Os Amantes Passageiros

“Os Amantes Passageiros”

Uma orgia entre o kitsch e a mescalina

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Irreverente, anárquico, escandaloso, Pedro Almodóvar regressa à comédia após ter explorado, durante a última década, as profundezas humanas. Para trás ficam o melodrama e o tom noir. O seu mais recente filme, que se tornou num blockbuster em Espanha, é permeado por um incontrolável impulso erótico, uma espécie de delírio organizado. Este parece ser o antídoto encontrado pelo realizador espanhol para enfrentar o medo da morte, o medo do vazio que rodeia um grupo de estranhos.

Após ter trabalho com material um pouco mais sombrio e pesado, o filme tenta trazer aos espectadores o Almodóvar de “PepiLuciBom y otras chicas del montón” e “Mujeres al borde de un ataque de nervios”. Embora existam alguns comentários à actualidade política e social espanhola, o filme é preenchido por algumas peripécias sexuais que o tornam numa comédia deliberadamente ousada.

A sua poética paixão pelo amor homossexual, a loucura total entre homens e mulheres e uma boa dose do que de melhor os anos 80 têm para oferecer, são os ingredientes desta história preenchida pela participação de dois actores fetiche do realizador (Antonio Banderas e Penélope Cruz) e protagonizado por uma mão cheia de actores que fazem parte do seu universo. Com isto seria de esperar um colorido, reconhecível e atraente resultado final que, ao longo das últimas três décadas, muito prazer tem dado aos amantes do cinema espanhol. Qual a razão para isto não acontecer? A enorme lacuna de um genuíno lado divertido. O filme acumula problemas e desperdiça oportunidades. Nem mesmo o medo da morte é utilizado como um formidável elemento para criar tensão. Esse medo serve apenas para libertar alguns desejos obscuros dos personagens.

Estranhamente, as cenas que carecem de mais energia, e acabam por se tornar um pouco aborrecidas, são as paralelas à acção principal. Poderia ter sido uma ideia genial optar por desenvolver toda a acção num mesmo local, forçando as personagens a comunicarem de formas variadas e menos virtuais. O realizador tenta através desta opção permanecer dentro dos limites e ritmos da farsa, minando qualquer tipo de narrativa, ampliando cada movimento dos seus personagens e aproveitando o absurdo das circunstâncias e dos diálogos.

Qualquer cinéfilo tem conhecimento de que o kitsch está na base da identidade artística de Pedro Almodóvar. Nesta sua última obra esse seu lado tende a deslizar para o mau gosto, levando a uma carência de brio e à incapacidade de manter uma harmonia entre os elementos que o constituem. Se a parte mais divertida do filme é quando os protagonistas fazem um playback de “I’m so excited”, é porque algo não funcionou e o realizador não conseguiu dar um passo atrás e observar do lado de fora.

Totalmente kitsch, “Los Amantes Pasajeros” é uma selvagem comédia que leva o realizador espanhol às suas raízes. Do playback às drogas, passando por um conjunto de bizarros telefonemas, tudo é cómico, tudo é politicamente incorrecto. Não importa se está a falar de homossexuais, banqueiros, amantes, pilotos, sexo ou de política. Aqui tudo é abordado de forma subversiva e bem mais extravagante do que anteriormente.

Estreia a 18 de Abril



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