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Onde pára a Arte?

Estivemos em Madrid a acompanhar a Feira de Arte Contemporânea Arco.

Num sábado à tarde entramos no metro. Na mochila, a máquina fotográfica, um bloco de notas e o espírito em aberto. Olhamos para as pessoas que vão entrando nos vagões do metro e que a selecção artificial das estações cospe ou acolhe numa tarde urbana. Tudo é vulgo, sim, mas todos os sorrisos, todas as cores de que nos vestimos, a linguagem que mascara o que não queremos que se veja, tudo é expressão e tudo fala.

Pensamos, nessa bonomia das reflexões irreflectidas, sem qualquer pretensão de fazer filosofia de bolso, de onde é que vem a Arte. Pensamos onde é que a podemos encontrar, onde é que ela se esconde, e quem é que a revela e a traz até nós.

Donde vem a Arte?
Do mais profundo de nós, de um sentimento interno virado para o exterior, de uma constante auto-reflexão num contexto hetero dominado. A arte traz-nos para mais próximos de nós próprios, e mantém-nos nesse limbo com o exterior. A arte é assim um espelho de todos aqueles sentimentos que cremos que mais ninguém acede.

Talvez nunca tenhamos precisado mais de Arte do que agora.

Chegamos ao destino que marcamos para hoje. A estação de metro é a de Parque de las Naciones, onde está o IFEMA, o enorme recinto que acolhe um ano mais a Feira de Arte Contemporânea Arco.

Entramos num recinto onde o mais simples é assumir à partida que o melhor é ter baixas pretensões e não desejar ver tudo numa tarde. Temos duas opções: ou delineamos um plano ou deixamo-nos ir ao sabor de onde nos levem os olhos, de onde nos detiver os sentidos. Afinal, estamos numa enorme exposição que apela desde logo aos sentidos, aquilo que se prende, ao que nos chama a atenção.

Deambulamos pelos pavilhões e a diversidade salta à vista: sapatos empilhados numa parede formam um rosto aterrador, fotografias silenciosas deslizam para dentro de sentimentos em bruto, capturados em imagens auto-evidentes, a expressão plastificada em objectos mais duvidosos e igualmente curiosos, como duas esculturas de dois homens que pedalam feita somente com mostradores de relógios.

Este ano, o país convidado da Arco foi a Índia, que nos ofereceu uma vasta panóplia artística, sobretudo fotográfica. Várias obras de distintos artistas deram-nos uma perspectiva deste país, mas foi sobretudo através da selecção de fotografia que se destacou.

As obras representadas destinam-se a diferentes sensibilidades estéticas, assim como a distintas “sensibilidades monetárias”. Não nos devemos distanciar do facto de a Arco ser, na sua essência, uma feira de arte, com um objectivo sobretudo comercial. Mas tal não quer dizer que nos devamos esquecer ou apagar o seu elevado potencial expositivo e a sua conversão numa imensa galeria-forum artística que, ao mostrar-nos as obras de distintas galerias, oferece-nos também a possibilidade de ver e auscultar o que é que se anda a fazer em termos artísticos pelo mundo.

Os temas recorrentes artísticos vão desde o no sense à mais profunda crítica social. Uma sequência de fotografias mostrava-nos uma mulher vestida de soldado e em cada fotografia, no meio do arsenal militar, reluziam pequenos objectos alusivos a uma infância ou a um mundo “feminino” como uma Barbie ou uma lingerie rosa fuscia. Jogos de imagens Três-D, retalhos dos discursos de Obama, pequenas mensagens directas e nada subliminares, uma tela com uma planta de uma cidade em que o visitante pode usar de tinta correctora para apagar as linhas que não interessarem, jogos de texturas, cores, tecidos, objectos, perspectivas, alusões à palavra crise (um artista plástico espanhol colocou em tela distintas manchetes de jornais que mencionavam a palavra crise nos mais distintos contextos), tudo estava ao alcance dos nossos olhos e juízo crítico.

Quanto aos galeristas, a sua maioria eram espanhóis, com uma sobre-representação de galerias madrilenas (compreensível, por ser a cidade anfitriã, mas talvez deixando pouco espaço para outras). A Arte portuguesa estava timidamente representada, notando-se que não parece que haja uma grande ligação ibérica artística, o que não se entende no contexto actual. A uma boa cooperação económica e estreitamento de laços políticos e sociais, seria importante fomentar um estreitamento cultural que acaba por resultar também numa proliferação de relações económicas. Algumas obras interessantes, mas as galerias apostaram pouco em novos artistas e mais em consagrados como fotografias de Helena Almeida, aproveitando, neste caso em especial, a recente exposição em Madrid da fotógrafa. Note-se, no entanto, que, embora não proliferassem as galerias portuguesas (embora seja útil sublinhar a importância que a sua participação representa no panorama artístico nacional), havia bastantes visitantes portugueses o que consideramos um factor extremamente positivo. Saber o que se faz, o que se mostra, pode ser um bom ponto de partida para outro tipo de parcerias e/ou eventos mais localizados, com menor abrangência, mas sem dúvida potencialmente profícuo.

Quanto a outros ambientes para além das mostras de Arte das Galerias, especial atenção para as inúmeras representações de publicações especializadas na Feira. Para além das diversas publicações e de venda de respectivo merchandising (veja-se por exemplo, as pequenas lojas do Museu Rainha Sofia ou do Fórum La Caixa, que estiveram presentes com stands onde vendiam livros e outros “souvenirs” artísticos, contribuindo para assim reforçar e recolocar a cidade de Madrid na rota das cidades de Arte, a par de Paris, Barcelona, Londres ou até mesmo Nova Iorque), destaque também para a apresentação de projectos mais além da pura edição, mas verdadeiros projectos de design “la más bella”.

Helena Dias Peres, designer de Comunicação, que pacientemente acompanhou a Rua na sua incursão pela Arco, comentou-nos que, em relação ao ano passado, a Arco deste ano parecia ter menos afluência. Por outro lado, diminuiu o número de galerias representadas. Não obstante, tal não constitui uma diminuição da qualidade. Para a designer, ao contrário, uma selecção mais apurada de galerias e uma disponibilização de espaço mais restrita, obrigou a uma melhor selecção das obras representadas este ano.

Este ano, com a sombra inevitável da crise financeira, a grande questão em torno da Arco era relativa à sua rentabilidade. Em tempos de crise, há disponibilidade financeira para investir em Arte? A questão é especialmente delicada em Espanha, porque, se bem que se fala nos produtos de “luxo” que não ficam ameaçados em tempos de crise (veja-se o caso de Portugal, em que o mercado de automóveis de luxo por exemplo não sente os mesmos impactos que o sector automóvel de gama média), o facto é que Espanha tem uma classe média-alta emergente com um bom poder de compra. Ora, com a crise financeira, essa classe média-alta ou média “confortável” tem sido severamente afectada pela crise, pois o rebentar da bolha do imobiliário arrastou muitos pequenos-médios empresários e quadros qualificados para o desemprego ou processos de falência.

A questão era assim a de saber quem compraria Arte em Espanha? Quem estaria interessado em comprar Arte numa Feira que convive paredes meias com notícias quotidianas sobre o corte dos créditos no sector bancário ou o aumento do número de desempregados? Contudo, de acordo com Luís Eduardo Cortes, presidente do Comité Executivo do IFEMA e Lourdes Férnandez, directora da Feira, as vendas mantiveram-se assim como o número de visitantes. Ambos revelaram também à imprensa depois do encerramento que, embora se tenham vendido peças mais baratas, foram mais os compradores. Foram também anunciadas algumas alterações para o próximo ano. Assim, em vez de país convidado, a Arco passará a receber uma cidade convidada. Em 2010 a cidade será Los Angeles.

Às nove da noite, as portas do IFEMA começam a encerrar e as pessoas vão-se despedindo das obras que não puderam comprar, asegurando-se no entanto que “interagiram” na margem de interacção possível que as obras representadas lhe ofereceram. Por exemplo, durante a tarde um miúdo de cinco anos, aproximadamente, ia a brincar pelos corredores e decidiu que deveria seguir o jogo numa estrutura de metal colorida exposta. O galerista, ao ver a criança aproximar-se, apoderou-se de um desmesurado pânico e correu a “salvar” a estrutura. O pai da criança fingiu ralhar com o miúdo, cujos olhos mostravam que não entendiam a razão de semelhante pânico. Creio que os olhos do pai denotavam a mesma vontade do miúdo de seguir a brincadeira e a mesma incredulidade perante toda a histeria, ainda que disfarçado de uma grande reprimenda e ameaça de castigo.

Relatamos esta história que nos devolve ao mote do início. Por onde pára a Arte? Está nas paredes, até mesmo no chão que um visitante mais descuidado tropeça, está nos olhos de um miúdo que quer seguir a brincadeira numa estrutura de metal, está nesse “chelique” histérico de um galerista, no momento em que o pai que ralha quer-se rir, nos sapatos pendurados na parede, ou nos calçados nos pés de uma mulher que toma um café na cafetaria de uma feira? Passeámos pelo IFEMA, vimos obras diferentes, movimentos e cores distintas de expressar o quotidiano. Mas no fundo, vimo-nos a nós. Às nossas emoções representadas em mostradores de relógios que formam rostos, em desejos e expressões de cansaço, em desespero e palavras, actos ou omissões. Talvez afinal seja por nossa culpa, nossa tão grande culpa que seja tão difícil apreciar a Arte do nosso tempo. Nem sempre é fácil vermo-nos ao espelho.



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