On the milky road – Kusturika

On The Milky Road | Emir Kusturika

No passado dia 12 de Novembro a Sala 4 do Cinema Monumental foi palco para o grande Emir Kusturika, que veio até Lisboa para apresentar o seu mais recente (e absolutamente extra-sensorial) filme, ‘On The Milky Road’.

É o próprio Emir Kusturica juntamente com a belíssima (e recentemente quase local) Monica Bellucci quem protagoniza este que é, talvez, o romance de guerra mais colorido de que temos memória. O texto introdutório anuncia-nos que este é um filme baseado em 3 histórias verdadeiras e muitas fantasias e, sobre esta segunda informação, não há qualquer argumento contra. Se quisermos falar em adjetivos, épico é talvez o melhor e o único capaz de descrever o regresso do realizador sérvio aos grandes ecrãs, num filme que se centra no violento cenário das guerras civis que pautam a história da ex-jugoslávia. Em perfeita comunhão com a violência surge a exaltação da música balcânica com os seus ritmos perversamente contagiosos e também as sensações que se adornam com mil cores e que quase parecem extinguir os (muitos) espirros de sangue que pintam a tela do grande ecrã.

Uma provação e sedução em constante “toca e foge” que tem início logo nos primeiros momentos do filme, onde somos saudados com uma espécie de bailado dos gansos que correm e se (quase?) divertem enquanto se banham em sangue de porcos degolados. Também há serpentes leiteiras, ovelhas que explodem em campos de minas e ursos que dividem gomos de laranja com os humanos. Mas, bom, vamos ao que interessa: a Belluci.

É pela beleza desta que o personagem de Kusturica, Kosta, se apaixona. Um personagem que se faz sempre acompanhar por um burro incrivelmente fiel e que ganha a vida a desafiar as leis das bombas e das balas para levar leite às tropas da linha da frente. A juntar a esta dupla imbatível, existe ainda um falcão que, através do requinte da câmara de Goran Volaverik, nos leva pelas asas a ver o mundo através dos olhos de um pássaro. Nesta que é uma comunidade um tanto ou quanto louca, surgem ainda a personagem Milena (Sloboda Mićalović) que, para ver cumprido o seu desejo em ver-se casada com Kosta, escolhe a Noiva (nome quase oficial da personagem de Belluci) para desposar o seu irmão, um ex combatente de guerra prestes a regressar à Bósnia, Žaga Bojović (Predrag Manojlović).

On the milky road - Kusturika

Este último elemento do enredo, facilmente reconhecível pelo espaço no seu rosto onde outrora existiu um olho, é talvez a personagem mais visceral da tela, sendo ultrapassado apenas pelos pássaros, elemento chave de toda a narrativa, e que existem para, metaforicamente, reforçar a natureza animalística do ser humano.

No dia desse tal casamento arranjado, em plena Bósnia rural e em que tudo nos indica que estamos perante um cenário de guerra infinita, eis que (finalmente!) começa o grande arraial. Fugas vertiginosas que nos fazem delirar com as cores com as quais se pintam as situações sombrias, em que vemos mortos sorrir por entre as cores das bombas que, a cada explosão, nos aproximam a passos largos daquele que é um final de filme, no mínimo, apocalíptico.

Um verdadeiro funeral de cores que parece provar-nos que o lado mais sombrio das coisas pode, afinal, ser a coisa com mais graça do mundo. Quando questionado no fim, Kusturika fechou a festa com chave de ouro: ‘People make dark movies because it’s the easy way to look serious.’.

Verdade ou não, este é (talvez) o surrealismo mais honesto que Kusturika já imprimiu no grande ecrã. Melhor do que isto, só LSD. Ou não…

 

 

 

 



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