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On the Road, por Tiago Gomes & Tó Tripps

Pela estrada fora...

“Havia em redor um ar de mistério. O carro rolava numa estrada lamacenta, elevada sobre os pântanos, que aluía de ambos os lados e deixava pender gavinhas. Ultrapassámos uma aparição: um negro com uma camisa branca que caminhava com os braços levantados para um céu de tinta.
Talvez rezasse ou invocasse uma maldição.
Passámos que nem setas a seu lado; voltei-me para olhar através do óculo traseiro e ver os seus olhos brancos”. *

Foi numa hermética cave do 211 da Avenida da Liberdade, importante residência de artistas da comunidade lisboeta, que fomos encontrar Tó Trips e Tiago Gomes de volta das gravações daquilo que vai ser o disco do espectáculo-viagem “On the road”.

“On the road” nasceu do convite feito a Tó Trips para tocar na apresentação da exposição “Remembering Jack Kerouac” que, em 2007, assinalou os 50 anos do lançamento de “Pela estrada fora” [“On the road”, no título original”], livro de Jack Kerouac e obra seminal da geração beat. Tó Trips explica que o convite a Tiago Gomes para participar no espectáculo partiu dele e que foi uma “coisa algo natural”.

“As únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que não bocejam, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir” *

Não deixa de ser curioso que um dos livros mais importantes da contra-cultura norte-americana seja agora, meio século depois, homenageado em Portugal por dois dos mais proeminentes nomes da cultura mais marginal portuguesa. Tiago Gomes, poeta desalinhado e artista empreendedor nas mais variadas áreas (escritor, editor, dj, letrista, promotor e um sem número de outras actividades), é, por exemplo, fundador da galeria Zé dos Bois, que é actualmente um dos espaços fundamentais do roteiro alternativo da noite lisboeta. Tó Trips, por sua vez, apesar de ser hoje um nome com mais visibilidade, graças à maior exposição que o sucesso comercial dos seu Dead Combo permitiu, continua a ser outro homem dos sete ofícios e foi, por exemplo, um dos músicos dos Santa Maria Gasolina no Teu Ventre, um dos mais importantes ovnis que cruzaram a música portuguesa, uma experiência radical no rock nacional sem paralelo nos últimos anos.

Foi no mesmo 211 da avenida da Liberdade que Tó Trips e Tiago Gomes subiram juntos ao palco, pela primeira vez, para homenagear Kerouac. Tiago Gomes explica que “o espectáculo foi feito sem ensaiar”, mas como “correu muito bem”, decidiram levar o projecto “mais a sério”. Hoje em dia, já o repetiram mais de 20 vezes, ao longo de várias cidades e muitos quilómetros depois, ou não fosse este um livro que “tem tudo a ver com a estrada”.

“(…) e sua “criminalidade” não era algo desprezível ou enfadonho, mas uma vibrante explosão de alegria americana, era o oeste, o vento do oeste, um cântico às planícies, algo novo, há muito profetizado, vindo de longe (ele só roubava carros para passeios festivos (…)” *

A viagem é um percurso entre dois pontos e, pelo meio, compreende uma ou várias mudanças a todos os níveis, físicos e psicológicos. “Pela estrada fora” tornou-se num dos livros mais importantes por ter cristalizado este simbolismo em palavras, personagens e experiências, ao sabor da batida do jazz, do álcool e da benzedrina. No fundo, é uma viagem na direcção ao nada, na qual o que interessa não é chegar, mas caminhar, na ânsia de exterminar um mal-estar crescente, acreditando que é preciso viver cada segundo da vida até ao máximo esgotamento possível. “Só pode ser o fim do mundo se avançarmos”, já havia escrito Rimbaud.

Tiago Gomes, enquanto Tó Trips grava uma linha de guitarra poeirenta, arrastada pelo deserto, aguarda metodicamente por entre vários volumes e edições diferentes do livro de Jack Kerouac, confessando ter uma “relação de amor e ódio” com o livro. Este espectáculo-viagem – que não é rock, nem spoken-word, é o que “qualquer um quiser” –, que consiste em dar uma banda-sonora às palavras de Kerouac, é “uma adaptação muito livre onde se cruzam muitas coisas”, explica. Tó Trips concorda e revela que gosta da experiência, por lhe permitir “experimentar várias coisas”.

(…) Quando uma pessoa morre, sofre uma mutação cerebral sobre a qual nada sabemos actualmente, mas que um dia será perfeitamente inteligível, caso os cientistas se empenhem mais nisso. Os sacanas, pesentemente, só estão interessados em saber se conseguem mandar o mundo pelos ares.(…) *

Se, inicialmente, os espectáculos ao vivo se baseavam na guitarra e nos efeitos de Tó Trips, sob as leituras de Tiago Gomes, o disco que agora é gravado conta com várias participações, montando por trás uma estrutura convencional de banda que poderá abrandar algum do experimentalismo mais livre. Tiago Gomes espera ter esses convidados em palco, “pelo menos, na apresentação ao vivo do disco”.

O livro foi escrito por Jack Kerouac em apenas três semanas, num longo rolo de papel, feito com folhas de quatro metros coladas umas às outras, sem margens e sem parágrafos. O álbum foi gravado em menos tempo, em cerca de uma semana, e deverá ver a luz do dia em Março. A intenção de Tó Trips é “fazer um bom disco” e corresponder às expectativas do convite de Henrique Amaro, conhecido radialista da nossa praça e um dos mais importantes impulsionadores da música portuguesa nos dias que correm. A partir daí, o objectivo passa pela promoção ao vivo, no maior número de sítios, o maior número de vezes, percorrendo o país de cima a baixo, pela estrada fora.

* “Pela estrada fora”, Jack Kerouac, tradução de Armanda Rodrigues e Margarida Vale de Gato, 1998



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