaga de produtores de Detroit: Carl Craig (o mais eclético), Stacey Pullen, Blake Baxter, Kenny Larkin, Kenny Dixon Jr (aka Moodymann), Theo Parrish (estes dois últimos mais ligados ao House do que propriamente ao Techno), “Mad” Mike Banks (Underground Resistance), James Stinson (Drexcya), Jeff Mills, Robert Hood ou Daniel Bell (estes três últimos os maiores responsáveis pela aplicação dos princípios do Minimalismo ao Techno), entre outros. Tudo nomes que directa ou indirectamente criaram novos paradigmas no que se ouve actualmente nas pistas de dança mais esclarecidas, e cuja importância é mais do que reconhecida.

É no seguimento deste contexto que acabam por surgir indivíduos como Alex Omar Smith, mais conhecido como Omar S, o auto-proclamado “Grandson Of Detroit” (neto de Detroit). Omar S, em conjunto com nomes como Jus Ed, Jason Fine, Luke Hess ou Kyle Hall (que, nem de propósito, editaram todos o primeiro disco através da editora de Omar, a FXHE), fará parte de uma terceira geração de produtores de Detroit, mas assumindo ainda uma personagem algo misteriosa.

Não dá muitas entrevistas, e, quando as dá, transparece um misto de arrogância com uma honestidade desarmante, mas também uma intenção de propositadamente mexer com as mentes com muitos palavrões à mistura. Não se coíbe de dizer o que pensa e não tem problemas em criticar nomes “consagrados” como Masters At Work, Kerri Chandler ou Ricardo Villalobos.

Em relação a este último, Omar S parece querer defender-se de comparações que inevitavelmente vão ser feitas quando sair o Fabric 45, onde apenas irá apresentar e misturar faixas suas, à semelhança do que fez Villalobos no Fabric 36.

Tendo em conta o que Omar S tem editado desde 2001,Villalobos terá um concorrente de valor. As suas produções revelam um espírito eclético, pois tanto produz músicas mais viradas para o House ou para o Techno (como «Psychotic Photosynthesis», seja a versão com ou sem beat ou «The Further You Look, The Less You Will See» ou o mais recente «Blown Valvetrane»), ou mais viradas para o Electro-Disco/Boogie («Thirteen», no seu projecto Oasis ou «Groove On» em que sampla «Baja Imperial» dos Plastic Mode, tema que vem na compilação “Unclassics”, misturada por Morgan Geist) ou até mais viradas para o Hip-Hop (como os 2 EPs “Side-Trakx”).

A produção das faixas tanto pode soar limpa, como suja – à boa maneira de Theo Parrish, e é através da editora deste, a Sound Signature, que sai o último disco de Omar S. Tanto vai buscar influências a  sonoridades associadas a Detroit como sonoridades associadas a Chicago. O último disco, “Blown Valvetrane”, faz lembrar coisas como as “Go Wild Rhythm Trax” de Virgo aka Marshall Jefferson. Todos os temas são feitos através de equipamento analógico, pois Omar S afirma que não gosta de trabalhar com computadores e respectivos softwares, preferindo o som algo rude que este tipo de equipamentos produz.

Para ajudar a dar uma maior mística, o site da editora de Omar S é também do mais simples que pode existir, com pouca informação e, aparentemente, um dos poucos sítios onde se consegue arranjar os discos seus e de quem edita pela FXHE. Muitos discos são marcados ou carimbados pelo próprio (através de marcadores que ele traz do emprego que tem na Ford), ou então aparecem com desenhos a preto e branco fortemente influenciados por jogos de vídeo – outra das grandes paixões de Omar S, ao que parece. Um pouco na senda do “so underground it hurts” de Abe Duque, e com uma atitude muito D.I.Y. que vem do espírito punk.

O mesmo espírito eclético que revela nas suas produções parece aplicar-se também aos seus DJ sets, onde passa de tudo um pouco: Disco, Deep-House, Acid-House, Techno e outras coisas que andem por essas redondezas. Corre pela internet fora que os seus sets são muito bons. E não será preciso muito tempo para o confirmar, pois Omar S tem uma data agendada para o Lux, no dia 20 de Março. Será a grande oportunidade de finalmente ouvir este neto de Detroit em acção.



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