Optimus Primavera Sound | Dia 2 (8.6.2012)

Optimus Primavera Sound | Dia 2 (8.6.2012)

Começamos a ser invadidos por aquela estranha sensação de que estes dias magníficos que estamos a viver estão a chegar ao fim...

Ao segundo dia houve Primavera em todo o seu esplendor no Porto. Houve grandes concertos, houve uma necessidade imperiosa de fazer escolhas (algumas bem complicadas) e houve um corropio constante entre palcos. É que no Primavera é um desperdício ter tempos mortos…

A longa maratona de concertos arrancou logo pelas 17h, no palco Primavera e ao som dos Linda Martini, que estão num momento invejável. Têm presença (nenhuma surpresa aqui); o som que destilam assemelha-se a esculturas sonoras. É intenso, no mínimo… O alinhamento também não engana ninguém; canções como «Dá-me a Tua Melhor Faca», «Amor Combate», «Mulher a Dias» ou «Juventude Sónica» conseguiram pôr a pequena multidão que se juntou por ali a saltar e a cantar em uníssono. E para fechar com chave de ouro houve «Cem Metros Sereia».

O momento a seguir coloca-nos perante a primeira encruzilhada. Ver os portugueses We Trust ali ao lado, no palco Optimus, ou ir até ao palco ATP ver como se saem os norte-americanos Tall Firs. A decisão é tomada de imediato e sem grandes hesitações. Começa-se a ver We Trust e depois vai-se espreitar Tall Firs. Circular. Esta é uma das palavras-chave do Primavera, estejamos em Barcelona, junto ao Mediterrâneo, ou no Porto, junto ao Atlântico. Os We Trust de André Tentugal são simpáticos mas não passam disso mesmo. Os Tall Firs também não acrescentam muito mais, verdade seja dita. Também são simpáticos, é certo, e até proporcionam um momento agradável de folk simples e desprovido de grandes arranjos (o belo cenário onde o palco ATP se encontra também ajuda a potenciar isso mesmo), com as centenas que por ali se encontram, sentados na relva a saborear uma imperial ou um copo de vinho enquanto assistem ao concerto.

A pontualidade é uma das imagens de marca do Primavera. O que para alguns pode parecer um preciosismo, é na realidade um ponto fulcral, que possibilita toda a dinâmica que o festival tem. É esta pontualidade que permite ao festivaleiro traçar a sua própria rota e saber, com toda a certeza, quem o espera no palco para onde se dirige. Assim, às 19h em ponto, são os Yo La Tengo que tomam de assalto o palco Primavera. A banda de New Jersey é incontornável na história do panorama da música independente e faz questão de o deixar bem claro em palco. Os 90’s sentem-se a cada acorde, a cada nota ou batida que Ira Kaplan e companhia tocam. Há também a distorção que torna impossível não pensarmos nos Sonic Youth.

Os Yo La Tengo estão a carburar bastante bem mas o magnífico final de tarde que se faz sentir no Parque da Cidade torna irresistível o apelo para ir ver os Tennis no palco ATP. É daqueles casos em que a música cola com o período do dia mesmo na perfeição! Os Tennis são composto pelo casal Alaina Moore e Patrick Riley, que em palco são acompanhados por mais dois elementos, e estão ali para nos apresentar “Cape Dory” e “Young & Old”. A receita seguida é simples e resulta bem, pelo menos no curto prazo. Uma voz quase angelical, combinada com os teclados que nos dão temas como «Marathon» ou «Petition», que fazem as delícias de muitos dos presentes.

Às 20h15 tem início um dos grandes concertos do dia. No palco Optimus, é a vez de Rufus Wainwright. O título de roadie com mais estilo fica desde logo entregue. Quantas vezes já viram um roadie a trabalhar de fato? Pois é! O Rufus Wainwright tem um. A entrada em palco por si só tinha força para deitar a baixo qualquer cepticismo; sem instrumentos, apenas com Rufus, a sua (magnífica) voz e a o apoio de toda a banda nos coros. Depois o que tem lugar é um concerto cheio de boa disposição, com «The Greek Song» a ser dedicada aos gregos, por quem promete rezar um bocadinho, ou «Tired of America», dedicada a Mit Romney e com o pedido para que os americanos presentes na assistência não votem nele. No final, em jeito de encore algo improvisado, houve ainda tempo para um cover de «Hallelujah», com Rufus só, ao piano. Foi um daqueles concertos que enche as medidas.

Segue-se uma pausa para jantar, que se quer breve. Depois a ideia passa por espreitar os Black Lips ali mesmo ao lado no palco Club e procurar apanhar o final da actuação dos Flaming Lips de Wayne Coyne. Bem dito e bem feito. O concerto dos Black Lips tem lugar no palco Club, que para receber os nativos de Atlanta parece ter sido transformado numa garagem gigante. A visita é quase de médico mas não há que enganar: por ali serve-se punk rock de garagem em doses muito elevadas, para agrado das largas centenas que enchem por completo o espaço. Há que acelerar o passo para ver a parte final do concerto dos Flaming Lips. Quando se chega ao palco Primavera, a banda prepara-se para o encore, ao som de «Do You Realize?». O que se segue é festa pura com confetis por todo o lado. Sobre o palco, Wayne Coyne tem na sua face estampada uma cara de missão cumprida com distinção. O público concorda e perante o cenário que nos rodeia não há como desmenti-lo; na zona em frente ao palco os confetis são mais visíveis do que a própria relva.

Às 23h15 é a vez de Jeff Tweedy e os seus Wilco subirem ao palco. A caminho do palco Optimus, onde o concerto iria ter lugar, há ainda tempo para fazer uma paragem rápida junto às grades do palco Primavera, ali mesmo ao lado, agora despidas de público. Em cima do palco elementos dos The Walkmen afinam os instrumentos e ultimam detalhes sob o olhar atento de Hamilton Leithauser. Os Wilco são daquelas bandas que funcionam como um reflexo do que é o country e o folk norte-americano, sem esquecer o indissociável rock. “Sky Blue Sky” é sem sombra de dúvidas o álbum recente da banda que reúne maior consenso, porém as novas experimentações que a banda levou a cabo no seu último álbum, “The Whole Love”, terão deixados alguns fãs mais cépticos. «I Might», que foi escutada logo na fase inicial, deixou inclusive a descoberto alguma indiferença. Felizmente têm a possibilidade de nos oferecer obras-primas como «Impossible Germany» que terá sido, por ventura, um dos melhores momentos do concerto, se não mesmo o melhor. Foi um concerto morno numa noite quente.

Uma da manhã e é a hora do dilema. Da decisão que poderá ou não trazer arrependimento. Qualquer que seja a decisão a tomar, esta deve ser firme e decidida, por forma a que a dúvida, que fica sempre a pairar no ar, seja a menor possível. No palco Primavera há The Walkmen, com o acabadinho de lançar e mui recomendável “Heaven”. No palco Club há Beach House, com o também novo “Bloom”. A escolha recai sobre os últimos, talvez por uma parte de mim já ter absorvido mais as canções de “Bloom” e querer ver como funcionam ao vivo. Não pode nem deve deixar de ser dito que a escolha do palco para os Beach House poderá não ter sido a melhor visto que o espaço, de longe o mais pequeno dos quatro palcos, se revelou muito pequeno para tanta gente ávida para ver Victoria Legrande e Alex Scally. Espaço à parte, o concerto é exactamente aquilo que se esperava; perfeito. O alinhamento é repartido entre “Teen Dream” e “Bloom”, com «Wild», deste último, logo no início do concerto. «Norway» é o tema seguinte e a partir daí ninguém pára os Beach House. A voz de Victoria continua igual a si própria; rouca mas sensual ao mesmo tempo. Os Beach House têm uma capacidade ímpar de fazer sonhar quem os ouve e ali isso voltou a acontecer. Exige-se um regresso em nome próprio para breve!

A fechar um dia de belos concertos estiveram os M83 de Anthony Gonzalez, que subiu ao palco Optimus, no belo (é o adjectivo perfeito e mais utilizado) Parque da Cidade, para apresentar o mais recente “Hurry Up, We’re Dreaming”. Foi a escolha perfeita para encerrar a noite de concertos no espaço dos palcos Optimus e Primavera e colocar largos milhares a dançar. Logo no início houve «Intro», o tema que abre o mais recente álbum, aqui sem Zola Jesus mas não menos intenso por isso. Os momentos mais celebrados da noite aconteceram ao som de «We Own the Sky», do álbum “Saturdays=Youth” e, como não poderia deixar de ser, por «Midnight City», talvez o melhor single que viu a luz do dia durante o ano passado. Um grande concerto que apenas pecou pela curta duração… ninguém se incomodava com mais 30 minutos, acreditem. Amanhã já é o último dia no Parque da Cidade e começamos a ser invadidos por aquela estranha sensação de que estes dias magníficos que estamos a viver estão a chegar ao fim…

Reportagem do primeiro dia do Optimus Primavera Sound aqui; terceiro dia aqui.

Fotografia por Graziela Costa. Reportagem fotográfica do primeiro dia aqui; segundo dia aqui; terceiro dia aqui.



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